Segunda-feira, Agosto 3, 2020
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Há vegetais chineses a crescer no Alentejo

 

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Texto Mónica Menezes | Fotos Paulo Cordeiro

Em Portugal

 

Numa tradução livre, até podem ter nomes iguais aos portugueses, mas a verdade é que o que Li Yonggang e Chen Guangsong plantam na Fazenda da Lagoa do Passa Figo quase nada tem a ver com os vegetais que se produzem e comem em Portugal. Tirando as ervilhas, a abóbora e o aipo, tudo o resto é uma novidade para os que gostam de estar informados sobre a gastronomia de cada país. A alface não é mais do que umas folhas estreitas e compridas presas a um caule, o nabo é branco, grande e comprido, a couve até tem parecenças com o repolho, mas o sabor afasta qualquer semelhança. E depois há o pak choi, o pepino amargo, o feijão metro, o crisântemo… Tudo sabores que Li comia na China e que em Portugal era difícil, para não dizer quase impossível, de encontrar. E foi por que esta estufa nasceu.

Primeiro Chen veio de armas e bagagens para o Alentejo, já lá vão 14 anos. Abriu uma loja e o negócio corria de feição. Animado com as boas notícias que o cunhado fazia chegar à China, Li partiu para Portugal dois anos depois. Trabalharam juntos na loja ano após ano, mas Li não se habituava aos vegetais portugueses e os que encontrava de sabor oriental vinham de Espanha e não tinham a frescura necessária. Então, arranjou um pedaço de terra e com as próprias mãos cavou, cavou, cavou e plantou os vegetais de que já sentia falta. Primeiro foram os pak choi e as couves chinesas, só mais tarde é que Li se aventurou em outras plantações.

 

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Prestes a fazer 40 anos, Li conta que nunca tinha trabalhado em horticultura. No Norte da China a sua experiência profissional resumia-se ao trabalho que tinha na tropa. “Nós na tropa fazemos muita coisa, não é como aqui, é muito diferente”, assegura. Li nunca tinha aprendido qual a melhor terra para cultivar, qual a melhor água para regar e que vegetais sobreviveriam ao clima alentejano. A sua pequena horta dava para alimentar a família, até que os amigos começaram a pedir para eles também. E Li e o cunhado Chen começaram a pensar se não estaria ali o negócio do futuro. “Tínhamos uma horta pequena, começámos a pouco e pouco. E de repente começámos a perceber que aquele era um bom caminho”, recorda Li.

Primeiro conheceram quem fazia a montagem de estufas e, dado o primeiro passo e aprendidos os primeiros procedimentos, chegaram ao engenheiro que agilizou toda a obra. O apoio conseguiram no ProDer [ver caixa]. “Não foi fácil arranjar dinheiro, aliás, nunca é fácil ter dinheiro”, diz a rir Li Yonggang. E acrescenta: “Fiz um curso de horticultura para depois conseguir apoios. Foi um investimento de cerca de 300 mil euros.” Começaram por plantar pak choi e couve chinesa e à medida que foram percebendo do que os chineses mais sentiam a falta, foram alargando o leque. Tem sido um trabalho gradual e cansativo. “Demorámos cerca de cinco anos a ter esta estrutura. Não é fácil o trabalho no campo. Às vezes corre bem, às vezes corre mal. Temos sempre de ir experimentando. Temos de fazer análises à terra, à água, há sempre coisas a estudar. Ainda hoje passamos os dias a fazer estudos.”

 

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Foram e são muitas as horas que Li passa na estufa da Fazenda a fazer experiências. “Foi muito difícil, muito difícil mesmo pôr este projecto de pé porque eu não conhecia as coisas, não conhecia a horticultura, não sabia como nasciam as coisas, quanto tempo demoravam a nascer, o que podia plantar em cada altura do ano, eu não sabia nada.” Mas Li não gosta de virar as costas a um bom desafio. Com o cunhado e com a família que volta não volta vem da China para ajudar, conseguiu pôr de pé um projecto que já abastece várias mercearias e restaurantes de Lisboa.

Até chegar a este ponto errou, errou muito, mas sabe que é assim que se aprende. “Tudo se aprende, o que é preciso é ter conhecimentos. Tive de estudar, se não estudar vou cometer erros e se cometer erros não vai correr bem e perco dinheiro.” Não esconde que errou muitas vezes até tudo correr bem, mas como se diz em Portugal “faço, aprendo” e as lições foram sendo adquiridas. “A horticultura tem muito a ver com o clima e com isso ninguém consegue fazer contas. Pode ser muito frio, pode ser muito calor, pode chover muito, pode chover pouco. É sempre difícil encontrar o equilíbrio, mas vida de camponês é mesmo assim. Se tem sorte, ganha, se não tem sorte, tem mais trabalho.”

 

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Dia sim, dia não os vegetais seguem viagem até Lisboa. Por enquanto, não faz sentido a viagem ser feita todos os dias. Embora haja muitos chineses em Portugal, é uma minoria os que vão ao Martim Moniz fazer compras e os portugueses são em número ainda mais reduzido. Aliás, são poucos os portugueses que conhecem estes vegetais, os que conhecem têm ou tiveram, quase todos, alguma ligação com a China. Em Montemor-O-Novo, Li e Chen não têm clientes portugueses. Li recorda-se apenas do senhor que lhe vende as alfaias e que gosta muito de couve chinesa. “Ofereço porque é um amigo. Aqui no Alentejo muitas pessoas já experimentaram e gostam especialmente do nosso nabo que é mais doce, mas comprar não compram, comem quando lhes ofereço. Só vendemos a algumas famílias chinesas, mas para consumo próprio, não para cozinharem nos seus restaurantes.”

As sementes que cultiva encontra-as quase todas em Portugal. “Há uma empresa no Norte, há uma loja aqui perto que também tem. Tenho é de explicar bem à senhora senão dá-me repolho em vez de couve chinesa”, graceja. Algumas lojas indianas também têm o que Li procura e quando a busca torna-se difícil nada como pedir ajuda à família que está na China. “Mas encontro quase tudo aqui. As ervilhas são iguais, a abóbora é igual… Basta procurar bem para encontrar o que quero.”

 

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E o que quer Li para o futuro da sua estufa? “Que continue pelo menos como está. A economia está mal, mesmo na alimentação as pessoas estão a poupar e o que compram é sempre o mais barato, mas mesmo assim temos lucro. É difícil, mas dá alguma coisa, claro. Enquanto assim for, continuamos para a frente.” Como gosta de dizer: “Está tudo a andar. Agora só podemos olhar para a frente, nada de olhar para trás.”

O horticultor encontrou esta Fazenda através de um vizinho, na altura era tudo erva, pasto para os animais. Li tem consciência que esta localidade nem é o melhor sítio para os seus vegetais chineses – tanto faz muito calor, como faz muito frio – e a melhor opção seria mesmo na costa alentejana. Mas já não há volta a dar. A estufa cresce de dia para dia e cada vez com mais sucesso.

 

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Li fala pausadamente. Parece que já foi contagiado pelo vagar alentejano, o mesmo que faz com que goste tanto de viver no sul de Portugal. “As pessoas alentejanas são muito boas. São mais sossegadas e muito simpáticas. Gostam muito de nós e tratam-nos muito bem. Quando trabalhei na loja sempre me trataram bem, com vagar, mas com muita simpatia! Dizem sempre “devagar”, mas vão fazendo tudo!”. Li diverte-se com esta expressão e com este modo de estar alentejano.

Voltar à China já não faz parte dos seus planos. Os filhos já nasceram no Alentejo e mesmo Li, que nasceu do outro lado do mundo, em 12 anos só voltou uma vez a casa. “Já não conheço aquilo, já estou habituado a viver aqui”, revela. E, por isso, até os sabores portugueses, ao contrário do que aconteceu no início da sua estadia no Alentejo, já lhe sabem bem. “Gosto muito de bacalhau cozido e quando como gosto de acompanhar com couve e não é a couve chinesa, é mesmo a couve portuguesa, de outra forma estava a enganar-me!” Quando não come em casa, Li nunca vai a um restaurante chinês, opta sempre por ir experimentando as iguarias portuguesas porque essas não as come em casa. Hoje em dia, já é fã do Cozido à Portuguesa e da Carne de Porco à Alentejana.

 

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À porta da sua Fazenda, Li agarra em dois nabos gigantes e aproveita para dar conselhos médicos: “quem come isto nunca fica doente no Inverno. Pode comer-se cru ou na sopa. Faz muito bem. Há um ditado na China que diz mais ou menos isto: ‘No Verão gengibre, no Inverno nabo e o médico tem de vender a mulher para ganhar dinheiro’!” Fica o conselho dado…

 

 

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O que é o ProDer

Este instrumento estratégico e financeiro serve de apoio ao desenvolvimento rural. O seu grande objectivo é aumentar a competitividade dos sectores agrícola e florestal; promover a sustentabilidade dos espaços rurais e dos recursos naturais; revitalizar económica e socialmente as zonas rurais.

 

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