Sexta-feira, Dezembro 4, 2020
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Exposição em Macau mostra 38 imóveis modernistas que ONG quer ver classificados

A mostra, na Casa Garden, da Fundação Oriente, está dividida em duas partes: “Macau Modernism” e “Mapping Modern Architecture in Hong Kong”, e, no que toca a Macau, reflete “um trabalho de levantamento” da organização que “ainda não está concluído”.

“Há muito mais património [modernista] que tem de ser cuidado”, explicou à Lusa Rui Leão, presidente da Docomomo Macau, que integra a Docomomo International, instituição que visa conservar o património arquitectónico mundial do movimento Moderno.

Além do património classificado pela Unesco, Macau tem a sua própria lista de edifícios protegidos e que inclui alguns modernistas, mas o arquitecto lembra que “muito poucos” dos 38 que a sua organização selecionou se encontram sob a protecção do Governo.

Entre os mais conhecidos consta o Mercado Vermelho, do arquitecto Júlio Alberto Basto, e a Escola Portuguesa, de Chorão Ramalho, mas Leão chama a atenção para vários outros, incluindo muitos do arquitecto Manuel Vicente, como o “bloco de residências dos CTT”, um dos poucos edifícios de estilo brutalista em Macau.

“Acho que o próprio Manuel Vicente tem poucos edifícios desenhados neste estilo, corresponde à primeira passagem dele por Macau”, explica, apontando para o Orfanato Helen Liang como outro exemplo notável deste arquitecto.

Para Rui Leão, é essencial que Macau estabeleça “princípios de salvaguarda” além de um “plano geral”.

“[Caso contrário], ficamos restringidos a salvaguardar a fachada”, afirmou.

Neste trabalho de preservação, “os proprietários são parceiros fundamentais”: “Porque não se pode pensar que os edifícios não tenham uma actividade, uma função para o seu utilizador (…) mais cedo ou mais tarde vão ter de ser acrescidos, alterados, convertidos. Quando isso acontece, muitas vezes o proprietário não tem conhecimento específico para perceber como é que faz essa gestão. Isso é altamente contraproducente, porque acha que a coisa mais fácil é demolir tudo e fazer de novo”.

O arquitecto alerta que essa é uma ideia errada, já que estes edifícios, apesar de poderem ter alguma idade, “na maioria das situações têm condições para serem renovados” e fazê-lo “corresponde a uma economia de investimento e a uma muito maior sustentabilidade porque o exercício de demolir um edifício e construir de novo é uma operação de gasto de energia, de recursos, de um empreendimento muito mais pesado do que converter”.

Para o presidente da Docomomo Macau, o património pode e deve ser utilizado para suprir um vazio de “plataformas sociais” na cidade, “onde as pessoas possam estar confortavelmente, sem estarem num sítio poluído, sem serem atropeladas por outras pessoas, onde podem ter um ponto de encontro”.

Há, no entanto, um “desconhecimento e alienação” da população em relação ao património modernista, que não é tão considerado quanto aquele que deu a Macau um lugar na lista de Património da Humanidade. “Tem que ver com o tipo de ‘branding’ que se faz da cidade, em que o que é considerado património são só os edifícios monumentais e notáveis, neoclássicos, associados a uma imagética colonial portuguesa. É preciso evoluir”, apela.

Leão lembra que o movimento modernista está inserido numa “revolução sociológica” que deve ser mais promovida. “Houve uma mudança de tecnologia porque se passou a dominar a construção em betão, e a industrialização permitiu que se passasse a usar o betão, o ferro e o vidro, que já existiam antes mas não de uma forma industrial”, explica.

O modernismo procurou “soluções para usar esta nova tecnologia industrializada para fazer uma nova arquitectura”, criando “a oportunidade de deitar fora o classicismo e o neoclassicismo, que faziam uma arquitectura pesada, onerosa e classista” que “diferenciava muito claramente a aristocracia, burguesia e povo”.

“A ideia do modernismo é que finalmente pode haver uma arquitectura universal e sem estigma de classe. Com esta nova tecnologia, com esta nova ideia de universalismo social, há um esforço para que todos tenham acesso à arquitectura e às instituições. Acho que a maior parte das pessoas não tem consciência que é uma revolução sociológica muito importante para todas as sociedades e que em todo o lado houve esta transformação no século XX”, concluiu.

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