Segunda-feira, Agosto 3, 2020
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Macau com visão 3D

 

Zorg_GLP_02

Texto Nuno G. Pereira | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Sandra Vasques e Miguel Falé apaixonaram-se em Portugal, onde o primeiro fruto do seu amor foi uma empresa, que iria mudar-lhes a vida mais do que esperavam. A Zorg 3D foi fundada a dois em 2007, mas a crise financeira de 2008, arrasando o mercado imobiliário, levou a uma quebra de pedidos de clientes quase fatal. Obrigado a reagir, o casal encontrou uma oportunidade que abraçou com entusiasmo. “Na sequência de um convite do arquitecto Carlos Couto”, lembra Miguel Falé, “viemos estabelecer a Zorg em Macau, o que se concretizou em 2011.”

Depois da génese portuguesa, a empresa renasceu assim como um projecto de Macau, onde se afirmou numa área tecnologicamente avançada. Apesar de ser PME, a Zorg 3D beneficiou de um cenário favorável. “Não há nada tão exuberante no mundo do design de interiores como o que se faz hoje nos casinos de Macau. Estarmos aqui sediados, e não em Las Vegas, faz com que os trabalhos de renovação de espaços, sempre a acontecer nos casinos, nos tornem a solução evidente no que diz respeito a 3D. A capacidade de responder a prazos muito exigentes é essencial. Vamos ao local tirar fotos, reunimos com o cliente e no próprio dia iniciamos o trabalho para entregá-lo 48 horas depois. Isto só é possível para quem está fisicamente em Macau.”

 

Escritorios Cartier Londres

 

Miguel Falé acrescenta que, por outro lado, Macau não é uma cidade barata, devido às rendas dos espaços comerciais e de habitação, além do custo de vida em geral. O que necessariamente influencia o negócio. “Por causa dos custos operacionais, o nosso produto não é concorrencial com o que vem do Interior da China. Daí que a nossa abordagem ao mercado não seja pelo preço, mas por proximidade, filosofia de empresa e experiência no ramo. No meio deste espectro está a dimensão do mercado. Por ser tão pequeno, chegamos rapidamente a todo o lado, sendo fácil criar ligações com os clientes. E embora isso limite a expansão de actividade, ainda temos muito terreno a desbravar.”

A Zorg 3D é um estúdio de visualização 3D. Para um leigo, não é simples compreender o que significa isso. Em concreto, como se define esta actividade? “Criamos imagens realistas, que permitem a qualquer pessoa compreender o aspecto que um projecto irá ter. Seja ponte, edifício, sala, loja ou objecto de design. Também convertemos projectos de CAD [sigla para computer-aided design] num espaço 3D, atribuímos materiais e texturas, iluminamos e calculamos as imagens ou filmes que vão permitir comunicar o projecto a quem não tem formação em desenho técnico.”

 

Studio City

 

Comunicar os projectos através da visualização prévia permite que os clientes da Zorg 3D (arquitectos, engenheiros, designers) melhorem o diálogo com os clientes deles, fazendo a revisão crítica conjunta e, por consequência, a validação mais consciente. “O processo permite poupar muito tempo na definição de um projecto, criando um novo momento de feedback na altura certa: antes de se iniciarem os trabalhos de construção. E dá uma enorme ajuda durante a obra, onde frequentemente se usam as nossas imagens como referência.” A empresa desenvolve ainda produtos noutros campos, como filmes de animação institucionais e filmes 3D para campanhas publicitárias.

 

LRT

 

Passado e futuro

O elo da Zorg 3D a Macau começou ainda antes da sua existência. Isto porque Miguel Falé, quando trabalhava na empresa portuguesa Sopa de Imagens, dedicou muitas horas à RAEM, entre 2003 e 2006. “Fizemos inúmeros projectos, como o edifício do Posto Fronteiriço das Portas do Cerco, a ponte de Sai Van, a rotunda Ferreira do Amaral, o Terminal Marítimo de Passageiros da Taipa, o Jardim da Areia Preta e o Sistema de Metro Ligeiro. Tudo isto implicou visitas regulares a Macau, criando uma ligação muito forte à cidade.”

 

MGM Zona VIP

 

Essa ligação influenciou de forma crucial a decisão de Sandra e Miguel virem em definitivo para Macau. E o entusiasmo que trouxeram em 2011 mantém-se, tal como a racionalidade na gestão. Isso nota-se, por exemplo, ao ver-se que o núcleo de empregados nos quadros é intencionalmente reduzido, com apenas pessoal essencial. Porém, a empresa possui vários fornecedores internacionais. “Temos colaboradores próximos e esporádicos em Portugal, Polónia, Bielorrússia, Argentina e Espanha.” O crescimento, naturalmente, é um objectivo, mas o momento menos pujante do contexto económico dos últimos meses teve de ser encarado. “Sofremos uma quebra de 60 por cento nas encomendas locais, o que teria sido crítico se não tivéssemos começado a trabalhar com outros mercados em 2014. Contudo, sentimos uma retoma nos sectores da arquitectura e do design de interiores. Além disso, temos tido solicitações para projectos públicos, provando que o Governo não está a desinvestir.”

 

Piscina Grand Hyatt

 

Como vai então a empresa agir para agarrar o futuro? “Na vertente comercial, queremos consolidar as parcerias com os clientes preferenciais em Macau e no Reino Unido e, ao mesmo tempo, dar mais visibilidade à marca nesses mercados. Na vertente técnica, vamos acompanhar a revolução no nosso sector e adicionar à nossa oferta a mais recente tecnologia de ‘real time rendering’. Finalmente, gostaríamos de enveredar por projectos como videojogos, campanhas de sensibilização, publicidade e formação.”

 

 

City of Dreams

 

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Cronologia Zorg 3D

2007 – Fundação da empresa em Lisboa

2010 – Convite para vir para Macau feito pelo arquitecto Carlos Couto

2010 – Fecho de actividade em Portugal

2011 – Início de actividade em Macau com o projecto para o Metro Ligeiro

2012 – Primeiros trabalhos de design de interior em casinos, em parceria com a Westar: COD, MGM e Galaxy

2012 – Criação do filme do Grande Prémio de Macau para o respectivo museu

2013 – Contratação de técnicos especializados para reforçar capacidade de resposta

2014 – Expansão e mudança de instalações

2014 – Primeiros trabalhos para o Reino Unido

 

Tasting Room_City of Dreams

 

Dois caminhos

Os donos da Zorg 3D chegaram à área da visualização 3D por caminhos bem diferentes. Sandra teve um percurso mais linear, sempre próximo do digital. Já Miguel foi o oposto. Começou a trabalhar aos 18 anos, atirando-se a quase tudo: empregado de mesa, locutor de rádio, técnico de som, vendedor de aparelhagens de alta fidelidade e operário na indústria de componentes de som enquanto apostava num curso de prótese dentária. Depois, outra mudança radical, com a ida para Coimbra, onde tentou tirar o curso de Direito ao mesmo tempo que era vocalista em bandas de covers. Uma parceria que resultou mal para os dois lados, felizmente ultrapassada pela decisão que tudo iria acertar. “Um belo dia achei que tinha que abraçar a revolução da informática e inscrevi-me num curso de criação digital de imagem.” Concluída com êxito esta nova aspiração, Miguel ficou a trabalhar no centro onde se formou, chamado Rumos, como criador de conteúdos multimédia e formador certificado em produtos Autodesk. A partir daí não parou de ganhar competências nas novas tecnologias. Até que o destino atacou outra vez. “Um formando de um curso de 3D Max, o arquitecto Miguel Dória, desafiou-me para fundar um estúdio de 3D, a Sopa de Imagens, em 2000. Desde então fui sempre director de produção, primeiro lá e depois na Zorg 3D.”

A experiência profissional de Sandra também se fez de suor e paixão, mas, como conta o sócio, ela acertou cedo na escolha. “Arrancou com o mesmo curso de criação digital de imagem que eu tinha feito, ao qual adicionou uma especialização em programação de interactivos, área onde trabalhámos juntos na Rumos. Depois esteve como técnica de efeitos especiais e 3D numa produtora de TV, deu formação em 3D Max e trabalhou como técnica de antevisões e desenhadora numa empresa de engenharia. Na Zorg 3D, além de liderar comigo os destinos da empresa, é técnica de antevisões especialista em iluminação, render e plugins.”

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