Segunda-feira, Maio 25, 2020
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Retratos | Deng Tiencheng, o sapateiro

 

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Fotos Locanda Films

 

Estudei o ofício de sapateiro na Escola Memorial Bao Si Gu de Macau. Desde que acabei os meus estudos, faço sapatos. Esta é a minha profissão. Comecei quando tinha 20 anos. Tinha um patrão, o dono da sapataria, que me deixou gerir o negócio depois de eu ter-lhe feito alguns modelos. Foi assim que comecei.

Muitos agentes da polícia ajudaram-me. Naqueles tempos, os sapatos que os polícias usavam eram muito simples, basicamente todos do mesmo modelo, o que tornava o meu trabalho bastante mais fácil. Havia muitas encomendas e eu tinha então muito trabalho. Consegui criar os meus filhos só com o rendimento que tinha como sapateiro.

 

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Punha de lado sempre uma boa parte do dinheiro que ganhava com cada sapato que fazia. Com esta poupança, consegui pagar as propinas da escola do meu filho mais velho; depois, quando via que sobrava algum, eu mandava outro filho para a escola. E assim foi até ao meu quarto filho. Nunca desperdicei dinheiro. Era tudo contado para a educação deles. Até que finalmente cumpri com a minha missão de educa-los.

 

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Estou casado há mais de 60 anos com a mesma mulher…. Tivemos direito a uma grande festa para celebrar as Bodas de Ouro há cinco anos. Os meus filhos já estão casados há mais de 20 anos. Quando penso nisso é que me dou conta que ando a fazer sapatos há décadas.

 

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A minha mulher e eu sempre vivemos felizes e eu acho que esse é o segredo para se viver bem. Ter uma família feliz é muito importante.

Hoje já ninguém faz sapatos por encomenda. E já ninguém manda arranjar os pares quando ficam velhos. Por isso, ninguém quer aprender o ofício de sapateiro. Se os jovens têm dinheiro e condições para estudar, preferem ir tirar um curso mais moderno. Ninguém quer perder tempo a aprender como é que se faz um par de sapatos, um a um, artesanalmente. Mesmo que alguém quisesse, não há grande futuro neste ramo. As pessoas já não ligam a terem um modelo único, feito à mão. As máquinas fazem tudo hoje em dia.

 

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E por que é que eu ainda hoje faço sapatos? A resposta é simples: eu gosto muito disto. Mesmo que ninguém os compre, para mim é um prazer fazê-los. Ainda tenho saúde e estou capaz, por isso gosto de estar no activo. As pessoas passam por aqui, param e olham a montra. Se não gostam do meu trabalho, compram nas grandes sapatarias aqueles modelos industriais. A vida é assim mesmo. As coisas mudam.

 

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*Este retrato é um dos episódios da série documental Os Resistentes: Retratos de Macau, da autoria do realizador António Faria.

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