Quarta-feira, Maio 27, 2020
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Ícones | Gaiola de pássaro (鳥籠)

 

Icones_Gaiola

 

Texto Patrícia Lemos

“O pássaro, mesmo em gaiola, continua a ser um símbolo de liberdade e a motivar o pensamento sobre a relação entre a liberdade e a sociedade humana”

Frederic J. Jones (1925-2011)

 

 

Voltaram os passeios, os famosos liu niao (遛鳥), com a gaiola a balançar ao sabor passada. Ia coberta por um pano para proteger o pássaro do frenesim matinal. E o véu só caía à chegada aos jardins e casas de chá para o “encontro de pássaros” (玩鳥). Aí enquanto os donos conversavam e comiam farturas ou mingaus, jogavam às cartas ou xadrez ou praticavam tai chi (太極), os passarinhos ensaiavam a voz na cavaqueira uns com os outros. Todos ganhavam com o passeio: se os pássaros respiravam outros ares e conviviam com os da sua espécie, os donos, animados pelo pipilar cada vez mais afinado das suas aves, ouviam os conselhos dos criadores mais experientes.

Se há ícone chinês que partilha a mesma simbologia com o Ocidente é a gaiola, ainda que seja paradoxal pensar que uma “prisão” seja tão apreciada na terra natal do feng shui (風水). Apesar da sua conotação negativa tem-se fartado de inspirar artistas, designers, poetas, arquitectos… Em Macau até serviu de molde ao icónico edifício do Casino Lisboa, que só “liberta” os jogadores depois de apostarem a última moeda.

O amor dos chineses pelos pássaros ainda tem expressão em Macau. Mas já lá vai o tempo em que enchia as casas de chá, sobretudo a Long Wa, junto ao Mercado Vermelho, ou as da Rua de Cinco de Outubro. Aqueles que não deixaram morrer a paixão ainda fazem do Jardim Camões a sala de concertos dos seus amigos de penas, mas hoje são mais os que preferem observar os pássaros no seu ambiente natural do que na gaiola, sobretudo os mais jovens que apregoam a sua consciência ambiental aos quatro ventos.

Esse declínio também se faz notar noutras cidades chinesas e nem mesmo a capital, Pequim, resistiu à mudança dos tempos. Diz-se que o frenesim urbano afugentou os criadores. Em vez do liu niao, muitos chineses saltam agora para a bicicleta com as suas gaiolas cobertas em busca de ambientes calmos nos subúrbios.

 

gaiola

 

Técnica por cidade

Contavam-se pelos dedos de uma mão os mestres construtores de gaiolas a laborar em Macau. Demoravam meses a armar uma gaiola, obra que até os levava ao campo à procura dos bambus mais resistentes. Existem quatro grandes escolas de construção em toda a China. A técnica de Pequim data da dinastia Qing e demarca-se pela cilíndrica gaiola de topo plano. Destacava-se das dos mestres construtores de Chengdu e de Qingyuan que optavam por uma cúpula. Esta cidade da Província de Guangdong tinha ainda a assinatura aparatosa da sua base com entalhe. A quarta escola é de Suzhou e data da dinastia Song (960-1279), tendo ficado conhecida pelo formato quadrado.

A construção de gaiolas não mudou muito com o passar dos tempos. Ainda hoje a gaiola varia entre um polígono, com três ou quatro lados, o cilindro e o quadrado. O que importa é que o pássaro se movimente livremente no interior. As gaiolas são normalmente de bambu, cana ou madeira com rede de corda. Mas também se encontram muitas de metal e até de marfim.

As gaiolas podem ainda ter uma função decorativa, apresentando-se mais elaboradas, decoradas com telhados de pagode e entalhes. Algumas são de grandes dimensões e incluem comedouros de porcelana, ricamente pintados à mão com poemas chineses.

 

Pássaros a passear

Tordos, cotovias, periquitos, canários, rouxinóis

 

Curiosidades

– No aviário de Tiger Beach, em Pequim, encontra-se a maior gaiola da China, com 150 espécies de pássaros

– A gaiola chinesa mais cara até à data foi vendida em 2008 por quase 14 milhões de yuans. Esta gaiola de papagaio data da dinastia Qing, ao tempo do imperador Qianlong (1736-1795)

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