Segunda-feira, Outubro 26, 2020
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“Portugueses” de Malaca guardam em museu memórias de 500 anos

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Reportagem de Andreia Nogueira/Agência Lusa

 

A comunidade de descendência portuguesa de Malaca, iniciada após a tomada da cidade por Afonso de Albuquerque em 1511, está a divulgar as memórias da sua ligação a Portugal num museu que sobrevive do voluntariado.

Há três anos, Christopher De Mello, juntamente com Jerry Alcântara, decidiu pegar num museu antigo que tinha “apenas fotografias” e transformá-lo num espaço de exposição de memórias que hoje recebe pessoas de todo o mundo.

O Portuguese Settlement Heritage Museum (Museu da Herança do Povoado Português), como é conhecido localmente, fica precisamente no centro do Portuguese Settlement, um bairro a cerca de três quilómetros de centro de Malaca que foi criado na década de 1930 para os descendentes de portugueses espalhados pela região.

 

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Entre o espólio, com largas centenas de peças, há objectos e colecções pessoais, como biberões e fotografias, e artigos comprados ou “encontrados no mar” pelos pescadores, que podem ser “portugueses, chineses ou indianos”, conta à Lusa Christopher De Mello.

Após ter ficado desempregado, o engenheiro de manutenção, que agora trabalha em part-time, encontrou uma oportunidade para “melhorar o museu” fazendo uso dos seus variados talentos, como a carpintaria para montar expositores e a comunicação para contar as histórias da comunidade que não cabem no museu.

É também ele o responsável pelo barco de madeira “Flor de la Mar” (Flor do Mar, em português) que se encontra no centro do museu para lembrar a famosa nau com o mesmo nome que naufragou em 1511 no estreito de Malaca, com um imenso tesouro, que nunca foi encontrado.

Afonso de Albuquerque, cujo 500.º aniversário da morte se assinala esta terça-feira, também está representado, porque foi ele um dos “primeiros pais da aldeia”. “É por causa dele que estamos aqui hoje”, frisou Christopher, que se sente “incomodado” quando lhe dizem que se assemelha aos malaios.

“Prefiro que digam que eu pareço mais português. Nós aqui nunca dizemos que somos malaios, dizemos que somos malaio-portugueses”, sublinhou, explicando que apesar do sangue português já se ter perdido há muito, ainda predominam os sobrenomes lusos na comunidade de cerca de mil habitantes, como “Sousa” ou “Gomes”.

No museu, encontram-se mobílias, louças, redes de pesca, fotografias, documentos históricos e até vinho produzido pelo próprio Christopher, uma bebida alcoólica feita de maçã que dizem fazer lembrar “o vinho do Porto”.

Aos trajes tradicionais lusos oferecidos por portugueses juntam-se trajes semelhantes desenhados e usados pelos grupos de música e de dança locais que disseminam o folclore português na Malásia e no exterior.

Além das três salas de exposição, há ainda um espaço que guarda dezenas de prémios conquistados por pessoas da comunidade em concursos de beleza ou de fatos de Pai Natal ou em torneios de futebol durante os santos populares.

Entre os visitantes do museu, que nem sempre está aberto, há grupos de estudantes de todo o país e turistas estrangeiros, que vêm conhecer o Portuguese Settlement, localmente famoso pelo ambiente de festividade no Natal, no Carnaval e nos Santos Populares.

Os visitantes pagam dois ringgits malaios (0,42 cêntimos de Euro) de entrada, um valor insuficiente para sustentar o projecto, que precisa do apoio de voluntários.

O governo local já apresentou uma proposta para apoiar o museu, mas com a condição de assumir a administração do espaço e pagar um salário aos voluntários, algo que os promotores recusaram. “Eu não quero que no futuro a história malaia entre no Portuguese Settlement. A nossa história portuguesa seria abolida”, justifica.

Pedir apoios a Portugal também é visto com algumas dúvidas, pois essa eventual ajuda implicaria o envolvimento das autoridades malaias no museu, acrescentou.

Malaca, que em 2008 foi declarada Património Mundial pela UNESCO, é hoje uma cidade fortemente turística, retratando a história dos vários povos que por aqui passaram.

Entre as grandes atracções figuram o Museu Marítimo, que consiste numa réplica da nau Flor de la Mar, a Igreja de São Paulo e a Porta de Santiago, o que resta da fortaleza mandada construir por Afonso de Albuquerque.

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