Terça-feira, Julho 7, 2020
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Lusofonia | Língua e cultura também são a alma do negócio

 

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Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Existe um desconhecimento mútuo das culturas chinesa e lusófona e um interesse reduzido por parte dos empresários destes universos geográficos em promover um maior conhecimento linguístico e cultural nas suas organizações. Esta é uma das conclusões de um estudo-piloto desenvolvido por investigadores da Universidade de São José, Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação Macau, que analisou o impacto das relações culturais nas ligações empresariais e de negócios entre a China e os países de língua portuguesa (PLP).

O “Barómetro China-PLP: impactos da cultura nas relações empresariais” foi desenvolvido ao longo de um ano com base num estudo etnográfico, entrevistas em profundidade e um inquérito enviado a 542 organizações participantes na edição de 2014 da Feira Internacional de Macau (MIF, na sigla inglesa). Ao todo, a equipa de investigadores recebeu 69 respostas válidas – 34 de organizações dos países de língua portuguesa e 35 de organizações chinesas.

O projecto exploratório, agora divulgado, destaca a importância atribuída à língua numa relação de negócios, pela forma como pode dificultar ou mesmo impedir a comunicação. De acordo com um documento que reúne as principais conclusões enviado à MACAU, tanto o português como o mandarim surgem em segundo plano como língua comum de negócios. A maioria das organizações portuguesas e chinesas admite que a língua mais usada e aquela que tenciona continuar a usar na actividade de negócios entre a China e os países lusófonos é o inglês.

“O futuro apenas acentuará esta tendência de comunicar numa língua diferente da original de cada país envolvido, associado àquilo que parece ser um esforço acrescido dos parceiros chineses para dominar a língua inglesa nas últimas décadas”, vinca o documento, realçando ainda que são poucas as empresas que declaram ter promovido cursos de língua para os colaboradores em contacto com os parceiros da China ou dos países de língua portuguesa. E, apesar dos intervenientes assumirem que a comunicação nas línguas de origem é um factor de aproximação, a verdade é que não é fundamental para a concretização dos negócios, constata a equipa que efectuou a análise. “Quer uns quer outros dizem que é muito importante ter um bom conhecimento da língua local, mas depois, em termos pragmáticos, a língua que efectivamente usam é o inglês”, explica Verónica Policarpo, directora do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, chamando a atenção para uma “dissociação” entre o que é “desejável” e o que “pragmaticamente fazem”.

A contribuir para a prevalência do inglês como elemento linguístico de comunicação está a falta de “capital humano que domine as duas línguas [português e chinês]”, conclui o estudo, referindo-se à presença de intermediários e tradutores, “cujo número é muito inferior ao necessário”.

 

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Códigos culturais ignorados

A forma como se troca um simples cartão de visita com um parceiro de negócios chinês ou mesmo como se cumprimenta ou agradece nas mesas de negociação em Pequim ou Cantão são apenas alguns exemplos de códigos culturais que podem fazer toda a diferença na hora de dizer sim ou não a um investimento. “O maior conhecimento pode ajudar a construir relações económicas que não sejam só mais eficazes, frutíferas no curto prazo, mas que também sejam sustentáveis no médio, longo prazo”, sublinha Verónica Policarpo.

Os dados recolhidos revelam que não houve uma única empresa chinesa que tenha organizado sessões de formação para os seus colaboradores aprenderem a lidar com os parceiros de negócios lusófonos. Já do lado dos países de língua portuguesa, 12 das 34 organizações (35 por cento) admitiram que o fizeram. “É preciso que as empresas comecem a considerar como um aspecto mais importante da sua actuação não só a parte mais hard do que é fazer negócios com estes países, como os números ou as finanças, mas também a parte mais soft, que está relacionada com os aspectos intangíveis da cultura, do nosso modo de nos relacionarmos”, resume a doutorada em Ciências Sociais.

Apesar dos empresários de origem portuguesa ou dos outros países lusófonos apostarem mais na formação dos seus colaboradores, este “investimento continua a ser diminuto, traduzindo uma orientação focada numa racionalidade de curto prazo e alheia a aspectos mais abrangentes de contexto”, revela o documento.

A apostar na formação cultural do tecido empresarial português e chinês está a Associação dos Jovens Empresários Portugal-China (AJEPC), criada em 2012, e que contribuiu com informações para este estudo. No que diz respeito à formação cultural dos empresários, a associação organiza uma série de actividades, como sessões mensais de esclarecimento em cidades terciárias chinesas ou em Lisboa, no Porto e no interior de Portugal. “Explica-se o básico de cada missão, como se deve estar numa feira, como se deve entregar um cartão, algumas palavras base e comportamentos que poderão influenciar positivamente ou negativamente [o negócio]”, diz o presidente Alberto Carvalho Neto.

 

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Maior envolvimento institucional

Com a realização desta análise, a equipa de investigação espera dar um contributo para colocar na agenda do estudo das relações económicas e empresariais sino-lusófonas os aspectos culturais que dão forma aos valores e comportamentos dos agentes económicos e comerciais, e que é “um tema tão importante, quanto ignorado nas práticas empresariais do dia-a-dia”.

A equipa sugere uma maior promoção de cursos de língua, a formação contínua sobre os aspectos culturais e a realização de encontros informais e visitas entre empresas. Recomenda, além disso, um maior envolvimento de actores institucionais, como o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) e as respectivas delegações no apoio a este tipo de iniciativas e com vista a promover os negócios entre empresários dos dois lados.

De acordo com este barómetro, os países lusófonos apresentam diferentes visões estratégicas da sua presença no Fórum Macau: para Portugal, além do interesse comercial, existe um interesse na preservação do património, da língua e da cultura; o Brasil tem uma presença menos visível, dadas as relações bilaterais desenvolvidas fora do âmbito dos países de língua portuguesa; e para os restantes países, o Fórum Macau é uma oportunidade de captação de investimento e de oportunidades de transferência tecnológica e desenvolvimento de sectores económicos estratégicos. “O desafio do Fórum é assim compatibilizar os diferentes interesses estratégicos dos PLP com os interesses estratégicos e a escala da China”, assinala o documento.

Macau deve mesmo “reinventar” a estratégia para as relações entre a lusofonia e a China, acrescenta Alberto Carvalho Neto. “Há muito mais para ser feito”, realça o presidente da AJEPC, referindo que “faltam resultados práticos” ao Fórum Macau, nomeadamente “no desenvolvimento da cultura e melhoramento de determinadas estratégias”.

 

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