Sexta-feira, Março 5, 2021
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Roque Choi: Um homem, dois sistemas

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Roque Choi: Um Homem dois sistemas – Apontamentos para uma Biografia é uma obra dos jornalistas Rogério Beltrão Coelho e Cecília Jorge e dá a conhecer a história de homem “ímpar” e “pacificador”, que se mexia como ninguém entre as culturas portuguesa e chinesa

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

Roque Choi (1920-2006) era um homem de bastidores. Movimentava-se discretamente (e de capote alentejano nos dias de Inverno), mas como peixe dentro de água entre as culturas portuguesa e chinesa. O empresário de origem chinesa, que falava fluentemente as duas línguas, foi deputado à Assembleia Legislativa, dirigente da Associação Comercial de Macau e braço direito, intérprete e secretário de homens de peso: Ho Yin, empresário e líder da comunidade chinesa, e Pedro José Lobo, magnata e filantropo macaense. Teve um papel importante e muitas vezes decisivo nos momentos mais marcantes da história de Macau da segunda metade do século XX, como é o caso do “1,2,3”, um movimento popular que pôs em causa a administração portuguesa em 1966, decorria o primeiro ano da Revolução Cultural.

A história deste homem de cabelo farto e branco, e que andava sempre de cachimbo na mão, deu agora origem a Roque Choi: Um Homem dois sistemas – Apontamentos para uma Biografia, uma obra dos jornalistas Rogério Beltrão Coelho e Cecília Jorge, lançada pela editora Livros do Oriente.

“Quando traduzia um diálogo entre duas personalidades fortes, se uma se exaltava e isso pudesse prejudicar as negociações, ele dava a volta sem desvirtuar o que se pretendia, indo ao encontro da outra cultura, de forma a que essa cultura não se sentisse magoada ou ofendida”, começa por dizer Beltrão Coelho à MACAU, realçando o espírito “ímpar” e “pacificador” do intérprete.

“Sentia-se bem na pele dele e isso é muito importante. Dizia ‘sou chinês’. E era chinês, só que ele era muito mais do que isso. Eu considero-o macaense”, continua Cecília Jorge, explicando que Choi “aproveitava potencialmente a melhor característica do macaense, que é estar à vontade entre estes dois mundos”.

A preparação desta biografia de 221 páginas, fruto de uma intensa investigação, centenas de horas a ler o Boletim Oficial ou a visualizar os microfilmes do Arquivo Histórico de Macau, deparou-se com muitas dificuldades, como apurar as datas em que trabalhou na função pública ou obter informação “directa e suficiente” junto de fontes chinesas, como associações a que Choi esteve ligado. “Enviámos cartas, mas ninguém respondeu”, relembra Beltrão Coelho.

O primeiro capítulo do livro é constituído por uma entrevista inédita concedida em 1999 ao jornalista José Pedro Castanheira. “Muitas vezes me interroguei sobre as razões que levaram Roque Choi a aceitar o desafio (…) Nunca vivi em Macau, não me conhecia praticamente de lado nenhum, por que razão havia de confiar num jornalista estranho?”, escreve Castanheira na introdução, descrevendo Roque Choi como “o mais requisitado dos tradutores intérpretes da história recente de Macau”.

A biografia do empresário surge na segunda parte desta obra e o último capítulo reúne depoimentos de várias personalidades que contactaram com Roque Choi em Macau.

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Roque Choi: Um Homem dois sistemas – Apontamentos para uma Biografia

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