Sexta-feira, Dezembro 4, 2020
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Ciência | “Os genes não mentem”

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Texto Sofia Jesus | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

É um estudo ainda preliminar, mas ambicioso. Um grupo de cientistas está a conduzir uma análise genética da população de Macau, de modo a identificar o risco de desenvolvimento de determinadas doenças.

Manson Fok, director da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa), é o rosto do projecto, desenvolvido em conjunto por uma dezena de investigadores da instituição de ensino da RAEM e da Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU). “Enquanto médicos, fomos ensinados a tratar doenças e não tanto a actuar no campo da prevenção, talvez também porque a tecnologia não estaria disponível na altura”, refere o académico.

O projecto agora em curso pretende inverter esta tendência. “Estamos a recorrer ao que há de mais avançado na ciência para observar […] alterações no genoma de cada indivíduo e calcular o risco que essa pessoa tem de vir a desenvolver cada uma de cerca de 30 doenças analisadas”, explica o investigador, em declarações à MACAU.

Entre as três dezenas de patologias tidas em conta no estudo está uma série de cancros – como o da mama ou do pulmão –, a diabetes e as patologias cardíacas. De acordo com Manson Fok, a ciência tem vindo a identificar alterações genéticas específicas em pacientes com determinadas patologias, como é o caso da doença de Alzheimer. É com base nesse conhecimento que os investigadores de Macau e Hong Kong têm estado a trabalhar, analisando apenas as zonas concretas do genoma humano onde se sabe que podem ocorrer esses desvios.

O académico lembra que “os genes não mentem” – a esmagadora maioria é “muito estável” –, mas sublinha que “ter uma determinada predisposição genética não significa que a pessoa irá obrigatoriamente desenvolver a doença”. As circunstâncias ambientais, salienta, têm uma influência igualmente importante na saúde do ser humano.

Manson Fok acredita que saber de antemão o risco da população de Macau em desenvolver determinadas doenças poderá ser bastante útil para o Governo na definição de políticas futuras. Por exemplo, diz, o Executivo poderá fazer uso dessa informação para decidir quais as áreas de saúde que mais necessitam de um reforço de especialistas, para planear acções de formação ou mesmo para orientar a construção de novas unidades hospitalares ou serviços clínicos.

 

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Anónimo e confidencial

A primeira fase do estudo consistiu na análise de amostras de ADN – ácido desoxirribonucleico – de mil jovens estudantes residentes de Macau, todos adultos, saudáveis e de etnia chinesa. As amostras foram conseguidas através de análises ao sangue ou da recolha de saliva, depois de obtido o consentimento informado dos voluntários. Manson Fok garante que todos os dados recolhidos e analisados são anónimos e confidenciais.

Esta primeira etapa serviu para criar uma base de dados que permitiu testar a metodologia e aferir a relevância de potenciais resultados. “Depois de analisarmos estes mil casos, verificámos que a ciência [subjacente ao projecto] é muito rigorosa, repetível e passível de ser divulgada”, revelou.

O trabalho dos cientistas consistiu em duas partes. Uma refere-se à análise de muitas das milhares de alterações genéticas documentadas na literatura médica e científica e associadas a determinadas doenças. “Reunimos os dados todos da amostra e depois calculámos o risco”, explicou.

A outra parte consistiu na comparação das informações recolhidas em Macau com as de três bases genéticas disponíveis noutras regiões: uma na Europa, outra nos Estados Unidos e outra no Norte da China.

Os resultados preliminares não foram ainda tornados públicos em detalhe, mas o director da Faculdade de Ciências Médicas da MUST adianta algumas das conclusões: “No caso de algumas doenças neurológicas e degenerativas [como a Alzheimer], o risco da população de Macau é muito menor do que o do resto do mundo, mas no caso de alguns cancros – como o do pulmão ou da mama –, o estudo aponta para uma potencial prevalência mais elevada na RAEM”.

Embora esta primeira amostra tenha permitido já aos investigadores encontrarem “resultados estatisticamente relevantes”, o investigador lembra que é indispensável alargar a base de dados para obter conclusões mais assertivas. “Este é apenas um passo preliminar, mas estamos convictos de que é um passo muito importante na área da medicina preventiva”, afirmou Manson Fok.

A equipa procura agora obter apoio financeiro junto do Governo da RAEM – a primeira fase do projecto foi financiada pela Fundação Henry Fok. Até lá, o trabalho não irá parar, garante o docente: “O nosso objectivo é conseguir ter pelo menos 10 mil amostras em 2016.”

Na próxima fase do estudo, a ideia é analisar grupos específicos não só em termos etários, mas também ao nível das profissões desempenhadas. Os grupos dos profissionais de saúde e dos trabalhadores da indústria do jogo deverão ser alguns dos alvos da próxima etapa do projecto.

 

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Um estudo pioneiro

Para Manson Fok, a iniciativa é pioneira. Não só em Macau – será a primeira base de dados genética criada no território –, mas também no mundo. “A maior parte das bases de dados genéticos no mundo não são asiáticas ou chinesas”, sublinha o investigador, acrescentando que “nenhum outro país” está a levar a cabo um projecto semelhante.

Macau, explica, é um local onde as pessoas estão concentradas numa área relativamente pequena, o que facilita a realização de um estudo deste tipo. “A nossa iniciativa poderá ser um exemplo para o mundo, podemos ser líderes neste campo”, defende.

De acordo com o académico, a recolha de dados genéticos tem vindo a ser realizada noutros países de uma perspectiva “demasiado comercial”, ligada à venda de análises individuais de ADN por um preço muito elevado e, por vezes, com resultados duvidosos, o que tem gerado reacções negativas sobre este tipo de estudos. A questão da protecção dos dados pessoais e, sobretudo, as lacunas na forma como a informação sobre o risco é comunicada ao paciente – sem o devido acompanhamento – são outras das questões que têm levantado preocupações.

Nesta primeira fase do projecto de Macau, não foi dada aos indivíduos a opção de acederem aos seus próprios resultados, precisamente por uma questão ética. “O que nós pretendemos no futuro é dar um passo mais além e estabelecer o devido interface com médicos devidamente formados para o efeito, capazes de explicar ao paciente o que significam os resultados e o que tem de ser feito a partir daí”, contou Manson Fok, que espera que tal serviço possa um dia vir a ser disponibilizado em Macau, com o apoio do Governo.

Um serviço do género, com a devida orientação médica, permitiria aos pacientes adoptarem determinados comportamentos ou até tomarem certos suplementos que os ajudassem a prevenir a doença para a qual têm uma predisposição genética.

Para Manson Fok, o desenvolvimento deste tipo de serviços na área da genética poderia também ser uma das apostas da RAEM, caso o Governo optasse por fazer da região um destino de referência na área do turismo de saúde. O académico é um defensor acérrimo desta opção como forma de diversificar a economia de Macau, mas reconhece que haverá um longo caminho a percorrer caso seja este o caminho que o Executivo decida seguir.

Primeiro, diz, seria necessário “convencer o mundo” que Macau possui um bom sistema de saúde, que segue os padrões internacionais, o que envolveria, primeiramente, uma série de acções ligadas à formação e certificação de profissionais.

 

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