Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Educação | Em busca de outras áreas

 

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Texto Luciana Leitão

 

Se há alguns residentes que optam por prosseguir os estudos superiores fora de Macau para ter uma experiência diferente, há outros que o fazem apenas porque os cursos pretendidos não fazem parte do currículo das universidades locais. É o caso dos interessados em cursos como Agricultura, Veterinária, Medicina, Higiene Dental, Antropologia e Ciência Espacial.

Madalena Cheong é uma residente de Macau que optou por tirar uma licenciatura em Osteopatia no Canadá, na Universidade de Waterloo, dada a falta de opção na RAEM. “Depois de terminar a licenciatura ainda fiz um curso de massagista também no Canadá”, conta. Passados alguns anos, a jovem regressou para junto da família, mas não encontrou boas oportunidades na sua área. “Cheguei a trabalhar em algumas clínicas de fisioterapia, mas o salário e as condições não eram bem o que esperava”, diz, explicando que depois acabou por entrar na indústria hoteleira, em busca de melhores oportunidades. A experiência no Canadá foi muito boa, já que “conheceu pessoas diferentes, uma cultura diferente e a paisagem também era boa”.

Madalena não é caso único, já que muitos amigos tomaram a mesma opção. “Conheço muita gente que tirou licenciatura no estrangeiro, escolhendo um curso sem um futuro profissional em Macau”, diz, acrescentando: “Muitos não regressaram, mas alguns sim.”

Segundo dados facultados pelo Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES), entre os candidatos elegíveis ao subsídio para apoio na compra de material para o ensino superior em 2012/2013, 15.745 residentes inscreveram-se em universidades no exterior e 18.449 em Macau. No ano lectivo seguinte, o número de inscritos na RAEM ascendia a 18.649, enquanto que o número dos que estudavam fora correspondia a 14.713.

Entre as principais áreas que os estudantes de Macau procuram no estrangeiro encontram-se a Agricultura, Higiene Dental, Ciência Espacial, Antropologia, Medicina e Veterinária, escolhendo, dependendo do curso, como principais destinos Taiwan, Austrália, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos ou Alemanha.

Por exemplo, o curso de Ciência Espacial foi dos mais concorridos entre os que não oferecem perspectivas profissionais na RAEM, tanto no ano lectivo de 2012/2013 (32 alunos), como em 2013/2014 (33 alunos), com a maioria a optar pela Austrália, Estados Unidos e Taiwan.

A licenciatura em Higiene Dental foi a mais concorrida entre este leque de cursos, com 81 residentes a inscreverem-se em universidades no estrangeiro em 2012/2013 e 92 no ano lectivo seguinte. Neste caso, a maioria escolheu a China e Taiwan para concluir a licenciatura.

 

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Programas limitados

A directora do Centro de Investigação em Educação da Universidade de Macau, Teresa Vong, afirma que tratando-se Macau de um sítio pequeno é “difícil oferecer uma grande variedade de cursos”. Por isso, aqueles que queiram prosseguir determinados estudos acabam por ter de fazê-lo no estrangeiro. “Por exemplo, os que queiram completar a licenciatura em Medicina, têm de ir para fora de Macau.”

De acordo com a académica, ainda se vê muito no território estudantes que optam por prosseguir uma área em função das oportunidades profissionais em Macau. “Muitas vezes, os estudantes locais preferem escolher um curso que se encaixe numa indústria”, diz, acrescentando: “Não me parece correcto – este pensamento é muito prático e técnico”. Aliás, para Teresa Vong, é importante, quando se está no ensino superior, a capacidade de movimento, para trabalhar seja em Macau ou noutros lugares. E isso é ainda mais importante, considerando a falta de opções no ensino superior local. “Mesmo assim, depois de estudarem fora, podem regressar e abrir novas oportunidades, arrancando um determinado sector ou indústria. Tudo depende de quão corajosos são os alunos.”

Geralmente, os estudantes da RAEM são “mais conservadores”, optando por tirar cursos que depois tenham saídas profissionais em Macau. Mas ainda há uns quantos que escolhem o curso em função do seu interesse. “Para mim, toda a gente devia estudar Filosofia, porque aprendem a pensar, mas a Universidade de Macau tem muitos poucos alunos nesse curso.”

Segundo a professora, há muitos alunos locais a optar por prosseguir os estudos superiores em Taiwan ou noutras regiões vizinhas. “Conheço muitos jovens que escolhem Taiwan para tirar Belas Artes e, se tiverem mais dinheiro, chegam a ir para Londres”, diz. “O Instituto Politécnico tem o curso de Belas Artes, mas alguns residentes preferem ir para fora.” E muitos desses que tiram cursos como o de Belas Artes, acabam por ficar a trabalhar fora de Macau, já que têm mais oportunidades na área. Para este e outros sectores, como marketing ou média, o território “não precisa de profissionais para já”, ainda que não se saiba o dia de amanhã.

Assim, a investigadora vê dois tipos de estudantes em Macau: “Há aqueles que escolhem os seus estudos em função das possibilidades de trabalho, ou seja, são mais práticos, e há os que vão em busca de algo que os interesse e depois terão de procurar oportunidades.”

Tudo isto acaba por estar directamente ligado ao sistema do ensino secundário. “Sei, por exemplo, que há jovens em escolas como o Colégio Anglicano, que já desenvolveram bons hábitos de leitura e alguns preferem simplesmente tornar-se escritores”, declara. “Acredito que dependa realmente de quão bem o ensino secundário prepara-os para prosseguir com os estudos.” E a maior parte das escolas é “bastante prática”, incutindo algum pragmatismo nos respectivos alunos.

Assim, normalmente os residentes de Macau acabam por preferir prosseguir os estudos superiores em Macau, até porque podem recorrer a trabalhos a tempo parcial para ganhar experiência. “Têm uma mentalidade bem mais prática”, diz.

 

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As áreas de estudo mais populares em Macau

Nas dez instituições de ensino superior da RAEM no ano académico 2012/2013, havia 27.776 estudantes inscritos. Os cursos ligados às áreas das Ciências Sociais, Gestão Comercial e Direito são os que mais atraem alunos.

 

Ciências Sociais, Gestão Comercial e Direito           14.507

Serviços          5.472

Estudos Humanísticos e Artes         2.988

Saúde e Assistência Social    1.748

Educação        1.030

Ciências          1.197

Construção e Engenharia     822

Fonte: GAES

 

 

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O que querem fazer os jovens graduados

A grande maioria dos jovens graduados sonha com um emprego na administração pública. Inquéritos do GAES aos recém-graduados em 2013 sobre as suas intenções de carreira indicam ainda que mais de 12% gostava de ter o seu próprio negócio.

 

Função pública          72,85%

Banca, finanças e seguros    34,25%

Educação        29,33%

Turismo          27,83%

Jogo                 27,40

Serviços Sociais          12,70%

Criação do próprio negócio  12,52%

Indústrias criativas   10,77%

Comércio        10,21%

Saúde 9,46%

Informática    6,23%

Jornalismo e Comunicação 5,17%

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