Sexta-feira, Junho 5, 2020
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Macau mais em forma

 

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Texto Cláudia Aranda | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

O sol vai alto e quente nesta manhã de sábado. O relógio marca 10h00 e no campo de jogos junto à Torre de Macau estão já uns 20 atletas, altos, baixos, louros e morenos, mais e menos encorpados. O grupo junta-se para mais uma sessão de urban bootcamp, liderada pelos mentores da prática em Macau João Braga e Nuno Fernandes, ambos instrutores certificados. Em campo há gente de idades, profissões e nacionalidades diferentes. Em comum têm o gosto pelo exercício físico ao ar livre, que é a principal característica da actividade lançada pelos dois sócios em 2012 com o nome de UBC 853. O objectivo dos instrutores era “criar algo diferente, que funcionasse como alternativa aos ginásios e às actividades em recintos fechados”, explica João Braga. “Queremos tirar as pessoas das zonas de conforto das suas rotinas diárias”, acrescenta.

O conceito do urban bootcamp é inspirado na lógica do treino militar: enérgico, intenso, ao ar livre e em condições climatéricas diversas. No caso do UBC 853 os seus mentores adaptaram os exercícios físicos ao meio urbano de Macau e às condições físicas dos seus alunos, com idades entre os 15 e os 50 anos, na maioria com profissões sedentárias: há advogados, professores, estudantes, jornalistas. Os treinos acontecem em Macau ou na Taipa nos jardins, parques ou trilhos públicos. “A nossa metodologia de treino consiste em utilizar as estruturas arquitectónicas disponíveis nos locais onde treinamos, como bancos, escadas ou barras”, prossegue João Braga. “Procuramos sempre adaptar os exercícios ao aluno e ao seus objectivos, mas tendo em conta as suas limitações”, acrescenta.

Mas o que faz os habitantes desta cidade correrem – literalmente – por desporto?

 

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Urban bootcamp para quebrar rotinas

Numa cidade densamente urbanizada e habitada como Macau, onde as pessoas tendem a dedicar-se quase exclusivamente ao trabalho fechadas em escritórios, praticar actividade física apresenta-se cada vez mais como uma alternativa para quebrar rotinas e renovar energias. A necessidade de fazer coisas diferentes no dia-a-dia é grande e muitos dos praticantes de urban bootcamp dedicam o seu tempo livre a mais do que um tipo de actividade física. É o caso de Tina Leong, professora do ensino secundário, nascida e criada em Macau, que pratica desporto para se “manter saudável” e “aliviar o stresse”. “Sinto-me mais eficiente e menos cansada depois de fazer desporto”, diz a jovem. O urban bootcamp permite a Tina Leong “fazer exercícios em equipa”, “é mais desafiante e divertido”, além disso é “ao ar livre”. O boxe, uma das suas outras actividades, é mais uma forma de libertar o mau humor e as energias negativas e de “ganhar músculo”.

 

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Ana Rita Amorim, tradutora e revisora de profissão, nascida em Angola mas a residir em Macau há 20 anos, divide o tempo disponível entre o urban bootcamp, o CrossFit, o futebol e outras práticas e diz fazê-lo pela sua “saúde mental e bem-estar emocional”. “Se for possível fazer exercício ao ar livre é mais agradável”, diz. Até porque “há um desafio extra que é o estado do tempo: pode estar frio, calor, vento, chuva”. Ana Rita escolheu o urban bootcamp porque estava à procura de “uma actividade completa, que tivesse elementos de força, resistência e que trabalhasse a parte aeróbica e anaeróbica. O facto de ser no jardim com um grupo diversificado torna o treino mais divertido”. Ana Rita gosta também de CrossFit porque inclui duas disciplinas que queria experimentar, como a ginástica olímpica e o halterofilismo ou levantamento de peso. Ana Rita considera “gratificante” ver mulheres a levantarem pesos, fazerem flexões e elevações de braços. “Gosto de ver as mulheres treinarem e competirem lado a lado com os homens em disciplinas que não eram vistas como femininas.” Praticar essas actividades “dá-lhe maior confiança”. Além disso, “um corpo atlético ou tonificado ou com músculo é igualmente atraente e denota dedicação e saúde”, acrescenta.

 

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A dar resposta a esta disponibilidade dos habitantes de Macau para novas experiências desportivas não tem faltado gente com vontade de lançar novas ideias de práticas desportivas e de, simultaneamente, criar novas formas de negócio, ajustadas às necessidades e forma física de atleta. Muitas destas novas propostas surgiram apenas nos últimos dois anos e a sua divulgação faz-se, regra geral, via redes sociais, como o Facebook, ou através do “passa-palavra” entre praticantes e curiosos.

 

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CrossFit para pessoas “mais fortes”

É no rés-do-chão de um prédio residencial na avenida Sidónio Pais que está instalado em Macau um dos ginásios de CrossFit, para “estarmos próximos da comunidade”, explica António Barrias, 25 anos, mentor do CrossFit em Macau em conjunto com os sócios Amanda Ho e U Seng. Desde finais de 2013 os três parceiros de negócios já abriram dois ginásios, o CrossFit XVI e o CrossFit Cotai, situado na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa), a utilizar os direitos de franchising da marca registada nos Estados Unidos.

“Temos atletas do mundo do futebol, basquetebol, maratonistas, corredores de barcos-dragão. Treinamo-los para os seus objectivos específicos”, diz António Barrias. É o caso de Adam Sou, 25 anos, que trabalha num casino, mas que também é atleta da selecção de Macau de hóquei em patins e que explica que o CrossFit ajuda a prepará-lo para as competições.

 

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O método CrossFit consiste em “movimentos funcionais, inatos ao corpo humano, variados, feitos em alta intensidade, que é o que leva aos resultados que as pessoas procuram”, explica António Barrias, que é o treinador principal. A progressão do atleta na prática implica que seja capaz de fazer toda uma série de exercícios e levantamento de pesos no menor tempo possível. Os resultados podem revelar-se em termos de força, resistência muscular e cardiovascular, coordenação, agilidade e flexibilidade.

O português Gil, de 29 anos, antigo lutador de muay thay, é praticante assíduo de CrossFit e considera os resultados bastante vantajosos em comparação com os obtidos num ginásio convencional. “No CrossFit fazemos exercícios funcionais para nos prepararmos para tudo aquilo que é importante no dia-a-dia, subir escadas, carregar coisas”, explica. A filipina Verónica, de 37 anos, residente há 15 anos em Macau, mãe de três filhos, explica que pratica CrossFit porque é “conveniente”. “Os treinos duram apenas 20 ou 30 minutos, sinto-me mais forte, consigo pegar na minha filha e carregar as compras do supermercado.”

 

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Ioga para tratar do corpo e da mente

Trazer qualidade de vida e espiritualidade às vidas dos habitantes de Macau é um dos objectivos da instrutora de ioga Rita Gonçalves, que abriu em 2014 um novo espaço, o Yoga Loft Macau, junto ao Largo do Senado. “A vida em Macau é muito urbana e agitada, estamos constantemente a ser estimulados, é difícil encontrar espaço, silêncio, e nós precisamos disso.”

Rita Gonçalves faz questão de se diferenciar do chamado ioga-fitness, muito popular em Macau, que é uma prática “muito vigorosa”, com posturas muito exigentes para as quais as pessoas por vezes não estão preparadas. Nas suas aulas a instrutora cria oportunidades de aprendizagem correcta dos movimentos, ao mesmo tempo que tenta que os praticantes encarem o ioga como “uma experiência mais intimista, de desenvolvimento pessoal”. “Quem tem uma prática regular de posturas começa a sentir-se mais saudável, mais em forma e isso resulta numa grande paz mental, porque usamos o corpo para percebermos como funcionamos e trabalhamos as nossas inquietações, a nossa energia, motivação, confiança, há todo esse trabalho de desenvolvimento pessoal no ioga”, explica Rita Gonçalves.

 

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Bollywood para quem se quer divertir

A dança é também uma opção para quem deseja manter a forma de maneira mais descontraída. “As pessoas querem divertir-se, relaxar, aprender coisas novas”, explica o indiano Viktor Kumar, que chegou a Macau em 2008 para ensinar o estilo glamoroso da dança do universo de Bollywood, o nome da mega-indústria de cinema na Índia. Desde então o “guru” Kamar já juntou uma legião de fãs e de seguidores, desde adolescentes a pessoas com 60 ou 65 anos. “Toda a gente pode dançar este estilo. É uma dança muito coreográfica, cheia de movimentos teatrais, é muito interactiva, mas com pouco contacto corporal. Não é como nas danças latinas em que o par dança agarrado, por isso as pessoas adaptam-se melhor, especialmente os asiáticos, que sentem-se desconfortáveis com o contacto físico”, explica.

Viktor Kumar começou por criar um pequeno grupo de dança, o Bollywood Dreams Group. Em 2012, lançou uma associação cultural (Indian Culture Association of Macau), que agora reúne cerca de 100 membros, “chineses, portugueses, macaenses”, que participam em diversas actividades e paradas culturais subsidiadas pelo Governo de Macau. Mais recentemente Kumar lançou um estúdio de dança na avenida Venceslau de Morais, na Areia Preta – o V Studio Arts & Culture – para o público interessado em aprender diferentes estilos de dança ou praticar ioga. A aposta na divulgação da cultura indiana, para já, parece não ter concorrência em Macau, diz o bailarino e empresário que está a tentar aproveitar o potencial de negócio desta presença exclusiva no mercado e até já lançou uma linha de roupa de dança em Macau. O próximo passo é conseguir o número suficiente de alunos que lhe permita estabilizar o negócio e fazer face às despesas para depois expandir e continuar a “partilhar a cultura indiana”.

Em termos de negócio, atrair alunos, conseguir que estes frequentem com regularidade as aulas ou que não desistam ao fim de algum tempo é uma das dificuldades enfrentadas pelos instrutores de cada uma das práticas. A outra contrariedade é o elevado custo das rendas dos espaços comercias, que podem atingir valores incomportáveis obrigando à mudança de espaço com risco de perda de clientes. No caso do urban bootcamp não há uma renda fixa para pagar, mas há outros desafios a enfrentar. “Tendo em conta a realidade local relativamente a aluguer de espaços, para nós é uma vantagem poder usufruir dos espaços exteriores”, explica João Braga. Mas, também, “estamos mais dependentes das condições climatéricas”, acrescenta.

 

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Meca do boxe

A crescente popularidade do boxe entre praticantes amadores não pode ser dissociada do facto de Macau estar em vias de conquistar a Las Vegas o título de “capital mundial do boxe”. A cidade é já o bastião na Ásia da modalidade, palco de competições entre estrelas do boxe internacionais como o filipino Manny Pacquiao ou o campeão olímpico chinês, duas vezes medalha de ouro, Zou Shiming, que tem atraído as atenções de todo o Interior da China para Macau.

Daniel Lawley, um sul-africano de Joanesburgo, que exerceu durante 23 anos funções como superintendente da polícia de Hong Kong, é um dos mentores da prática de boxe amador e profissional em Macau, para onde se mudou em 2012. “Macau é, sem dúvida, a nova meca do boxe na Ásia, com grandes lutas na arena do Cotai a cada três meses. Estamos a ver uma enorme ascensão do interesse no boxe nesta parte do mundo. Tendo em conta este interesse, senti que este era um excelente momento para construir uma academia de boxe em Macau”, explica Daniel Lawley.

O ginásio, situado no centro da Taipa, “está aberto a toda a gente, praticantes de qualquer nível, desde principiantes a lutadores profissionais, residentes, expatriados ou visitantes que queiram vir treinar connosco”, explica. “Neste momento temos homens e mulheres, desde adolescentes a atletas de 50 anos”. A maior parte é executivos de empresas e funcionários de casinos que querem aprender boxe para manter a forma”, explica o antigo polícia, que pratica boxe desde os sete anos e é treinador desde 1991.

Daniel garante que o boxe pode ser praticado sem que os alunos se magoem e assegura que tem vantagens em relação aos resultados obtidos em ginásio. “O boxe é um desporto excelente para melhorar o condicionamento físico, a capacidade de sincronização e os reflexos. É também muito eficaz para aumentar a capacidade de autodefesa, ajuda a manter a forma e pode melhorar a autoconfiança”, diz o pugilista. Além disso, “é uma forma óptima de libertar o stress e a agressividade”, acrescenta.

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