Quinta-feira, Outubro 22, 2020
Inicio Ásia Missa em coreano e um santo de apelido Kim são cartão-de-visita de...

Missa em coreano e um santo de apelido Kim são cartão-de-visita de paróquia em Macau

 

Inês Santinhos Gonçalves

Agência Lusa

 

A presença de padres coreanos em Macau é a retribuição de um favor antigo, conta à Lusa o pároco da Igreja, Lee In Ho. Em 1837, o jovem André Kim Taegon veio para a cidade, berço do catolicismo na Ásia, estudar Teologia.

Mais de um século depois, em 2006, o então bispo de Macau, José Lai, deslocou-se à Coreia do Sul para pedir à Congregação Clerical dos Beatos Mártires da Coreia que enviasse padres de dada a falta de sacerdotes no sul da China.

“Na altura, quando o Santo André veio para Macau, a diocese estava aberta a ajudar. Agora foi ao contrário, havia falta de vocação e lá há muita vocação. Agora ajudamos, é ao contrário”, explicou, referindo-se ao primeiro dos 103 mártires coreanos, vítimas de perseguição religiosa no seu país.

Hoje, a Igreja de Santo António, uma das mais antigas da cidade, ministra a única missa semanal em coreano em Macau, uma das quatro línguas usadas regularmente pela Igreja no território – as outras são português, chinês e inglês.

A missa em coreano é ministrada para três dezenas de fiéis residentes e para os muitos turistas e peregrinos que visitam a cidade, atraídos pela ligação ao primeiro sacerdote e missionário de etnia coreana e primeiro mártir coreano, que viveu seis anos em Macau.

No Jardim de Camões, junto à Igreja onde André Kim Taegon, decapitado aos 25 anos, foi fiel, ergue-se hoje uma estátua sua. Lee In Ho, que adoptou também o nome português Pedro, recebe entre 20 a 30 fiéis residentes, incluindo norte-coreanos, aos sábados, quando, pelas 16h, decorre a missa em coreano. “Trabalham no turismo, nos hotéis, nos restaurantes. Alguns trabalham em Zhuhai [cidade chinesa adjacente a Macau] e vêm de propósito a Macau para a missa”, descreve.

As cerimónias em coreano começaram em 2009, para servir os residentes e dar resposta às frequentes visitas de turistas e peregrinos. “As peregrinações podem trazer até 50 pessoas. Há todos os meses, às vezes até dois grupos por dia. A igreja é muito usada, Santo António tem muito significado para os coreanos”, explica o pároco, de 44 anos.

Três sul-coreanos trabalham nesta igreja, dois padres e um irmão. Todos aprendem português, mas Lee, por ser o pároco e ter mais trabalho, ainda só sabe rezar a missa.

Quando José Lai se deslocou à Coreia “só falou do chinês, disse que era o mais importante [de aprender], não falou de outra língua”. Chegado a Macau, após dois anos a estudar chinês em Hong Kong, Lee, então vigário, percebeu que “tinha de aprender pelo menos a rezar a missa em português”.

“Ninguém me tinha dito que a paróquia de Santo António tinha uma forte presença portuguesa”, recorda.

Foi Arlete, tradutora reformada e voluntária na igreja, quem lhe ensinou o que sabe do idioma e lhe corrige a pronúncia na homilia, servindo também de intérprete quando necessário.

“Por agora é mais leitura [que treinamos], baptismos, exéquias, bênçãos de óleo, funerais. Ele tem bom ouvido”, graceja Arlete, sublinhando que o conhecimento de Latim dos padres ajuda na aprendizagem.

Oito anos passados, Lee In Ho diz gostar de Macau, apesar de o impacto inicial ter sido difícil. “A primeira coisa que notei foi a humidade e muito calor. Pensei ‘Como é que o Santo André aguentou seis anos em Macau?’ Bom, se ele aguentou, eu também aguento”, recorda.

Hoje, “se tivesse opção, gostava de ficar” mais tempo e a presença da indústria do jogo é a única coisa que lhe faz “confusão”.

Na relação com os fiéis e na forma como encaram o catolicismo, identifica as maiores diferenças entre portugueses e macaenses. “A relação de chineses e coreanos com a religião é muito semelhante. [Já] os portugueses e macaenses, aqueles que conheço, têm grande dificuldade em seguir os mandamentos: deviam ter só uma mulher mas têm várias, dizem que têm fé mas divorciam-se e querem casar novamente, ter filhos, não pensam tanto na fé como os coreanos”, observa.

ARTIGO