Sábado, Maio 30, 2020
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Ícones | Hung Bak Lam

 

 

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Texto Patrícia Lemos

 

Inventado pelos japoneses há mais de 50 anos para embalar matérias-primas, este típico tecido de plástico chegou a Hong Kong pela mão dos formosinos. A moda pegou quando se transformou em saco ou hung bak lam gaau doi (紅白藍膠袋), tornando-se imagem de marca das duas regiões administrativas especiais. E faz todo o sentido que assim seja. Afinal, o saco é maior por dentro do que parece por fora, mais resistente que o plástico comum e adapta-se a qualquer situação. E não é isso que Macau e Hong Kong cobram da sua história: resistência às adversidades, capacidade de se ajustar a grandes mudanças e uma importância maior do que a terra ditada pelas fronteiras?

Em xadrez ou às riscas, o hung bak lam entrou em Hong Kong para tomar conta dos campos, mas foi o betão que melhor o acolheu e promoveu já nos anos 1970, numa altura em que a cidade se modernizava e convertia num grande centro financeiro. O tecido não se fez rogado e galgou andaimes acima, cobrindo o esqueleto dos novos edifícios de Hong Kong. As velhas lonas não tinham como rivalizar com este material que era mais barato, resistente, durável e leve; com tiras cruzadas na vertical e horizontal tão apertadas que conseguiam vencer a força do vento e da chuva. A demanda aumentou de tal forma que os taiwaneses apostaram na produção e exportação massivas, passando a perna aos japoneses que limitaram as vendas às suas fronteiras.

Ao mesmo tempo que ganhava terreno na revolução urbana, a “pele de cobra”, como era carinhosamente apelidado este material, terá encantado um alfaiate de Hong Kong. Lee Wah tirou-lhe as medidas e transformou-a num saco, no famoso hung bak lam gaau doi – embora nem todos lhe dêem esse crédito. Nos anos 1980 era vê-los cruzar a fronteira com a China carregados de presentes, proibidas que tinham sido as varas com cestos pendurados. Os sacos iam pela mão dos muitos chineses que haviam criado raízes nas duas pérolas do Delta e aproveitavam para visitar os parentes das remotas aldeias chinesas.

Foi nessas travessias e como capa das construções de Hong Kong que o tecido se encheu de simbolismo, tanto que hoje é conhecido entre os chineses como saco das obras ou “que serve para levar coisas para a China”. Ilustrava não só a proximidade crescente do Interior do País nos anos que antecederam a transição de soberania, como o espírito laborioso dos chineses na edificação de Hong Kong. São essas interpretações, análises que ocupariam os laboratórios dos artistas. As cores do tecido passaram a ter um sentido patriótico, valendo quase tanto como a bandeira de Hong Kong.

A tela de plástico a que os hong kongers também chamam de red-white-blue não tardou a chegar às galerias de arte, afirmando-se como ícone cultural, motivando a população a reagir à mudança. Um dos seus mais prolíficos fãs é o artista Stanley Wong, que o apresentou na Bienal de Veneza em 2005 e, mais recentemente, o recriou para a grande marca de vodka Absolut.

Enquanto os artistas o instituíam como ícone cultural, os designers devolviam-no ao mundo consumista em inúmeras aplicações, como foi o caso dos criativos da loja G.O.D. (Goods of Desire). Papel de parede, capa de telemóvel, ténis, relógios e até publicidade institucional ganharam novo visual. Ao pé deste material de polietileno a cortiça é uma criança. Até à data, nenhuma reinvenção superou o sucesso do saco original, que ainda hoje é presença obrigatória tanto nas casas dos chineses como dos estrangeiros das RAE.

A estética do suposto modelo de Lee Wah foi valorizada sobretudo pelos mais jovens e aficionados da moda. Mas no estrangeiro teve uma repercussão que deixou a China de boca aberta. Afinal, como poderiam imaginar que aqueles hung bak lam gaau doi baratos pudessem algum um dia levar o selo da sua marca favorita, a Louis Vuitton? Foi em 2007 que o inacreditável aconteceu quando numa passarela da marca francesa – cuja bandeira, sublinhe-se, tem as mesmas cores do saco – desfilaram malas repescadas do modelo sínico.

 

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A ganhar cores

Apesar de se ter notabilizado como xadrez vermelho, branco e azul, este tecido começou por ser às riscas azuis e brancas, tal e qual a sua matéria-prima. Foram os taiwaneses que convidaram o encarnado para a festa, por ser uma cor auspiciosa. Esses são de facto os padrões mais usados em Macau e Hong Kong, mas é possível encontrar noutras cores como preto, verde e laranja.

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