Segunda-feira, Maio 25, 2020
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Chineses com sotaque português

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Texto Mónica Menezes | Fotos Paulo Cordeiro, em Portugal

 

Chen Yao, 18 anos, nem se lembra como era a sua vida antes de chegar a Portugal. Chegou com quatro anos, vindo de Tianjin, perto de Pequim. O pai já estava em terras lusas há dois anos a implementar o seu negócio de terapias chinesas. Na China, Chen Yao nunca tinha frequentado a escola; em Portugal, mal chegou, sem saber dizer uma palavra em português, os pais inscreveram-no num colégio católico. “Foi difícil. Eu lembro-me que falava com os professores e os alunos em chinês porque não sabia muito bem o raciocínio, éramos de sítios completamente diferentes e falávamos línguas completamente diferentes. Falava com eles em chinês e pensava que percebiam”, recorda. A aprendizagem acabou por ser rápida. Ao fim do primeiro ano já conversava fluentemente com os amigos que tinha acabado de fazer e nunca mais teve vontade de regressar à China. “Adaptei-me tão bem. Além disso, eu era muito pequenino e, por isso, a minha vida era só seguir o que os meus pais estavam a fazer”, conta a rir-se.

O estudante de Engenharia Informática está completamente adaptado ao estilo de vida português, mas sente que dentro da sua casa há alguns choques culturais e não consegue, assim, definir se tem uma educação chinesa ou portuguesa. “É um choque de culturas. Em casa, os meus pais dizem uma coisa que está certa e que se calhar não é certa aqui na cultura estrangeira. Em princípio, eu percebo o raciocínio dos dois lados e, se calhar, percebo mais do que outras pessoas.”

 

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A mistura de culturas também trouxe uma mistura de línguas para dentro de casa. Os pais pouco ou nada falam português, Chen Yao fala mandarim e consegue entender, mas não sabe escrever nem ler chinês. Já o irmão mais novo, de dez anos, está a aprender três línguas ao mesmo tempo – português, inglês e mandarim – e isso tem-se tornado uma dificuldade na vida do próprio. “Com o meu irmão falo uma mistura de português e mandarim, o que se torna uma língua que nem nós sabemos bem o que é!” No que toca à gastronomia, Chen Yao gosta dos pratos típicos dos dois países. Gosta da massa e do arroz da China e perde-se com os bifes de Portugal. “Com batata frita e ovo estrelado.”

O estudante vai à China de três em três anos e vive em Portugal há 16. Assim, sente-se mais português ou mais chinês? “Não sei. Tenho aqui a família do pai e lá a família da mãe, por isso, para mim, os dois lados são confortáveis. Não consigo distinguir o que é melhor”, diz. E acrescenta: “Sou chinês, mas quem me conhece bem sabe que tenho um raciocínio mais português, porque cresci aqui…”

 

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Segundo dados dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal (SEF), a China passou, em 2014, a ser a quinta comunidade imigrante mais relevante (21.402) no país, com um crescimento de 14,8%, suplantando Angola (19.710). Neste número não estão incluídos os chineses da segunda geração, já nascidos em território português. Os principais negócios da comunidade chinesa são as lojas que vendem de tudo um pouco – há mais de 6000 espalhadas pelo país – e os restaurantes. Há também, em menor número, negócios no imobiliário, agências de viagens, advocacia e contabilidade. Uma parte deles cresceu graças aos vistos dourados, que já atraíram a Portugal 1909 investidores, segundo dados do primeiro semestre de 2015. A comunidade chinesa continua a crescer e também precisa de serviços. Em Lisboa, que tem uma pequena versão de China Town na zona do Martim Moniz e Intendente, tornaram-se frequentes as placas com anúncios em chinês.

 

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Divisão perfeita

A mãe é chinesa. O pai é português. Os filhos, Carlos, 17 anos, e Ana, 15, são uma mistura dos dois. A educação, assegura Carlos, o filho mais velho, é portuguesa, até porque é em Portugal que vivem. No que toca à língua, com a mãe falam em mandarim e com o pai em português para o patriarca não se sentir excluído. Mas houve um momento em que Carlos sentiu que devia descobrir mais sobre o país que também faz parte da sua história. “Nós não tínhamos contacto nenhum com a China, aliás, a China era uma cosia completamente distante para nós. Estivemos lá um ano a estudar e, assim, pudemos conhecer a nossa avó, o resto da família, aprender chinês e a cultura chinesa”, explica Carlos. Já Ana não partiu com muita vontade, mas acabou por adorar o ano que lá viveu. “Tinha um bocado de medo, achava que não ia gostar. Mas agora quando as pessoas perguntam se já fui à China posso dizer que sim.”

Nesse ano viveram num dormitório com alunos de várias nacionalidades e Ana não se esquece do que pensava sobre as cinco colegas de quarto chinesas. “Elas ficavam todos os dias a estudar até à uma e meia da manhã. Trabalhavam até às 23h00 e depois ainda iam estudar! Não conseguia perceber como eram tão resistentes”, comenta. Educação rígida é algo que os dois irmãos destacam como diferença entre um país e outro. “Lá dão mais valor aos resultados, não é que aqui não dêem, mas é diferente. Na China os pais são mais rígidos e os filhos mais focados. A cultura, a mentalidade e a dimensão é completamente diferente. A China é um país gigante”, aponta Carlos.

Na escola, Carlos e Ana acabam por ser sempre alvo de alguma curiosidade por parte dos colegas. Perguntam-lhes algumas vezes se sabem falar chinês e, inevitavelmente, querem aprender as palavras mais atrevidas. “Para além de quererem saber como se diz asneiras em chinês, também perguntam muitas vezes se comemos coisas esquisitas em casa como lagarto e cão”, diz, divertida, Ana. E acrescenta: “Nós não comemos isso!” O que se come, então, na casa desta família luso-chinesa? “É um bocado estranho. Às vezes a minha mãe faz comidas portuguesas, mas põe molho de soja”, revela a estudante de Artes. Mas Carlos defende a mãe: “Sendo chinesa, a nossa mãe até faz comida portuguesa muito bem. Faz bacalhau com natas, carne de porco à alentejana…”

Entusiasmados, contam que querem continuar a aprender mandarim. Sabem que profissionalmente é uma língua que os poderá levar muito longe e, por isso, já estão a ter aulas em Portugal. Ana assegura que não acha uma língua muito difícil e até acredita que são os chineses que sentem mais dificuldades a aprender português. “Os chineses não conseguem utilizar os erres e em Portugal usa-se muito essa letra. Para além disso, em Portugal há a conjugação dos verbos, coisa que não há em chinês”, explica. Divididos entre os dois países, não se imaginam a viver na China, mas desde que passaram lá um ano que se sentem mais próximos dos chineses. “Quando vejo um chinês não sinto uma grande distância perante essa pessoa. As piadas que faço em português, eles conseguem entender.” Carlos concorda com a irmã. “Os chineses têm um sentido de humor um pouco latino.” E Carlos e Ana são mais chineses ou mais portugueses? “Somos portugueses e sentimo-nos portugueses. Mas depois do ano que passámos na China já os compreendemos e sentimos uma proximidade”, resume Carlos.

 

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Advogada chinesa em Portugal

Para Lin Man foi um processo difícil ir viver para Portugal. Tinha oito anos, já frequentava a escola perto de Xangai e ir viver para um país desconhecido onde nem uma palavra da língua sabia dizer não foi, de todo, simples. “Como não falava a língua, tive de voltar a fazer o primeiro ano. Na escola, eu e a minha irmã não percebíamos nada, mas na altura tivemos uns colegas chineses que já estavam em Portugal há mais tempo e ajudavam-nos a fazer as traduções do que era dito e ensinavam-nos as coisas básicas”, assume aquela que foi a primeira chinesa a formar-se em Direito em Portugal.

O pai de Lin Man chegou a Portugal em 1981 e a advogada, a mãe e a irmã mais velha só vieram um ano depois. Embora na China nada tivessem a ver com restaurantes, foi na área da restauração que os pais de Lin Man fizeram carreira em Portugal. Começaram primeiro a trabalhar no restaurante de um grande amigo, depois compraram o seu próprio espaço e foi deles a ideia de vender pela primeira vez em Portugal o Pato Lacado à Pequim. “Naquela altura, a China era um país muito fechado e o meu pai tinha o espírito de empreendedor, queria fazer algo diferente, queria criar um negócio.” Foi por isso que partiram para Portugal. “Os primeiros anos foram muito difíceis, puxados, até, não só para aprender a língua, mas também em termos financeiros”, confidencia Lin Man. Mesmo assim, nunca sentiu vontade de regressar ao país que a viu nascer. “Tinha boas recordações dos oito anos que vivi na China. Lembrava-me da escola e das regras completamente diferentes, mais rigorosas, os professores muito exigentes, muitos trabalhos de casa.” Na sua casa, esta exigência e rigor também se manteve, tudo porque o pai chinês não se deixou contagiar pelos hábitos portugueses. “Não tive muita liberdade. Foi uma educação muito rigorosa, exigente e tradicional”, explica. Mas até fica satisfeita que assim o tenha sido. Claro que foi difícil, claro que nem sempre lhe apetecia ir ajudar no restaurante dos pais nos intervalos das aulas, mas até nesses momentos sente que aprendeu e isso acabou por se tornar uma mais-valia na sua vida. “Primeiro estávamos ao balcão, depois é que passámos a servir. Foi uma forma de comunicar com as pessoas e aprender mais a língua. Conversávamos, fizemos amigos. Foi uma experiência muito importante para o meu desenvolvimento pessoal e profissional”, conta.

O curso de Direito foi uma opção sugerida pelo pai. A irmã mais velha estava a estudar Economia, mas como Lin Man não era boa aluna a Matemática, ser advogada pareceu-lhe uma boa hipótese. O percurso foi difícil. “Exigia uma total compreensão da língua portuguesa e eu sabia que não me podia comparar aos meus colegas. Mas fui aprendendo com muita força de vontade, apesar de estar a trabalhar ao mesmo tempo. Eu devia estudar o dobro dos meus colegas por causa do português. Hoje em dia é muito raro ver um filho de emigrantes chineses a fazer o curso de Direito porque é muito difícil.” Lin Man exerce advocacia no maior escritório de advogados português e abarca um nicho do mercado cada vez mais influente. “São chineses da comunidade chinesa, chineses que estão na China e que querem investir em Portugal ou em países de língua portuguesa, e também há os portugueses que têm relações comerciais com a China ou querem fazer negócio com a China”, refere. Fazer o curso, para Lin Man, foi um esforço que valeu realmente a pena. “Foram cinco anos de licenciatura e quase dois de estágio. Foi duro.”

Lin Man é casada com um chinês que, curiosamente, conheceu na China durante uma das visitas que faz anualmente ao seu país de origem. “Ele veio para Portugal por uma boa causa”, conta divertida. São pais de duas filhas que têm nomes portugueses, mas também chineses. “É a Natacha Lin Zu e a Jéssica Lin Zu. Pus à moda portuguesa com o nome da mãe e do pai, fiz questão de ter o meu nome.” Este é um pormenor que mostra o quão portuguesa Lin Man já é. “Na minha maneira de pensar já sou muito portuguesa e já tenho a paciência típica dos portugueses. Na China as pessoas querem resolver tudo muito depressa, ficam muito nervosas porque foram criadas naquele ambiente de muito stress.” Naturalmente, também há muito de China no seu sangue. “A educação dos meus pais foi muito importante para manter os valores tradicionais, o respeito pelos mais velhos. Se eles tiveram o cuidado de cuidar de nós, quando envelhecem é a nossa vez de cuidar deles.”

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