Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
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Traduzir para aproximar culturas

 

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Texto Mónica Menezes | Fotos Paulo Cordeiro, em Portugal

 

 

Luís Filipe Barreto, director do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) em Lisboa, junta anualmente, desde 2007, académicos vindos de quatro partes do mundo numa tentativa de aproximação entre o mundo oriental e ocidental. Desta vez, sob o tema China/Macau – Tradução e Interpretação, Passado e Presente, estiveram reunidos mais de 20 oradores, durante três dias, para se discutir o poder, a dificuldade e a importância da tradução.

É para ter vários pontos de vista que Luís Filipe Barreto aposta na diversidade dos que apresentam trabalhos. “Este colóquio, regra geral, junta colegas chineses, por vezes japoneses também, vários europeus, americanos, gente também da Austrália. E quase todos os anos vamos escolhendo um tópico mais relevante. A questão da tradução e interpretação começou a ser tomada como uma das questões fundamentais”, justifica. Já em 2011, em parceria com o Instituto Politécnico de Macau, tinha sido organizado um colóquio para se debater a tradução na RAEM e com a experiência ganha nesses dias, explica o director do CCCM, tomou-se a decisão de “fazer um evento mais alargado em termos das implicações da tradução em relação à interpretação chinesa e da articulação da europa com a Ásia”.

 

 

Este colóquio representa, assim, o segundo passo de muitos que Luís Filipe Barreto quer dar e quer que sejam dados na ideia de mostrar o quão essencial e importante é para Macau “a dimensão da interpretação e da tradução”. Salientando a apresentação de Geoff Wade, a primeira do colóquio – “Incorporação e Tradução de Línguas Estrangeiras na China até ao Século XIX” –, o director do CCCM afirma: “Incompreensões sobre a China, a ideia de uma China imóvel e fechada nem sequer se coloca se uma pessoa souber qual é a dimensão da questão multilinguística chinesa”. E prossegue: “A língua chinesa é tudo menos fechada ou imóvel. As línguas, pelo seu dinamismo e pelo seu potencial são praticamente sistemas migratórios abertos contínuos, de termos, de objectos, de ideias, de valores, de conceitos. Acompanhando os jogos de línguas acompanhamos todas as dimensões chave para acompanhar a sociedade, a economia e a política”.

Na plateia, extremamente interessados por todas as palestras, estavam essencialmente jovens estudantes, o que não representa uma novidade para o também membro da comissão científica do colóquio. “Um dos objectivos principais destas palestras é atingir o público jovem, os estudantes universitários entre os 18 e o 21 anos”, admite Luís Filipe Barreto. E os jovens portugueses estão cada vez mais interessados na cultura oriental. Por isso, para Luís Filipe, é preciso criar nestes estudantes uma habituação ao padrão internacional, é preciso habituá-los a ouvir gente de Boston, Sidney, Tóquio, Hong Kong, Oxford, Cambridge e, naturalmente, portugueses também. E também é imprescindível aproveitar o interesse que estes estudantes sentem pela Ásia. “Os europeus estão atentos aquilo que odiamos chamar do renascimento asiático global, quer a nível económico, quer a nível cultural, quer a nível político e são as novas gerações que estão atentas a isso. São gerações altamente consumidoras da cultura asiática, até a começar pelas línguas, mas a continuar mesmo em termos de cultura clássica ou de cultura contemporânea. São altamente consumidores de culturas de massas e de novas tecnologias japonesas ou coreanas. Há um efeito Ásia nas novas gerações”, descreve o director do CCCM.

Para explicar este seu sentimento e observação em relação ao interesse dos jovens neste colóquio, Luís Filipe Barreto recorre às palavras de um filósofo alemão: “Como diz Peter Sloterdijk no seu livro EuroTaoísmo, obra dos finais dos anos 1980, a Europa é, desde o início do século XIX, ‘asiatizada’. É capaz de ser, mas a ‘asiatização’ das novas gerações europeias é muito forte em termos de século XXI – isto no bom sentido, ou seja, a Ásia como solução, a Ásia como desafio. Isso é muito interessante, é o lado mais fascinante destes projectos de investigação que têm depois nos colóquios a parte mais visível”.

 

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“Duas Línguas, Quatro Sistemas: O Departamento de Tradução Jurídica do Governo de Macau, 1988-2000”

António Barrento

Doutorado em História da China, mestre em Estudos Asiáticos Comparados e em Língua e Sociedade Japonesas, António Barrento esteve seis anos a viver em Macau. Neste colóquio falou sobre a sua experiência de tradução das leis em Macau e de como isso representou um enorme desafio para si. “Foi uma experiência extraordinária porque não havia precedentes directos. A situação de Hong Kong era a situação mais próxima, só que nessa região havia algumas condições que não estavam reunidas no caso de Macau”, explica. E acrescenta: “Em Hong Kong o curso de direito tinha aberto em 1969 e isso só aconteceu duas décadas mais tarde em Macau. Portanto, não havia pessoas com preparação suficiente para discutir esse assunto”.

Na sua apresentação, este académico foi realçando as dificuldades que sentiu para traduzir a legislação, sempre comparando a situação de Macau com a de Hong Kong. “Em Hong Kong seguiu-se um caminho de produção jurídica bilingue e isso fez com que nos anos 1980 houvesse um conjunto de juristas que produziam legislação de uma forma bilingue. Isso não existia em Macau e ainda não existe. Nos anos 1990, já havia cerca de 30 indivíduos que faziam produção jurídica bilingue”, afirma. Para António isso fez toda a diferença, porque “na produção jurídica bilingue há uma possibilidade de intervenção no texto a todo o momento. Um texto vai sendo produzido com base em outro e, logo à partida, são corrigidos todos os problemas, ou seja, evita-se problemas, enquanto a tradução implica ter de se adoptar um texto que já está pré-definido. Portanto a produção jurídica bilingue é uma vantagem e existe de uma forma bem definida em Hong Kong e ainda não existe em Macau”.

Para António, este tipo de colóquio é uma boa oportunidade para se juntar pessoas de várias universidades, de várias áreas científicas. “Tem havido uma cooperação entre académicos da China, que vêm dos Estados Unidos, de vários países da Europa e que se podem, assim, encontrar e falar neste caso de Macau, sobretudo, mas normalmente o tema alarga-se à China.”

 

“O Filho de Macau e a Casa de Mandarim”

Christina Miu Bing Cheng

Docente no Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Hong Kong, Christina Miu Bing Cheng foi uma das oradoras do segundo dia deste colóquio. O tema que trouxe para debater com a plateia foi a história do escritor, poeta e pensador Zheng Guanying, o “filho de Macau”, primeiro porque têm o mesmo apelido que a académica, “embora se escreva de forma diferente”, e porque essa coincidência sempre levou a que muitos pensassem que Christina fosse da família daquele homem. “Não só, mas como este colóquio é sobre o passado e o presente, eu achei interessante trazer este tema porque este homem tão antigo era visto em 2002 como o filho de Macau”, justifica. E explica: “Este homem viveu numa das fases mais turbulentas da China [1842-1921] e o seu trabalho serviu para fazer evoluir aquele país. Só em 2010 é que foi escrito em inglês um livro sobre a sua história, até lá não havia nada.” Orgulhosa durante a sua apresentação, Christina mostrou várias fotografias da casa de família de Zheng Guanying, mais conhecida pela Casa de Mandarim, construída em 1869. O Governo de Macau adquiriu a propriedade em 2001 fez várias obras de restauro e, para a professora, a Casa é agora motivo de orgulho e esplendor de Macau.

 

“Traduzir é identificar”

Han Lili

Com um português fluente, foi assim que Han Lili se apresentou no CCCM. A conferencista do Instituto Politécnico de Macau focou-se no tema específico da tradução como objecto de identificação e realçou a singularidade de Macau para qualquer tradutor, como ela é. “Macau é um sítio muito singular onde se encontram duas culturas, logo há espaço para tradução, a minha área. Aproveitei este colóquio, onde já tinha participado como intérprete, para apresentar uma parte da minha tese”, conta.

Han Lili começou a aprender português há cerca de 20 anos e embora não estivesse a partir do zero em termos de língua estrangeira, dado que já sabia inglês, as conjugações os tempos verbais foram um verdadeiro quebra-cabeças. Mesmo assim, e porque se especializou na língua de Camões, já leu bastantes livros em português sendo o seu autor preferido Vergílio Ferreira. Assume que tentou traduzir alguns ensaios de Eça de Queirós, mas reparou que não era o seu estilo.

 

“A Tradução dos Documentos Chineses e o Estatuto de Macau (1749-1829)”

Tereza Sena

Tereza mudou-se para Macau já lá vão quase três décadas por razões familiares. Mudou-se e por lá ficou. A sua formação é em História, onde tem trabalhado “essencialmente sobre a Missão Jesuítica na China, o comércio internacional, historiografia de Macau e arquivos” e a tradução surgiu na sua vida recentemente. “Pertenço ao Instituto Politécnico de Macau e foi um projecto que começou a ser desenvolvido em 2010 em cooperação com o CCCM, que é o meu local de trabalho em Portugal, e foi uma área que embora não seja a da minha formação acabou por me interessar e, a partir daí, comecei a tentar ligar as questões da tradução com os ensinamentos que eu tenho da estrutura política e económica”, diz.

E embora o tema seja relativamente novo na sua vida, este tipo de colóquio não é nenhuma estreia para a historiadora. “Fiz parte da organização do primeiro, em Macau. Nessa altura defini e estudei o papel do intérprete nacional do século XIX, quando o intérprete deixa de ser o reflexo do que era a vida em Macau, a economia de Macau, ou seja, a ligação comercial e inserção na China, quando o intérprete é integrado no aparelho do Estado.” Para esta portuguesa, este colóquio é essencial porque “numa sociedade policultural, multiétnica, a tradução é um pilar de sustentação de Macau, tanto na relação com a China, mas também com os parceiros comerciais. Neste momento, Macau é o elo de ligação entre os vários países onde se fala a língua portuguesa e onde a China está interessada em investir”.

 

“A Toponímia das Ruas de Macau: Um Estudo de Tradução, Transliteração e Imaginação”

Vincent Wai-kit Ho

Embora tenha apresentado um trabalho sobre os nomes das ruas de Macau (ambos em português e chinês) Vincent Wai-kit Ho, do Departamento de História da Universidade de Macau, não domina a língua portuguesa. Embora a tradução não seja a sua área, Vincent achou pertinente mostrar como é difícil traduzir à letra de português para chinês usando várias fotografias de nomes de ruas em português e lendo como foi feita a tradução. Foram momentos de gargalhadas aqueles que se viveram durante esta apresentação.

 

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