Quinta-feira, Julho 2, 2020
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Palavras Cansadas da Gramática – Poesia e Fotografia

Yao Jinming A71V4188

 

“Uma decisão da pulsação”

 

Palavras Cansadas da Gramática – Poesia e Fotografia é a mais recente obra do poeta Yao Feng, com versos escritos directamente em língua portuguesa e outros traduzidos do chinês. À MACAU, o poeta e também tradutor fala do livro e da sua paixão por duas línguas    

 

Texto Sofia Jesus | Fotos Carmo Correia

 

“Na loja de metáforas / em saldo as rosas / mas escolhi uma pedra”. Estes são alguns dos versos escritos originalmente em português por Yao Feng, pseudónimo do poeta chinês Yao Jing Ming, e incluídos na sua mais recente obra, Palavras Cansadas da Gramática – Poesia e Fotografia.

Editado pela Gradiva, o livro contém uma série de poemas – uns escritos directamente em português, outros fruto de uma tradução –, assim como várias imagens captadas pelo também académico. Para ler há ainda uma entrevista ao autor, uma análise de Egídia Souto, um prefácio de Fernando Pinto do Amaral e um posfácio de Carlos Morais José.

 

Entre duas línguas

Para Yao Jing Ming, um poema por vezes “constitui uma decisão da pulsação, do palpitar do coração”. Composição literária “mais próxima da intimidade”, a poesia é, no seu entender, uma forma de expressão “muito sensível” e “delicada”, “mais espontânea” do que outras, e também “mais eficaz”.

Escrever poesia numa língua que não é a sua língua materna “não é nada vantajoso”, reconhece à MACAU. Mas, quando pensa se usa ou não um determinado termo, acredita que terá “mais coragem” do que os nativos para se aventurar. “Já não tenho medo do naufrágio”, ri-se.

Yao Jing Ming, que considera que há beleza “à espera de ser descoberta”, “em qualquer parte”, “em qualquer momento”, não sabe dizer que língua lhe dá mais prazer a escrever poesia. Se, por um lado, o chinês tem as vantagens de “não ter conjugação verbal”, de permitir “omitir o sujeito”, de o tempo ser “sempre ambíguo”, por outro, o português é uma língua muito “sensível”, que permite “jogar” com termos “com duplo, triplo significado” e contém palavras bonitas como “saudade”.

Atento aos “detalhes da vida”, como uma sombra projectada na parede ou a trança de uma rapariga, o autor, sedeado em Macau desde os anos 1990, garante que a poesia “pode abordar qualquer tema”, “desde o café do dia até um grande acontecimento que influenciou a história” de um país. Uma realidade visível nos poemas reunidos em Palavras Cansadas da Gramática, onde está também patente a ideia de lugar, com referências a Macau, a vários sítios da China e de Portugal, a Amesterdão, a Paris, entre outros. “Gosto de viajar e de observar”, justifica.

O humor é um dos elementos que, por vezes, marcam a poesia de Yao Jing Ming, como o próprio admite. É o caso dos versos onde brinca com a enchente de turistas em Macau (“parece que hoje ninguém morreu no mundo”) ou daqueles onde ironiza um pouco o facto de a cidade ser “pequenina”, ter “muitos acontecimentos”, mas “poucas novidades” (“estrela da noite: o burro”).

 

O poeta-tradutor

Doutorado em Literatura Comparada e Literatura Universal pela Universidade de Fudan, em Xangai, Yao Jing Ming não só é um poeta chinês premiado, como tem também uma reputada carreira de tradutor literário, tendo vertido para chinês vários poemas de autores portugueses.

Robert Frost afirmou que “a poesia é o que se perde na tradução”, mas Yao Jing Ming garante: “Perde-se alguma coisa, mas, como tradutor competente, tem de se arranjar uma medida para compensar esta perda”. O também professor na Universidade de Macau dá o exemplo da musicalidade intraduzível dos poemas clássicos chineses ou dos sonetos do Ocidente. O desafio é conseguir “tornar o poema da língua de partida ainda o poema na língua de chegada”.

Yao Jing Ming, que já exerceu funções como vice-presidente do Instituto Cultural da RAEM, planeia escrever mais poesia e continuar a traduzir literatura de expressão portuguesa. Mais ambiciosa é a sua meta de escrever um livro aprofundado, “sério”, de nível académico, sobre a história e a cultura de Portugal. Afinal, comenta, apesar de séculos de convívio, portugueses e chineses “ainda não se conhecem muito bem”. “Há sempre um muro invisível que nos separa.”

 

 

Livro

 

Palavras Cansadas da Gramática – Poesia e Fotografia

Autor: Yao Feng

Editora: Gradiva

ARTIGO