Sexta-feira, Maio 29, 2020
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Os Mitos da Criação na Cultura Chinesa

Mitos da Criação-INTRO

 

Texto Fernando Sales Lopes | Ilustrações Rui Rasquinho | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

 

Mitos da Criação

Os mitos da criação são transversais a todas as culturas tendo normalmente origem em antigas crenças que as tradições foram reproduzindo por via oral, resultando num aparato, mais ou menos estruturado, tendo em vista a explicação das origens do mundo e da humanidade.

Transcendental, o mito do princípio das coisas e seres, está ligado a sujeitos e actos que assumem essa transcendência. Nessas formulações o princípio do universo resulta muitas vezes de um outro mundo, destruído por ter falhado a perfeição, e por vontade da transcendência divina. O caos surge como uma desordem, associada ao mal, em contraste com a ordem que é estabelecida por deus – ou é o próprio Deus- como refere o Génesis no Antigo Testamento, com Deus a criar o Mundo em seis dias, a partir do nada (creatio ex nihilo)[i]. O caos, ou ideia semelhante com outra designação, é sempre qualquer coisa que encerra em si os contrários, ou seja, ele é Mal enquanto desorganização, contudo nessa amálgama encontra-se tudo o que existe, e que se transforma em Bem quando o agente “divino” organiza esse caos, separando coisas e entes, dando-lhes vida e significado. Tidos como verdades incontestáveis, os mitos da criação justificam e tornam perceptível o aparecimento de todo o universo – celestial e terreno – assim como dos habitantes de todos os géneros, míticos ou reais, surgindo datados – sempre que adoptados ou criados por religiões – numa fixação temporal incompreensível para os seres humanos.

Os mitologistas há muito que catalogam e criam grupos agregando mitos com similitudes de modo a tentar esclarecer aquilo que é comum e o que surge isolado nas mitologias da criação, para uma maior facilidade de estudo, nomeadamente: a criação a partir do caos; a criação a partir do nada; a criação a partir do desmembramento de um ser primordial; a criação através de uma divindade; a criação resultante de acto procriador de um casal; a criação a partir de um ser vindo de outro mundo, entre outros. Também a criação do homem surge diversa conforme as culturas e os seus mitos. Na mitologia chinesa a humanidade é criada a partir da lama (tal como num do capítulos do Génesis, com Deus a criar o homem a partir do barro), ou a partir do acasalamento dos primordiais humanos (como na segunda versão da criação por Nü Wa) o que nos leva à comparação com a descendência de Adão e Eva, por exemplo, onde a procriação é a “máquina” do crescimento da humanidade. Irmãos que acasalam, num incesto sagrado e mitológico que surge em vários mitos.

 

Mitos da Criação-A final2 

 

Mitologias Chinesas da Criação

Na cosmogonia chinesa não há um criador de todas as coisas como nas “Religiões do Livro” com um ser divino criador definido e imutável, onde uma sequência de actos seus provoca a criação de todas as coisas, tudo isto registado em livro sagrado. O espectro da “curiosidade” sobre a origem do cosmos e da humanidade na cultura chinesa vai desde a aceitação do status quo sem o questionar, passando pela crença da existência desde sempre e para sempre do Céu e da Terra (coincidindo com a visão abstencionista Budista), ou o Tao como origem na versão do Tao Te Ching, ou o mito de Pan Ku com variantes, a que se poderão associar de forma anacrónica dezenas de divindades contributivas com os seus diferentes papéis criadores.

Uma característica quase única das mitologias chinesas da criação é o facto de elas terem sido elaboradas, ou pelo menos criadas, ou absorvidas, pela religião (Taoismo, Confucionismo e Budismo) muito tardiamente. A primeira vez que surge a ideia da criação (ou que é sugerida uma cosmogonia mítica) é já no século IV a.C. no Tao Te Ching:

Do caminho nasceu a unidade, da unidade nasceu a dualidade, da dualidade nasceu a trindade, desta nasceu toda a miríade de criaturas[ii]

Talvez mais clara e perceptível esta versão:

           Em Tao emergiu o Um (Ser)

O qual se fragmentou em Dois (Yin e Yang)

Dos Dois nasceram Três

E dos Três saíram as dez mil coisas (…)[iii]

Para o Taoismo Tao é a origem de todas as coisas concentrada nos contrários Yin (princípio passivo, feminino) e Yang (princípio activo, masculino)

 

Pan Ku Criador do Céu e da Terra

Na China existem várias lendas sobre a criação do universo, ou dos seus componentes, e da humanidade, contudo a mais importante – embora com variantes regionais – é o mito de Pan Ku ( 盤古;盘古), um mito tardio elaborado por monges taoistas centenas de anos após o desaparecimento de Lao Tsé (Lao Zi, 老子). Xu Zeng (徐整) autor taoista foi o primeiro a fazer referência a este mito no séc. I d.C. Note-se que Pan Ku não se encontra referenciado em qualquer dos antigos clássicos da China, enquanto Nü Wa o é, cinco séculos antes daquela divindade criadora. A primeira referência feita pelo Taoista Xu Zheng está registada na obra Sanwu Liji 三五 do Período dos Três Reinos (Registos Históricos dos Três Augustos e dos Cinco Imperadores). Estes são os primeiros governantes mitológicos da China, reis-divindade e lendários reis sábios. Em relação aos Três Augustos embora a sua identificação se altere conforme as fontes podemos referir Fu Xi, Nü Wa (os pais da humanidade) e Shennong (神農,神农) inventor da agricultura e da medicina. Outros referem 黃帝 Huangdi (, ) em substituição de Nü Wa, englobando a deusa no grupo das primeiras divindades chinesas ao lado de Shangdi (上帝), Tian(), Pan Ku e Yu Huang (玉皇).

Atentamos, pois, naquilo que se conta sobre o modo e o tempo das actividades criadoras de Pan Ku. A gigante divindade, terá crescido e se desenvolvido no interior do Caos que teria a forma de um enorme ovo[iv], (a unidade) ai permanecendo por cerca de 18 mil anos. Um dia acordou, espreguiçou-se partindo o ovo em dois (a dualidade). Dos pedaços originados pela cisão, aqueles que eram puros, e luziam, rapidamente formaram os céus (Yang), enquanto as partes impuras que caiam formaram a terra (Yin). Pan Ku tinha agora a importante tarefa de manter nos seus lugares o céu e a terra, para isso, colocou-se entre as duas partes sustentando com a cabeça o céu. Para que elas ficassem separadas Pan Ku crescia em cerca de três metros, nove vezes por dia, assim como o céu e a terra, o que foi acontecendo por mais 18 mil anos até o céu ficar bem distante, e a terra ter ficado muito maior. Pan Ku manteve-se como um pilar sustentando o céu e a terra para que não viessem a mergulhar novamente no caos. Muito, muito tempo depois as duas partes da esfera estavam fixadas nos seus lugares de forma segura não havendo perigo de qualquer retrocesso.

Pan Ku tendo cumprido a sua primeira missão criadora falece acontecendo contudo no seu corpo transformações que resultam em criações assessórias que completam a sua missão: a sua respiração transforma-se nos ventos e nas nuvens; a sua voz no estrondo dos trovões; o seu olho esquerdo no Sol e o direito na Lua; os quatro membros e as cinco extremidades nos quatro pontos cardeais e nas cinco montanhas[v]; o seu sangue e sémen na água e nos rios; as suas veias nos caminhos; a sua carne nos campos e nos solos; os cabelos da sua cabeça e a barba nas estrelas do céu; a sua pele e os cabelos do corpo, em searas, árvores e flores; os seus dentes e ossos em metais e pedras; a sua medula em pérolas e jade; a sua transpiração e líquidos corporais no orvalho e na chuva. Os diversos insectos (pulgas e piolhos) fixados no seu corpo foram espalhados pelo vento transformando-se nos diferentes povos do mundo (há versões que em vez dos diferentes povos, assinalam a transformação dos insectos em pessoas de cabelo preto).

 

Templo de Nu Wa_GLP_03

 

Os Trabalhos de Nü Wa – de Criadora da Humanidade a Reparadora do Firmamento

Com uma face humana e um corpo de serpente a deusa Nü Wa (女媧 ; 女娲) que tem, também, a particularidade de poder alterar a sua aparência setenta vezes por dia, desempenhou um papel muito importante na visão chinesa da criação do mundo. O mito conta que um dia andando ela a passear pelo deserto mundo primitivo ao olhar em seu redor se sentiu só. Perante esta realidade a deusa conclui haver necessidade de criar mais vida naquele ermo. Mas como, e o quê? Cansada do seu longo passeio sentou-se à beira de um lago onde se reflectia o seu rosto e todo o seu corpo, e todos os seus movimentos e expressões demonstrando alegria ou tristeza surgiam em imagens idênticas como uma cópia perfeita no espelho daquelas águas límpidas. Perante isto Nü Wa conclui que na verdade existiam diversas coisas que viviam no seu mundo, mas que nada igualava a sua própria forma de vida, interrogando-se se não seria bom ela própria fabricar seres à sua imagem e semelhança para povoarem a terra. Enquanto pensava pegou com as suas mãos um pouco de lama da beira do lago começando inconscientemente a amassá-la, surgindo-lhe o perfil, a forma de um ser, mas o mais importante aconteceu quando ao colocar aquela massa modelada sobre a terra repentinamente ela se tornou vida. Radiante com o que criara, baptizou logo ali aquele ser como “humano” continuando a produzir esses seres que a tiraram da solidão em que antes se encontrava, no mundo terrível do caos.

A deusa criadora da humanidade passou dias e dias a criar seres humanos contudo eram poucos para todo um mundo que se encontrava desabitado. Pensou Nü Wa ser necessário encontrar uma maneira de produzir em grande quantidade, e rapidamente, esses seres. A ideia luminosa surgiu então. Puxou uma comprida raiz de um penhasco que vinha enlameada mergulhou-a na lagoa e sacudiu-a no ar variadas vezes. Os pingos de lama iam caindo e ao embaterem na terra transformavam-se em milhares de pequenos seres. Com esta invenção Nü Wa conseguiu rapidamente espalhar humanos por todo o mundo.

 

Templo de Nu Wa_GLP_08

 

As classes sociais e a divisão sexual

Ora tendo sido o homem criado pela deusa, primeiro de forma individual e moldado pelas suas mãos, e depois através de um método industrial, que como todos, para além das peças perfeitas, também produzem escória e malformações, surgiu uma estratificação catalogada conforme a qualidade e perfeição. Assim, as peças mais nobres, ou pelo menos mais cuidadas, ou se manufacturadas pela deusa, deram origem à rica aristocracia, as que resultaram da projecção da lama pelos ares, originaram os pobres e as classes mais baixas.

Nü Wa perante a inevitabilidade da morte que a obrigava a estar constantemente, num trabalho ciclópico, a produzir humanos para substituir os que desapareciam, mais uma vez teve que resolver o problema recorrendo à sua mente criadora, até encontrar um caminho, que passou pela divisão da humanidade em dois tipos machos (homens) e fêmeas (mulheres) que, acasalando, podiam criar os seus próprios descendentes assegurando para sempre o povoamento da terra.

 

Nü Wa e seu irmão como pais da humanidade

Existe um outro mito sobre a criação dos humanos que volta a ter Nü Wa como personagem central, só que nesta versão não está sozinha na tarefa dividindo-a com o seu irmão. Conta lendário mito que no início da criação do universo não existiam seres humanos a não ser o par constituído por Nü Wa e seu irmão Fu Xi ( 伏羲) que viviam no Monte Kunlun (崑崙山,昆仑山) tido como o paraíso do taoismo.

Os irmãos pensaram que a fórmula para a criação da humanidade residia unicamente neles e que para tal deveriam tornar-se um casal. Não quiseram contudo assumir esse acto por si, e decidiram consultar o Céu. Um dia subiram ao monte sagrado onde cada um acendeu uma fogueira. Olhando o céu fizeram uma prece: se ele desejava que se tornassem marido e mulher que lhes enviasse um sinal, que consistia na união do fumo das duas fogueiras. Como tal aconteceu eles tornaram-se num casal, contudo Nü Wa, envergonhada, talvez, fez um leque de palha para cobrir a face antes de se juntar ao seu irmão. Tal acto criou o costume, que sobrevive até hoje, da noiva usar um leque no dia do casamento escondendo ligeiramente a sua face, e é interessante referir que também a eles se atribui a criação da instituição casamento.

 

Quando o Firmamento se quebrou

Houve um tempo, que se desconhece quando foi, em que uma enorme tragédia se abateu sobre o universo deixando em risco a humanidade. Tal aconteceu quando metade do céu caiu deixando enormes buracos no firmamento.

A tragédia alargou-se à terra, que rachou, na sequência do cataclismo telúrico, abrindo enormes abismos em todas as direcções. As florestas, em chamas, ficavam destruídas e as águas brotavam da terra jorrando em ondas gigantes transformando o mundo num vastíssimo oceano. Os animais selvagens saíram das florestas aterrorizando a humanidade desprovida de meios de resistência e de sobrevivência.

Nü Wa vendo a destruição que pairava sobre as suas criaturas tomou então a decisão de salvar o mundo pelo que precisava de reparar aqueles buracos no céu. Deitou então mãos à obra começando por escolher multicoloridas pedras do rio que juntamente com uma espécie de cola líquida derreteu sobre uma fogueira criando a argamassa reparadora que usou para recuperar o firmamento. Contudo, teve receio que a tragédia pudesse repetir-se colocando mais uma vez em risco a vida humana, pelo que pensou que seria melhor arranjar qualquer coisa para sustentar o céu evitando que ele caísse sobre a terra. Começou a deusa por abater uma tartaruga gigante, cortou-lhe as pernas e colocou-as como pilares para escorar os quatro cantos do céu. Por isso, ele continua até hoje a estar lá no alto, firme e seguro.

 

Mitos da Criação-B final4

 

Nü Wa protege a humanidade indefesa

Reparado o céu para segurança e sossego da humanidade, novo perigo pairava sobre ela chamando Nü Wa a mais um trabalho em sua defesa. Tratava-se de um feroz Dragão Negro que agitava enormes ondas causando inundações catastróficas para a sobrevivência da humanidade. Nü Wa construiu então uma enorme barreira de canas queimadas junto ao rio de modo a suster as águas e afastar o perigoso animal que dizimava o seu povo. A humanidade voltou assim a viver em paz retornando à sua ordem natural, com as estações do ano a sucederem-se na sequência certa. As feras voltaram para o seu meio, longe das gentes, e os que ficaram transformaram-se em animais domésticos. Os alimentos cresciam nos campos e a humanidade ficou feliz.

Concluídos os seus trabalhos de mãe da humanidade, dando aos humanos segurança, subsistência e paz, Nü Wa pode então descansar eternamente. O seu corpo tal como acontecera com o do criador Pan Ku transformou-se em muitas e diversas coisas necessárias ao crescimento do Universo.

Falámos aqui de três personagens mitológicas de relevo para a cosmogonia chinesa: Pan Ku, Nü Wa e Fu Xi. Contudo são inúmeras as divindades que participaram nesse movimento criador que alastrou, dando origem desde as coisas mais importantes da vida, até às mais insignificantes, mas também necessárias. Não existe pois, como anteriormente referimos, uma mitologia chinesa da criação, mas sim essa multiplicidade de seres criadores, que podem ter dado à humanidade, por exemplo, a agricultura, o fogo, a sericultura, um só Sol, a medicina, ou até mesmo, o chapéu-de-chuva.

 

 

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[i] O primeiro capítulo do Génesis na Tora e na Bíblia, mas também no Corão, atribui toda a criação a um Deus uno e omnipotente. Nas suas origens terá estado o mito sumério da criação contido no poema “Enuma Elish”, a mais antiga descrição escrita da origem da humanidade influenciando as cosmogonias egípcia, semita e, através da influência grega, a romana. Em todas elas a procriação é o elemento criador da humanidade.

[ii]Tradução do autor a partir da versão inglesa in Mair, Victor H. (1990).Tao te Ching: The Classic Book of Integrity and the Way, by Lao Tzu. Bantam

[iii] João Correia dos Reis. (Macau 1999). O Livro de Lao Zi , Edições Vento Sul

[iv] O “Ovo Cósmico” como início ou motor da criação é frequentemente referido em diversos mitos com ela relacionados.

[v] As cinco montanhas sagradas do Taoismo (五嶽, 五岳), a saber: Grande Montanha Oriental (Tài Shān), Grande Montanha Ocidental (Huà Shān), Grande Montanha Meridional (Héng Shān, Hunan), Grande Montanha Setentrional (Héng Shān) e Grande Montanha Central (Sōng Shān)

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