Sexta-feira, Setembro 17, 2021
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Os loucos anos do cinema

Macao

 

 

Texto Luciana Leitão | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

“Zangaram-se as pessoas por encontrarem a lotação esgotada e havia conflitos dentro de casais por o marido ou a mulher se terem esquecido de adquirir os bilhetes a tempo”, escreve Henrique de Senna Fernandes, no livro Cinema em Macau, a propósito de The Perils of Pauline (Os Perigos de Paulina), filme mudo exibido em Julho de 1915 no Vitória, e que levou definitivamente os macaenses às salas de cinema.

Quem viveu nesta altura provavelmente já não está cá para contar na primeira pessoa, mas Henrique de Senna Fernandes, que nasceu um pouco mais tarde, em 1923, publicou o resultado da sua pesquisa – e algum do seu saber de experiências feito – em crónicas que mais tarde foram coligidas pelo Instituto Internacional e deram origem ao livro Cinema em Macau.

Segundo a publicação, desconhece-se a data exacta em que surgiu o primeiro cinematógrafo – nome que se dava ao projector e, por extensão, às salas de cinema – do território, sabendo-se apenas que terá surgido no início do século XX, logo a seguir à electricidade. E, se hoje é acarinhado, na altura era malvisto. “Era uma diversão desprezada, qualquer coisa equiparada à exibição de saltimbancos, apresentado em barracões de feira, que se admirava com curiosidade despicienda e sorriso desdenhoso, e de que até se tinha vergonha de falar”, escreve Henrique de Senna Fernandes. Na altura, “o chique e o bom”, para a comunidade macaense/portuguesa eram as récitas e os concertos no teatro Dom Pedro V, a que se ia trajado a rigor.

 

Os barracões

De início, a população apenas tinha acesso a “filmes mudos em barracões sujos e desconfortáveis, em pleno Bazar, coração da cidade chinesa”, que é como quem diz nos actuais bairros do Lilau, São Lourenço, Santo Agostinho, Senado, Monte e Santo António.

Segundo o escritor, “o mais remoto cinematógrafo da altura” era o Chip Seng, na Rua da Caldeira, com bilhetes cujos preços variavam entre os oito e os 35 avos (de pataca), dependendo do assento. Havia também o Tin Lin, no Largo de Hong Kong Mio, com preços entre os dez e os 50 avos. Entre os outros cinematógrafos, contava-se também o Olympia, na Rua do Hospital (hoje, Rua Pedro Nolasco da Silva). Seja como for, eram apenas “sórdidos barracões, nada convidativos para os tai-pans [indivíduos ilustres] e os elegantes da época”.

A 9 de Janeiro de 1910, na rua do Dr. Soares (então rua da Cadeia), abre o Vitória. Naqueles primeiros tempos, o programa resumia-se a oito fitas curtas, que eram mudadas de dois em dois dias, adicionando-se, esporadicamente, um filme mais longo. De “barracão”, o Vitória viria a mudar, instalando-se no edifício da Rua dos Mercadores, onde hoje se situa o banco Tai Fung.

Mas a má reputação de que gozava o cinema apenas se transforma, pelo menos entre a comunidade macaense, a partir da estreia do filme de série The Perils of Pauline. Foi então que o cinema passou a ser considerado ‘uma coisa de classe’, como diz Miguel de Senna Fernandes, recordando as palavras do pai, Henrique de Senna Fernandes. Mais: “Os chineses não iam. Eram mais os macaenses e portugueses.”

Entretanto, também se instalou um cinematógrafo no Teatro Dom Pedro V, como descreve o jornal O Progresso de 13 de Setembro de 1914: “Esta empresa cinematográfica, instalada no edifício do Teatro Dom Pedro V desta cidade, tem, sem exagero, procurado meios para agradar ao público, com ricos dramas e variadíssimas fitas cómicas, belas ventoinhas e toda a espécie de acomodações; ultimamente, contratou um trio que diariamente executará variado e escolhido reportório”. Do programa deste cinema, constavam matinés especialmente dirigidas às crianças, todas as quintas-feiras e aos domingos, das 16h00 às 18h00, com filmes apropriados. Os preços variavam entre os dez e os 40 avos, dependendo se fosse um bilhete para a galeria e plateia, para a plateia 1.ª classe ou plateia 2.ª classe. Crianças e soldados pagavam apenas metade do preço de um bilhete normal.

O gosto pelo filme de episódios estava para durar, até ao aparecimento do cinema sonoro, em 1931, contando-se “enormes êxitos de bilheteira”, conforme descreve Henrique de Senna Fernandes, entre filmes como Lucille Love (A Rapariga Misteriosa), The Broken Coin (A Moeda Partida) ou The Clutching Hand (A Mão Fatal).

 

Miguel de Senna Fernandes_GLP_01

 

Sobra o Vitória

Entretanto, vários cinemas foram aparecendo e desaparecendo com igual rapidez. Em 1919, surgiu o Novo Teatro de Macau, que veio a desaparecer em 1920, por não poder arcar com as despesas de exploração. “Desgraçada terra esta onde raras são as boas iniciativas que não baqueiam”, lia-se a propósito, no jornal Macaenses na edição de 13 de Outubro de 1920. Mas, dois anos volvidos, abriu no mesmo espaço o Animatógrafo Macau, pelas mãos do empresário da terra Filipe Hung.

Foram anos conturbados com uma greve geral a decorrer no cinema Chip Seng e com o Vitória a sofrer um ataque bombista. Entretanto, o público macaense e português dividia-se entre o Vitória e o Animatógrafo, até este último fechar. “Apesar de todos os espectáculos, o Vitória foi essencialmente uma casa de cinema. E citamos o Vitória, porque foi nele que se desbobinaram os melhores filmes mudos, não havendo outro cinematógrafo que se lhe equiparasse”, lê-se no livro Cinema em Macau.

Estava-se então em plena década de 1920, ainda antes da era do cinema sonoro, já com nomes sonantes como o do actor, realizador e produtor norte-americano Douglas Fairbanks, que lançavam modas no território. “O êxito de Fairbanks era tão grande entre a rapaziada de Macau que, nos dias que se seguiam à estreia das suas películas, desapareciam dos jardins, hortas e quintais, pela cidade e fora de portas, todas as estacas de bambu, convertidas em espadas para a petizada se esgrimir em grupos rivais, com grande perigo para os olhos e desespero de jardineiros e horticultores que então abundavam nesta Terra do Nome de Deus”, escreve Henrique de Senna Fernandes.

Foi também Fairbanks, juntamente com Charlie Chaplin (ou Charlot), quem atraiu os chineses às salas de cinema. “O maior deles foi sem dúvida Charlot. A sua aparição na tela […] enchia o Vitória. Os chineses, simplesmente, adoravam-no.”

 

Cinematógrafo

 

As modas da época

O cinema ditava tendências. Depois da exibição de The Four Horsemen of the Apocalypse (Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse), em que o actor Rudolph Valentino interpreta um dançarino de tango, o Clube de Macau permitiria que se bailasse esta modalidade. “Os filmes de Valentino eram sempre um acontecimento. Aguardava-se com impaciência a sua exibição, e no dia de estreia estava a melhor gente de Macau no Vitória”, dizia o escritor macaense.

Desengane-se, porém, quem pensa que o Vitória era um local requintado e confortável, mesmo depois da mudança de instalações. “Quem desconheça o Vitória poderá julgar tratar-se de um cinema confortável, luxuoso, de bons assentos, e à altura dos magnífico, filmes que exibia. […] Denominando-se a primeira casa de espectáculos, sem outra a fazer-lhe sombra, era, assim, um monumento de desconforto”, escrevia Henrique de Senna Fernandes.

Seja como for, era o teatro a que todos acorriam para ver as estreias vindas dos Estados Unidos, mais que não seja por falta de alternativas. As sessões mais concorridas eram as matinées e as das 19h30, quase exclusivamente frequentadas por chineses. Sem possibilidade de ler as legendas em inglês do filme mudo, “naquela sessão da noite subia para uma espécie de púlpito, erguido num dos lados da sala, um cavalheiro que, em voz alta, ia explicando o enredo, em cantonês”, uma espécie de narrador que mudava o tom de voz, consoante a cena. Por seu turno, a última sessão tinha lugar às 21h30 e era frequentada sobretudo por portugueses. “Imagine-se que havia até bilhetes para ver o filme, atrás do palco”, diz Miguel de Senna Fernandes, recordando-se das palavras do pai, acrescentando que era o sítio favorito para os jovens e para os que tinham menos possibilidades.

Surgem posteriormente outros cinematógrafos, como o Long Ting Mong Toi, na esquina da Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida com a Avenida Horta e Costa, paredes-meias com o jardim Lou Cau. “Todas as noites duas sessões, uma às 19h00 e outra às 21h30, sendo a última com acompanhamento de piano”, lê-se no Cinema em Macau. Mas as noites de festa duraram pouco tempo, fechando no mesmo ano, dada a morte do proprietário.

 

A corrida a Hong Kong

A região vizinha foi mais rápida do que Macau a trazer o cinema sonoro à região. Por isso, na estreia de The Singing Fool (A Última Canção), de Al Jolson, estavam presentes muitas pessoas do território, que aguentaram uma travessia de então mais de quatro horas, apenas para o efeito. “Em Macau tornou-se a conversa: ‘Já foste a Hong Kong ver talkies?’”, descreve o livro.

Foi também nesta altura que o Capitol abriu portas, apenas para exibir filmes sonoros. Em plena década de 1930, o Vitória e o Capitol projectavam os musicais de Hollywood. “Em Macau, ainda sem crise nenhuma, o povo enchia o cinema pelo puro gosto de ouvir e ver cantar e dançar os seus actores favoritos.” Os cartazes dos cinemas do território acompanhavam as tendências mundiais, começando por mostrar nesta altura musicais, depois filmes de guerra e posteriormente películas de terror.

Entretanto, os chineses continuavam a frequentar outro tipo de teatros. “Fala-se também de outro cinema, o Teatro Nanquim. Há ainda outros cinemas, mas de filmes mudos só para chineses – o Hoi Keang, na Rua Praia do Manduco, o San Kio, nos bairros chineses San Kio e Sé Kong”, esclarece Henrique de Senna Fernandes. Nesta altura, o Vitória viria a encerrar, enquanto o Apolo viria a abrir.

Nesta altura e até meados dos anos 1980 e 1990, o cinema do Interior da China tinha ainda pouca expressão no território, e dos cartazes apenas constavam filmes da região vizinha, já que as películas de Xangai que então existiam, por dificuldades de compreensão da língua, não eram populares. Miguel de Senna Fernandes lembra-se de espreitar os filmes da China juntamente com os colegas da escola, apenas para perceber o que se passava do outro lado da fronteira. “Eram sobretudo filmes da China comunista.”

 

Teatro Capitol_GLP

 

De cinema a centro comercial

Quem por lá passa, normalmente vai em busca de waffles com manteiga de amendoim e leite condensado ou das saladas de fruta vendidas no piso térreo e nem repara na fachada do edifício, que ainda mantém o letreiro da década de 1930. O Teatro Capitol (ou Kok Va, como era conhecido entre a comunidade chinesa), na Rua de Pedro Nolasco da Silva, fechou em 1987, mas foi um marco na vida da comunidade local.

Tinha 869 lugares, de plateia e galeria – como era conhecido o primeiro balcão – e supõe-se que terá aberto em 1931. Alberto Luz Francisco, neto do fundador, José Maria da Luz, conta o que lhe foi transmitido pela mãe e tios, entretanto já falecidos. “O meu avô era empresário nos anos 1920 e fundou o Capitol, mas antes disso já tinha sido fundador do Teatro Nanquim, na Rua 5 de Outubro, em sociedade com empresários locais”, recorda.

E rejeita a data que normalmente apontam como o ano da construção do Teatro Capitol, que é 1931. “O meu avô faleceu em 1929”, diz, acrescentando que seria impossível só ter sido inaugurado dois anos depois. Quando José Maria da Luz morreu, o filho mais velho, Alfredo Maria da Luz, que tinha então 19 anos, tratou da venda do teatro.

Alberto apenas conheceu o avô pelos testemunhos da mãe e dos tios. “O meu avô era a cabeça dos negócios”, afirma. Apreciava música, moda e cinema, mas era sobretudo um empresário. “Tinha uma companhia de autocarros, uma casa de apostas, fazia vendas de carros de bois, porcos e galinhas. Tinha um matadouro. Fez muitos negócios.” E foi graças ao extenso património do avô que a família Luz conseguiu enfrentar as dificuldades após a Segunda Guerra Mundial. “Se a minha família não tivesse aqueles bens todos… Não havia arroz, pão nem manteiga”, diz, acrescentando: “Fomos vendendo [o património].”

Entretanto, nos anos 1960, nasce Alberto Luz Francisco, que, por desígnio familiar ou não, se torna uma aficionado do cinema. “Comecei a ver no Teatro Capitol, uma tia-avó levou-me a ver desenhos animados, tinha cinco ou seis anos”, recorda.

Ao longo da existência do Capitol, Alberto foi assistindo às transformações que foi sofrendo, longe das mãos da família Luz. “O Capitol continuou a ser cinema até ao fim dos anos 1980, mas já estava degradado.” A seguir ao seu encerramento enquanto teatro, os novos proprietários transformaram-no em centro comercial, fazendo algumas modificações interiores. Mas a fachada daquele que foi um dia um dos maiores cinemas do território continua lá, a lembrar tempos idos. “Os teatros de Hong Kong e até mesmo de Cantão eram todos naquele estilo.”

 

Livro_Cinema em Macau

 

Um estereótipo em mudança

A forma como Macau tem sido representada ao longo dos anos nos ecrãs de cinema tem vindo a mudar, e é hoje mais variada. Se nos anos 1950 era apenas um palco para actividades criminais e gangsters, hoje em dia já começa a ser retratada de forma mais positiva.

Mao Sihui, director da Comissão de Investigação e Ensino da Língua Inglesa do Instituto Politécnico de Macau, realizou um trabalho, ainda por publicar, intitulado Representações de Macau no Cinema Contemporâneo, onde analisou a evolução ao longo dos tempos. Entre os nomes analisados encontram-se películas de origem ocidental como Macao (1952), de Josef Von Stenberg e Nicholas Ray, Une histoire immortele (1968 – História Imortal), de Orson Welles, The Man With the Golden Gun (1974 – Contra o Homem com a Pistola de Ouro), de Guy Hamilton, e longas-metragens de realizadores de Hong Kong, como Casino (1998), de Hin Sing Billy Tang.

Ao longo da sua pesquisa, Mao Sihui conclui que as representações cinematográficas de Macau têm vindo a mudar nos últimos 50 anos. “No início do século XX até provavelmente aos anos 50 e 60, Macau tem sido representado pelos ocidentais e pelo cinema de Hong Kong como um sítio para fugitivos, bandidos e pessoas que fogem ao castigo legal”, revela.

A primeira película analisada pelo investigador é Macao, que revela uma visão “típica ocidental” em relação ao território, em que este é considerado um “lugar exótico”, mas também um sítio onde há uma mistura de “obscuridade e leveza”. Já o cinema de Hong Kong, desde os anos 1960 até 1999, mostra Macau como um “lugar para as tríades”, para as pessoas que querem controlar os casinos e lutar pela sua quota-parte.

Hoje em dia, a forma como Macau é representada no cinema é menos redutora. “Alguns filmes tendem a centrar-se mais nas vidas das pessoas nos dias de hoje e nas histórias que aqui têm lugar”, afirma, acrescentando: “Em filmes como Look for a Star, pode ver-se que Macau é retratado de forma mais positiva. Até mesmo em Isabella, em que a história gira à volta das vidas de um pai e a sua filha, pode ver-se a beleza dos edifícios do território e uma espécie de ligação entre as pessoas.”

 

Sem produção local           

Macau tem grande potencial para ver desenvolvido a produção de cinema enquanto indústria cultural e criativa. Esta é uma das principais conclusões de Mao Sihui. Para o investigador, a região continua sem ter uma indústria cinematográfica, apesar de já se encontrarem alguns argumentistas e realizadores locais. “Há potencial para as pessoas fazerem filmes sobre Macau.”

A indústria do jogo é o pilar da economia, mas, segundo Mao Sihui, é tempo de haver um maior investimento nas indústrias culturais e criativas, em particular no cinema. De qualquer maneira, o investigador acredita que há vários factores por detrás da ausência de mais produção local. “Para quem quer ser realizador em Macau, são filmes pequenos de pequeno alcance”, diz, acrescentando: “É preciso investimento e apoio para cultivar talentos. É um grande projecto, que não se reduz apenas ao investimento.” Por isso, o investigador afirma que o território também deveria ter pelo menos um curso de cinema. “Por exemplo, se tivéssemos um instituto independente ou mesmo integrado numa universidade já seria bom. Precisamos de algo assim para cultivar talentos”, declara.

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