Quinta-feira, Outubro 22, 2020
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Aposta em C Luo para colocar Portugal no mapa dos turistas chineses

 

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Texto Mónica Menezes | Fotos Paulo Cordeiro, em Portugal

 

 

Flores brancas no quarto? Nem pensar! Duche em vez de banheira? De preferência, não. Dormir no quarto piso ou num quarto com o número quatro? Jamais. Estas são algumas das exigências que os cada vez mais turistas chineses que chegam a Portugal fazem na altura de marcar o hotel. Diana Castello Branco, directora de relações públicas do Hotel Ritz, na capital portuguesa, conta como esta unidade hoteleira tem lidado com o crescimento do turismo chinês, que no caso deste hotel aumentou “45 por cento de 2013 para 2014”.

“Temos algumas pessoas na nossa equipa que falam mandarim”, revela. E acrescenta: “Também prevemos traduzir para chinês o website do hotel, tal como todos os outros hotéis da companhia [Four Season Hotels&Resorts].” No que diz respeito aos cuidados a ter com um cliente com uma cultura tão diferente da portuguesa, Diana já sabe de cor o que não pode falhar. “No quarto temos sempre uma estação de chá. Nunca ficam no quarto piso nem nos quartos com o número quatro, pois é o número do azar, e não podemos pôr flores brancas pois simboliza o luto.” À hora da refeição, são os pratos de peixe que mais fazem sucesso entre os chineses. “No Ritz Bar gostam do Bacalhau à Brás e dos Rolos Primavera. Já no nosso restaurante Varanda, optam pela Trilogia Bacalhau, robalo, linguado ou garoupa grelhada. E gostam de trufas quando estão na época.”

No grupo Altis, o número de turistas chineses também tem vindo a crescer de dia para dia. Se em 2013 esta nacionalidade ocupava o 14.º lugar no ranking dos turistas, em 2014 passou para o 13.º. “No nosso hotel Altis Park [em Lisboa], regista-se a chegada dos turistas em grupo com reservas feitas através de operadores turísticos. Já nas restantes unidades do grupo, o mercado chinês é de clientes individuais, mas não dispomos informações sobre de que parte da China vêm”, explica Sofia Nobre, directora de relações públicas do hotel Altis. Para fazer face a este crescimento, Sofia conta que durante o ano passado foi “ministrado um curso básico de mandarim para os colaboradores”.

 

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Ao gosto do freguês

Na loja Burberry, em plena Avenida da Liberdade, a afluência dos turistas chineses tem sido tanta que Alexandre Brodheim, gerente executivo de vendas do grupo Brodheim, optou por ter também funcionários chineses. “A cultura chinesa é muito diferente da cultura europeia e os chineses, como os angolanos ou os brasileiros, gostam de ser tratados de diferente forma. Portanto, o que nós tentamos fazer dentro do grupo, não só em relação aos chineses, mas a todas nacionalidades, é ter uma equipa que seja multicultural e multidisciplinar”, conta Alexandre. O problema, muitas vezes, é encontrar funcionários com estas características. “Praticamente em todas as nossas lojas temos funcionários de origem chinesa a trabalhar connosco. A maior parte das vezes utilizamos o método do recrutamento directo, indo directamente a locais onde sabemos que possa haver pessoas chinesas a trabalhar, mas que também falem português para conseguirmos comunicar entre nós também.”

Sofia é uma dessas funcionárias. Filha de emigrantes chineses, tem 25 anos e trabalha há alguns meses na Burberry. Tal como a maior parte dos chineses, detesta ser fotografada e só a teimosia da gerente de loja faz com que a tenhamos espelhada nesta reportagem. Reservada, explica como é o turista chinês quando vai às compras. “Normalmente chegam em grupo, com amigos ou familiares. São pessoas com 30, 40 anos, ou até mais jovens que viajam com os pais ou os avós, que entram na nossa loja. São mais homens do que mulheres e vêm essencialmente de Xangai ou de Pequim”, explica Sofia. Segundo a funcionária e a gerente da loja, Lina, o turista chinês é um cliente objectivo que sabe bem o que quer. “Chegam muitas vezes com uma fotografia no telemóvel – sempre da última geração – do produto que querem ou de uma figura pública chinesa a usar o produto que querem comprar”, revela Sofia.

Nesta loja, perdem-se de amores pela icónica trench coat camel, pelos cachecóis, echarpes e carteiras. O cliente médio gasta cerca de 800 euros em compras, outros chegam a gastar entre 2000 a 3000 euros. “Experimentam, mexem em tudo, pedem muito a opinião de quem vem com eles e se essa pessoa não gosta, não compram”, diz a gestora da Burberry. E vai mais longe na sua análise: “Não levam o produto que está em exposição, querem sempre o de armazém.” Vaidosos e supersticiosos, gostam de produtos vermelhos – cor da sorte – e daqueles onde está bem patente a marca que estão a comprar. “Gostam de edições limitadas e peças exclusivas”, revela Sofia.

Aqui qualquer cliente é atendido de forma especial, mas com os chineses há pormenores que os funcionários já perceberam que pode fazer a diferença. “O turista chinês anda quase sempre com um termo com água quente que vai bebendo ao longo do dia, ou para fazer chá ou para beber mesmo assim. Por isso, já temos água quente para lhes servir e na Semana Dourada [em Outubro] estamos a pensar ter pastéis de nata em miniatura, porque é um bolo que eles apreciam muito.” É, aliás, na fila dos pastéis de Belém que falamos com Jin Gao. Homem tímido, diz num inglês de difícil percepção que ainda na China lhe tinham falado deste bolo: “Estou curioso, nunca comi. Deve ser bom.” Sobre Portugal, diz apenas que é “muito bonito!”

É por esta dificuldade de comunicação que Alexandre Brodheim aposta em funcionários chineses e em acções de formação para os portugueses. “Há aspectos que todos temos de aprender. Temos de perceber que é um cliente que não gosta de contacto físico, que temos de nos curvar perante os mais velhos, que quando lhes damos algo tem de ser com a palma da mão virada para cima em sinal de respeito…” Lina, a gestora de loja, é uma das funcionárias que frequenta as acções de formação. “Há muito a aprender sobre estes turistas. São desconfiados, mas bem-dispostos, ligam muito à história das marcas, gostam do que é bom.”

Por enquanto, no grupo Brodheim, o turista chinês só representa dez por cento dos clientes, mas já são números suficientes para estarem no top 3 da empresa. “A seguir aos angolanos e brasileiros já vêm os chineses. E esperamos que sejam cada vez mais.”

 

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Números a crescer

Em 2014, cerca de 113.200 chineses visitaram Portugal, o que representa um aumento de 49,3 por cento em relação a 2013. Durante a sua estada no país, gastaram globalmente 54 milhões de euros – quase 20 milhões mais do que no ano anterior. Para este ano espera-se números ainda maiores. A nível de acção promocional de Lisboa, nada está a ser feito para receber especificamente estes turistas, “no entanto, como parte integrante do Plano Estratégico para a Região de Lisboa, que estará em vigor de 2015 a 2019, está contemplado o desenvolvimento de abordagens específicas a mercados de elevado potencial, a ser testado com o mercado da China”, esclarece Rita Almeida do Observatório do Turismo de Lisboa.

Para já, ainda não há um mapa da cidade em mandarim, mas o turismo da capital portuguesa já dispõe de uma brochura de divulgação de Lisboa nessa língua. Neste observatório não há dados exactos sobre o tipo de turista que visita a cidade, conta Rita que sabe o empenho que está a ser feito para atrair cada vez mais turistas a visitar Portugal. “A nível nacional, o Turismo de Portugal já tem um representante permanente na China, enquadrado na Embaixada em Pequim, com vista a uma nova fase na promoção do país junto do mercado chinês.”

O mercado chinês é um dos mais apetecíveis do mundo. Cerca de 109 milhões de chineses – mais 19,5% do que em 2013 – viajaram o ano passado para fora da China. A maioria fica-se por Hong Kong e Macau, mas os Estados Unidos, a Europa e a Austrália atraem cada vez mais a nova classe média chinesa. Para captar uma fracção desses viajantes, o Turismo de Portugal levou em Maio a Pequim, Xangai e Cantão uma série de seminários para promoção dos destinos nacionais. Além da participação de 12 operadores turísticos portugueses, centenas de agências chinesas juntaram-se à iniciativa e num único dia foram registados mais de 50 contactos para a formalização de pacotes turísticos.

 

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Mapa bilingue para facilitar comunicação

Xin Te La ou Ma Fu La. Esses são dois dos nomes que os turistas chineses mais dizem quando apanham um táxi em Lisboa. Querem dizer, respectivamente, Sintra e Mafra e desde de Maio os sons chineses para os nomes portugueses deixaram de ser um problema. A Sinomaps lançou um mapa desdobrável, de 90 centímetros por 60, que custa apenas 15 yuans (2,5 euros) e assinala nas duas línguas os nomes das principais localidades de Pu Tao Yao (Portugal), Xi Ban Ya (Espanha) e An Dao Er (Andorra). De Wei Ya Na Bao (Viana do Castelo) a Fa Lu (Faro), constam no mapa todas as capitais de distrito portuguesas. No reverso do mapa, por entre várias informações úteis acerca de Li Si Ben (Lisboa) e Bo Er Tu (Porto), iguarias como cozido à portuguesa, feijoada, amêijoas à Bulhão Pato ou vinho verde são mencionadas na língua original.

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