Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
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Poeta lança tradução em chinês de “Clepsidra” em Macau

Este trabalho, lançado no âmbito da 5.ª edição do Festival Literário de Macau, esteve sete a oito anos na gaveta, depois de Yao ter avançado com a tradução por encomenda, e foi recentemente alvo de uma revisão. “Fiz a tradução mas acabou por não ser publicada [na altura]. Agora que surgiu a possibilidade de publicação, reli a tradução e não fiquei satisfeito. Fiz uma revisão muito cuidada. Desde então já li mais, já fiz mais poemas, hoje sou outro ‘eu’, um ‘eu’ mais actualizado”, justifica, em declarações à Lusa.

A sua tradução de “Clepsidra”, acredita, vai mais ao encontro da natureza poética de Pessanha. O anterior tradutor era “muito experiente, conhecido na China”, tendo lançado a versão chinesa “em 1996 ou 1997”.

No entanto, “como poeta, ao ler esta tradução, não gostei, porque quase tudo se perdeu, a musicalidade, a imagem”, conta.

“Há tradutores muito experientes que conseguem traduzir a ideia, o significado, com muita exatidão. [Mas] o essencial é fazer com que o poema na língua de partida seja ainda o poema na língua de chegada. Pode ser uma coisa alterada, mas é ainda o poema. Um bom poema maltratado pela tradução deixa de ser um poema, apesar de ser muito fiel a nível semântico”, explica.

O maior desafio de traduzir o simbolista foi, assim, “fazer boa transcrição dos efeitos sonoros, da musicalidade”.

“Tentei jogar com os efeitos sonoros de acordo com o mecanismo de sons da língua chinesa. Sílabas não consigo [imitar], mas rimas, quando for possível, faço. Mas às vezes é perigoso, puxa-se mais pela rima e prejudica-se ou sacrifica-se a ideia, a imagem”, comenta o professor da Universidade de Macau, afirmando que “se não fosse poeta não faria a tradução”.

Yao, que já traduziu Eugénio de Andrade, tem por hábito trabalhar autores que muito aprecia, mas este não foi o caso, já que a tradução de “Clepsidra” foi fruto de uma encomenda do Instituto Internacional de Macau, que edita o livro.

“Não é um poeta do género que mais me impressiona, não é o meu favorito. Mas compreendo-o, teve um desamor, a poesia dele é um tipo de vingança em relação a esse desamor. A tristeza é o tema principal dos seus poemas, sempre a tristeza”, reflete.

“Na minha cultura, o homem não chora, mas este sempre chora, coitado. O poeta tem esse direito, o privilégio de chorar mais do que outros”, acrescenta.

Como professor universitário, Yao analisou também Pessanha como tradutor, debruçando-se sobre as oito elegias chinesas que o escritor traduziu para português durante a sua estadia em Macau, cidade onde morreu há 90 anos.

Apesar de Pessanha ter tido uma relação conflituosa com Macau, era um amante da língua e poesia chinesas, tendo-se dedicado à sua aprendizagem, algo raro entre os portugueses da altura.

Para Yao, o interesse de Pessanha na língua chinesa, é “louvável porque de facto poucos portugueses tinham entusiasmo em aprender”, mas a escolha das elegias é surpreendente.

“É uma coisa misteriosa, temos grandes nomes da poesia chinesa, mas ele fez olhos a estes nomes. Nem temos tradição de elegias. Ele descobriu essa pequena antologia por acaso, numa feira onde comprou uma caixinha lindíssima e lá dentro estava este livro. Ficou curioso e começou a traduzir, mas a poesia não é muito boa”, conta.

A tradução chinesa de “Clepsidra” foi lançada no edifício do Antigo Tribunal e, por agora, estará apenas disponível em Macau.

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