Quarta-feira, Maio 27, 2020
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A longa luta de Macau pela água potável

 

 

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Texto Patrícia Cruz | Fotos Arquivo Histórico de Macau

 

Região rodeada por tanta água, Macau viveu a ironia de sofrer com sede. Isto porque mares salgados e rios pouco limpos são apenas a acumulação de litros impróprios para consumo. O drama acentuou-se lá longe, no século XIX. Com o desenvolvimento de Macau e o aumento da população, os recursos hídricos deixaram de ser suficientes, dando-se início a um período de escassez de água potável.

Tendo a questão da definição dos limites de Macau originado sempre atritos políticos entre os governos de Portugal e da China no passado, as autoridades de Macau pretendiam então recorrer unicamente à água existente no território.

Assim, os habitantes obtinham água através de fontes, poços públicos e particulares, e a partir de cisternas construídas nas residências, para recolha da água das chuvas. E todos os anos, durante a estiagem, era necessário recorrer a barcaças transportadoras de água proveniente da ilha da Lapa.

Além da escassez, as pessoas confrontavam-se também com a dificuldade de obter água potável, porque a maioria da que vinha de poços, cisternas e depósitos era imprópria para consumo, devido à má qualidade das construções.

A água da Lapa também não era melhor, por razões relacionadas com falta de higiene a bordo ou porque o fundo dos cascos dos barcos não era estanque. Para evitar a cólera, muito frequente naquela altura, como outras doenças, era hábito ferver a água, filtrá-la e deixá-la arrefecer antes do consumo. Aliás, havia até quem só a bebesse em chá.

 

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Primeiros estudos

No início do século XX, as autoridades começaram a preocupar-se com a obtenção de água potável suficiente para a população. Em 1905, o general José Emílio Castel-Branco foi nomeado em comissão de serviço para proceder a estudos sobre a matéria. De acordo com os resultados obtidos, seria possível captar água subterrânea no subsolo do vale de Mong-Há, construir no local um reservatório com capacidade de 200 mil metros cúbicos, sujeitar essa água a um tratamento rudimentar e distribuí-la depois aos consumidores. Todavia, os estudos do general não progrediram por haver poços em quase todas as casas ou bairros e de se considerar prioritária a electricidade.

Em 1912, as autoridades iniciaram a canalização de água salgada, para esgotos e lavar ruas, servindo ainda para combater incêndios. Juntamente com a canalização, construiu-se um reservatório de água salgada, na Colina da Guia, enchido por meio de bombas elevatórias de água do mar. Foi a primeira rede de água de Macau e também o primeiro reservatório da cidade.

Além dos benefícios enumerados, esta rede, cujos trabalhos de ampliação se prolongaram por vários anos, teve efeitos imediatos na desratização urbana e no combate à peste.

 

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Novo projecto

Em 1919, o coronel Adriano Augusto Trigo assumiu a Direcção dos Serviços de Obras Públicas de Macau, tendo como principal missão o desenvolvimento de um projecto para resolver o problema do abastecimento de água potável.

Trigo, que também era engenheiro, traçou um plano que abarcava duas áreas – águas pluviais e águas subterrâneas – tendo presente que Macau seria abastecida com os recursos da península. Partindo das indicações coligidas pelo general Castel-Branco, e após um estudo das condições hidrológicas da península, apresentou o projecto das obras de exploração de águas na Colina da Guia, assim como recomendações acerca das pesquisas de águas subterrâneas no vale de Mong-Há.

O projecto incluía a construção de um reservatório na Colina da Guia, para captação de águas pluviais, de um reservatório no sítio da Flora, com o intuito de recolher as águas exploradas na Colina da Guia, e dos primeiros sete fontenários da cidade, para distribuição da água. As obras, concluídas em 1925, vieram revolucionar o abastecimento em Macau.

Quanto às pesquisas de águas subterrâneas no vale de Mong-Há, registou-se a existência de água a uma profundidade de 57,5 metros, tendo as análises posteriores revelado ser de boa qualidade. Descobriu-se ainda um manancial de água doce no estuário do rio Oeste, ao norte da península.

Porém, uma comissão de técnicos, anteriormente nomeada pelo Conselho Executivo, com o objectivo de estudar as bases gerais em que deveria fazer-se o abastecimento de água à cidade, apresentou um relatório em 1924 que veio alterar a situação. Continha um plano mais ambicioso, mas na prática apenas teve como consequência o embargo da situação, até ser dada a concessão do monopólio do abastecimento de água potável a uma empresa particular.

 

Poço da Nossa Senhora do Amparo

 

Empresas entram em cena

A 12 de Setembro de 1928, por escritura pública, o Leal Senado da Câmara de Macau concedeu à Water Works Company o primeiro exclusivo do serviço de abastecimento de água à cidade de Macau, por um prazo de 50 anos. O proprietário era um luso-americano, Francisco Santos, juntamente com investidores chineses de Honolulu. Estes adquiriram equipamento na cidade havaiana, tendo procedido a vários ensaios em locais escolhidos, segundo os estudos do general Castel-Branco e do engenheiro Trigo, no vale de Mong-Há. Contudo, sucederam-se vários fiascos e a companhia foi forçada a desistir.

Em 1929, na sequência de uma seca considerável, foi constituída a Companhia Loc Wo, a qual abastecia com água potável apenas os bairros de Mong-Há, do Patane e do Bazar Chinês, não tendo assinado nenhum contrato para o exclusivo do abastecimento de água.

A Companhia das Águas de Macau, SARL foi constituída, por escritura pública, a 22 de Janeiro de 1930, tendo assinado o contrato do exclusivo do serviço de abastecimento de água à cidade de Macau, com o Leal Senado, a 4 de Junho de 1932. O Leal Senado manteve as condições do contrato celebrado com a Water Works Company em 1928, pelo que o prazo do exclusivo era por 50 anos, a contar de 12 de Setembro de 1928.

A companhia adquiriu tecnologia alemã produzida pela Siemens China, de Xangai, e contratou engenheiros alemães para procederem a estudos sobre os recursos aquíferos da região. Estes apresentaram dois projectos: a canalização de água destinada a usos alimentares, recorrendo-se à captação das águas da ilha de Coloane; e a canalização de água obtida do rio Oeste, junto à Ilha Verde, depurada e esterilizada por processos científicos, destinada a usos domésticos e industriais e aos serviços de limpeza das ruas e incêndios.

Só que o aproveitamento da água do rio Oeste estava condicionado a seis meses por ano, entre Abril e Setembro, visto ser demasiado salgada para consumo nos restantes meses. Seguiu-se a construção de um reservatório na Ilha Verde e a colocação de canalização, tendo as obras ficado concluídas em 1933. Porém, a companhia acabou por sofrer o impacto da crise económico-financeira de 1929, e rescindiu o contrato a 31 de Dezembro de 1934. O Leal Senado assumiu então o serviço de abastecimento de água à cidade, tendo igualmente tomado posse de todos os bens da antiga companhia.

 

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Solução inglesa

A 13 de Julho de 1935, foi constituída, por escritura pública, a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, Limitada (SAAM), uma empresa inglesa, também conhecida por The Macao Water Supply Company, Limited. Assinou contrato do exclusivo do abastecimento de água à cidade, com o Leal Senado, dois dias depois, por um prazo de 60 anos. De acordo com o contrato, o gerente geral da sociedade era Frederick Jonhson Gellion, também gerente da The Macao Electric Lighting Company, Limited.

A sociedade abandonou o esquema alemão, decidindo construir o reservatório principal num terreno baldio conquistado ao mar, situado no Porto Exterior. O projecto inicial de captar água dentro dos limites territoriais, com o complemento da água do rio Oeste, foi então substituído por um novo plano, passando Macau a depender exclusivamente da água captável no estuário junto à Ilha Verde. A sociedade iniciou a construção de uma estação de tratamento na Ilha Verde, de uma estação elevatória e do referido reservatório no Porto Exterior, os quais ficaram concluídos em 1936.

As obras melhoraram significativamente o abastecimento de água, assim como a qualidade de vida da população. No entanto, seguiram-se vários problemas, a maioria dos quais alheios à SAAM, como secas e crescimento populacional, que provocaram escassez de água e, consequentemente, impossibilidade de um abastecimento ininterrupto à população, tornando-se necessário adoptar medidas de restrição ao consumo. A água foi várias vezes racionada, chegando o seu fornecimento a ser interrompido, por vezes durante longos períodos.

Esta situação só viria a ser superada a 19 de Dezembro de 1983, data em que Macau passou a depender totalmente do abastecimento de água da China. Em 1985, a SAAM normalizou o fornecimento de água, e a sua qualidade respeitou, pela primeira vez, as normas rigorosas relativas à água potável da União Europeia. No mesmo ano, houve uma reestruturação da sociedade, que passou a assegurar o abastecimento de água potável às ilhas da Taipa e de Coloane, antes garantido pela Comissão Municipal das Ilhas, estrutura que antecedeu a Câmara Municipal das Ilhas.

Desde então, registaram-se importantes melhorias tecnológicas, tendo a SAAM renovado com o Governo da RAEM o contrato de concessão do fornecimento de água potável aos residentes de Macau em 2009, por um prazo de 20 anos.

 

 

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Memórias de outras águas

 

Ester Sales Ritchie, 90 anos

Ester Ritchie viveu praticamente toda a vida em casas com poços. Recorda com especial carinho uma casa onde morou com o marido e os filhos mais de 20 anos, num período entre as décadas de 1940 e 1960. “Vivia no número 26 da Rua Pedro Nolasco, ao lado da Casa de Portugal, que está em nome da família Sales há 66 anos. A casa tinha um poço e nós bebíamos a água daí. Antigamente não havia frigorífico, nós púnhamos as melancias e os melões dentro do poço, para ficarem frescos. A água era muito boa, saborosa. Ainda hoje não bebo água da torneira, compro água engarrafada.”

 

Maria Chan das Neves, 85 anos

Maria Neves habitou várias casas, mas apenas uma tinha poço próprio. Era a casa para onde foi viver quando se casou, em 1951, com um militar português, e onde ficou até 1964. “Quando casei, fui morar para a Rua Henrique de Macedo, no Bairro de Cheoc Chai Un, que significa Jardim dos Passarinhos. Era uma casa de dois andares, uma moradia. Vivíamos no rés-do-chão e outra família no primeiro andar. A cozinha dava para um pátio interior, onde havia um poço. Metade do poço era da nossa casa, a outra metade da casa ao lado, dividido por um muro. Por causa dos meus filhos, estava sempre tapado. Recordo-me de ver baratas brancas no fundo do poço, fazia-me imensa impressão. Também havia muitas aguadeiras, que carregavam dois baldes numa vara. Eram uns bidões cúbicos, altos. Era uma actividade muito dura, muitas chegavam curvadas à velhice. Não era questão de não haver água canalizada, mas as pessoas reagiam mal ao sabor. Bebíamos a água do poço fervida, toda a população o fazia.”

 

António José Lemos Ferreira, 62 anos

António Ferreira viveu em Macau até 1959, tinha então seis anos, altura em que a família emigrou para Moçambique. Hoje a residir em Portugal, lembra-se bem da sua casa em Macau, na Rua de Eduardo Marques, numa das moradias amarelas que ainda existem hoje, onde vivia com pais, irmãos, tios e primos. “Éramos uns privilegiados, porque tínhamos um poço que pertencia à casa. Era só sair pela porta principal. Lembro-me de o meu tio Fernando ir buscar a água ao poço. Descia o balde por uma corda e agitava-o para que se enchesse de água. Por vezes, vinha com uns peixinhos que ele tratava de devolver ao poço, pois serviam para manter a água limpa, segundo me explicavam. Certa vez, faltou água na torneira de abastecimento da rua e foram-nos pedir para se abastecerem no nosso poço. Os meus tios puseram-se a controlar a situação, tinha eu uns cinco anos. Senti-me o miúdo mais importante de Macau, face àqueles sequiosos adultos.”

 

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80 anos de serviço

No dia 15 de Julho, a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau (Macao Water) celebra 80 anos como empresa detentora do exclusivo do serviço de abastecimento à cidade. Para comemorar a data, criou dois concursos, ainda em 2014: um de recolha de fotografias antigas, para ilustrar a evolução do abastecimento de água em Macau, e outro de curtas-metragens, com o intuito de possibilitar aos cidadãos expressarem a sua visão acerca do abastecimento de água no território. Também em Julho, a empresa emitirá, em parceria com os Correios de Macau, um conjunto de selos comemorativos, com o tema “Água e Vida”.

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