Sexta-feira, Dezembro 4, 2020
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Romaria pelos sabores da lusofonia

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Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Vincent Ip importa produtos alimentares de Portugal para vender em Macau e no Interior do País desde a década de 1990. Sardinhas em lata, vinho e azeite são alguns dos bens que estão agora disponíveis no novo Centro de Exposição de Produtos Alimentares dos Países de Língua Portuguesa, inaugurado em finais de Março na Casa de Vidro, na praça do Tap Seac. “É muito bom para nós, distribuidores, porque se trata de uma oportunidade de promover os produtos portugueses”, salientou o director-geral da Agência Comercial Vang Kei Hong à MACAU durante a inauguração do espaço.

O novo centro, que conta com uma área de cerca de 390 metros quadrados, faz parte da estratégia de posicionar Macau como uma plataforma comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP). Mais de sete centenas de produtos de cerca de 60 empresas do universo lusófono podem ser adquiridos aqui por empresas ou individuais, explicou durante a abertura do espaço Glória Batalha Ung, vogal executiva do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM). “A partir de agora, os empresários que quiserem conhecer os produtos alimentares dos PLP podem cá vir ou visitar o nosso portal [http://pt.platformchinaplp.mo/]”, disse.

 

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Todos os produtos em exposição estão associados a um código QR, que pode ser lido por um telemóvel com acesso à Internet – o centro tem wifi gratuito –, remetendo o utilizador para a plataforma de comercialização, onde pode fazer as encomendas e consultar informações sobre os produtores e distribuidores.

“O IPIM recebe muitas delegações da China e pode trazê-las até aqui para fazer negócio”, realçou ainda Vincent Ip, admitindo, porém, que Macau é “apenas um ponto de passagem”, e por isso “não nos devemos focar unicamente aqui, mas na China”.

Também Alberto Carvalho Neto, presidente da Associação de Jovens Empresários Portugal-China, olha para a nova plataforma como um “trampolim para o Interior do País”. Presente no primeiro dia de actividade do centro, o responsável acredita que o projecto poderá ainda proporcionar “uma triangulação [das relações comerciais] com os outros PLP”.

Já Fernando Marques, responsável pelo restaurante português A Toca e um dos empresários com produtos em exposição, deixa uma sugestão: “O espaço não deve ficar aqui esquecido, é necessário pensar em iniciativas, como o lançamento de novos produtos ou a realização de provas de vinhos”.

 

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Superar obstáculos

“Para mim, é uma autêntica romaria.” As palavras são de Jorge Torres Pereira, embaixador de Portugal em Pequim, que também esteve em Macau por ocasião da inauguração do centro de exposição. O diplomata elogiou a iniciativa, sublinhando que o comércio digital é “o caminho do futuro”. “Estamos no meio da revolução em relação aos métodos de comercialização de produtos, o comércio electrónico será cada vez mais o factor determinante do sucesso do negócio.”

Aos jornalistas, Torres Pereira admitiu que “gostaria que esta fosse mais uma das portas de entrada possíveis de produtos alimentares portugueses na China Continental”. Questionado sobre os principais obstáculos à entrada destes produtos no país, o embaixador salientou que “as questões de certificação são as mais prementes e prioritárias a resolver”, dando o exemplo da proibição da entrada de carne de porco e derivados no Interior do País. “Ainda estamos a tentar finalizar a certificação”, disse.

 

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Ligado à produção de azeite, o empresário Alberto Carvalho Neto acredita que o centro também pode ajudar a dar a conhecer os produtos biológicos e gourmet ao mercado chinês. “É um novo certificado, é uma nova aposta, é um novo conceito, mas que começa agora a entrar na moda, como entrou há dez anos na Europa e penso que este é o momento certo”, realçou.

Entre a origem dos produtos em exposição nos dois andares da Casa de Vidro, Portugal e Brasil estão em maioria. Ainda com uma presença tímida, encontram-se os bens alimentares dos países de língua portuguesa em África. “Estamos numa fase de reconstrução do país, temos outras prioridades e os poucos produtos que podemos pôr no mercado não são suficientes, por exemplo, para abastecer o pequeno mercado de Macau”, notou João Garcia Bires, embaixador de Angola na China.

Ainda assim, o também decano dos embaixadores de língua portuguesa em Pequim disse que Luanda está a estudar a situação. Café, caju, mandioca e cana-de-açúcar são alguns dos produtos que poderão chegar em breve de Angola.

Glória Batalha Ung afirma que o número de produtos à venda nesta plataforma e com entrega no Interior da China vai aumentar pouco a pouco.

 

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Novos centros na China

As trocas comerciais entre a China e os PLP caíram 25,73 por cento em 2015, atingindo 98,47 mil milhões de dólares, a primeira queda desde o ano de 2009. Glória Batalha Ung considera as oscilações nas trocas comerciais “muito naturais” e sublinha que o Executivo de Macau vai continuar a trabalhar para que os consumidores e empresários chineses tenham mais contacto com os produtos dos PLP. A responsável desvaloriza ainda a instabilidade política em alguns destes países, dizendo que não se tem reflectido nas trocas entre os parceiros comerciais lusófonos.

Além deste novo centro, o IPIM está ainda a estudar a criação de outros cinco espaços de exposição de produtos alimentares dos países de língua portuguesa no Interior do País, estando o primeiro já a funcionar desde Abril do ano passado em Fuzhou, capital da Província de Fujian.

Os próximos espaços para mostras vão localizar-se em Hangzhou (Província de Zhejiang), Chengdu (Província de Sichuan), Shenyang (Província de Liaoning), Cantão (Província de Guangdong) e Wuhan (Província de Hubei).

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