Quinta-feira, Julho 2, 2020
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MUNHUB, criativos unidos para conquistar os mercados na Ásia

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Texto Sandra Lobo Pimentel | Fotos Carmo Correia

 

Os dois criadores responsáveis pelo projecto local Lines Lab lançaram-se a um novo desafio para ajudar a própria marca e outras a conquistar o seu espaço deste lado do mundo. Manuel Correia da Silva e Clara Brito chegaram a Macau em 2002. Mais de uma década volvida, decidiram fundar um novo projecto, a MUNHUB, uma plataforma para dar a conhecer e comercializar as marcas de pequenas e médias empresas que surgiu “exactamente daquilo que são as necessidades” da própria Lines Lab.

“Somos designers, por isso gostamos de fazer coisas, construir coisas e depois dar-lhes a vida comercial e colocá-las no mercado”, explicou à MACAU Manuel Correia da Silva. Serem criadores locais acabou por significar “todo um processo de aprendizagem”, mas chegada a hora de dar o passo em frente, a dupla decidiu que era necessária uma reorganização e, acima de tudo, “abordar o mercado de forma mais eficiente e profissional”.

Contribuiu também o facto de saberem que muito do mercado “sofre com o mesmo desafio e muitas outras marcas e designers, não estando aqui, sentem necessidade de partilhar este mercado da China”. A ideia base da MUNHUB passa por poder “associar a nossa acção profissional com a prestação de serviços a outras marcas”, até porque já têm experiência de participação em feiras e contacto com alguns compradores.

“Como pequena empresa que somos, por vezes, vamos demasiado pequenos, e é difícil convencer muito do mercado que está habituado às grandes marcas e grandes operações. Achámos que se fôssemos em conjunto teríamos muito mais força.”

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Maioria das marcas são portuguesas

A ideia de criar esta plataforma em Macau cedo se virou para o mundo lusófono e Manuel Correia da Silva admite que a maioria das marcas que já contactaram são de Portugal. Isto porque, defende, “temos que ser realistas, porque na área da moda e do design há muitas diferenças de desenvolvimento”.

O criador sabe que há países como Angola ou Moçambique que não conseguem ainda competir com o desenvolvimento na área que já existe em Portugal ou no Brasil, no entanto, a abertura existe para quem tem produtos de qualidade e que possam ser comercializados.

“Temos a experiência da nossa marca que queremos rentabilizar, e com isso potenciar as vendas dos nossos produtos e também dos outros”. No entanto, é preciso que as marcas seleccionadas tenham capacidade para responder aos mercados, mas também que os passos sejam dados numa dimensão realista. “Nas feiras as pessoas querem sempre ver mais. Mas temos a dimensão que temos e não conseguimos mais. Depois não teríamos capacidade para acompanhar”.

Sobre a forma de abordagem ao mercado, Manuel Correia da Silva admite que não podem competir pelo preço baixo. “Não teríamos hipótese porque a China fá-lo-á sempre mais barato que nós. Por isso temos que fazer melhor e diferente e criar uma união para sermos mais fortes.”

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Dois eventos e mais se seguem

A MUNHUB tornou-se realidade em finais de Agosto e os criadores começaram por criar um calendário de eventos e feiras para marcar presença. Até à data, participaram numa feira inédita no Hong Kong Design Market e ainda no certame In Bed With Designers em Taipei.

Para o evento em Hong Kong, que decorreu entre Agosto e Outubro, a MUNHUB esteve presente com cinco marcas provenientes de Macau, Portugal e uma de Angola. Num edifício dedicado às indústrias criativas, o contacto com as marcas foi feito de forma informal mas directa. “A base do evento é a de potenciar a ideia dos criativos emergentes”, sublinhou Manuel Correia da Silva.

Para o evento em Taiwan, que se seguiu em Outubro, juntou-se outra marca portuguesa “que trabalha com tecidos inteligentes”, numa aposta da tecnologia aliada à criatividade. In Bed With Designers trata-se de um “projecto original”, frisou o criador, que decorreu de 8 a 12 de Outubro. “Os organizadores criam parcerias com hotéis e atribuem um quarto a cada designer. Nós redecoramos o espaço e as pessoas são convidadas a visitar. O nome do evento surge porque dormimos nesse mesmo espaço, o que cria um contacto mais íntimo com os produtos e com os criadores. É uma maneira diferente de falar de negócios e para o comprador é mais estimulante.”

Sobre a escolha dos locais onde marcam presença, Manuel Correia da Silva explica que “é importante trabalhar com eventos com boa estrutura e uma rede de contactos forte”. Especialmente na fase inicial do projecto.

Quanto à estratégia, acredita que “o comprador que já tem as grandes marcas começa a dar atenção aos criadores emergentes e à história que está por trás do produto final. O que pode cativar as pessoas é poderem participar, por vezes, até no processo. A chamada personalização, por exemplo.”

Em Outubro fechou o primeiro ciclo de eventos, que mais não foi do que um preparo para o futuro, até para acertar métodos de trabalho. “Estamo-nos a testar uns ao outros. E ao mercado, claro.”

Para o fundador da MUNHUB, a ideia de plataforma tem que ser de conteúdos. “Para isso queremos criar uma rede social, online, para depois se tornar uma rede comercial. As pessoas têm primeiro que se apaixonar pelos produtos e, para isso, é importante contar as histórias.”

Manuel Correia da Silva diz que aprendeu em Macau a ser muito pragmático e a procura de parceiros foi progressiva. “Quando decidimos criar a MUNHUB já conhecíamos algumas destas marcas e até já as tínhamos trazido a Macau para o Macau Fashion Link.”

No entanto, “não havia negócio para fazer”, revelou. “O melhor que podemos ganhar em Macau é a promoção, mas mesmo assim, é sempre difícil projectar para fora o que acontece aqui. Mas as marcas também levam o evento para onde estão sediadas.”

Apesar da lógica da parceria, a MUNHUB assume-se como prestadora de serviços. “’É a única forma de fazer o projecto funcionar. A questão das indústrias criativas é essa: a criatividade existe, mas a indústria ainda não. Tem que haver rentabilidade e sustentabilidade.” De acordo com o fundador, foi fácil convencer as marcas e o projecto corre agora por si só. “Agora já são as marcas que nos procuram e dizem que querem vir”.

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Na China os pés são diferentes

Acessórios de moda e roupa são o núcleo forte do que a MUNHUB tem para mostrar, mas sem que passe por alguns transtornos próprios de vender num mercado que pode ser muito diferente. “Por exemplo nos sapatos é complicado. Os números são diferentes e o fornecedor tem alguma dificuldade. Parece que os pés na América são diferentes dos pés na China.” Por esse motivo, os criadores têm-se focado em produtos sem tamanho, como as malas.

Manuel Correia da Silva acredita que a plataforma “tem que ter muitas marcas, para poder dar a escolher aos vários mercados. Mas focamo-nos nas cidades. A ideia de querer o mercado da China é pouco realista. Gosto de falar em irmos para Cantão, Zhuhai, Hong Kong. Se falarmos em Pequim, por exemplo, já é complicado”, explicou.

Sobre os mercados de onde vêm os produtos, os criadores estão apostados no online para fazer crescer a plataforma e poder criar uma rede de contactos que possa, no futuro, facilitar a presença em eventos fora da Ásia.

Um dos próximos projectos é a Semana da Moda em Hong Kong, evento que já está a ser trabalhado, e continuar a apostar nas feiras. “É o investimento mais seguro. Vamos continuar a estar presentes em Hong Kong, Taipei e também em Singapura e em Xangai, que são cidades-chave.”

A perspectiva da MUNHUB é que trabalhe a um nível real, nas feiras, onde o negócio é feito directamente com os compradores, e a um nível virtual, através do online, “onde as histórias dos produtos são contadas”. “Tem que ser uma plataforma social e não só comercial. Algo que as pessoas se interessem, saber quem são os criadores e como são feitos os produtos.”

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