Sexta-feira, Junho 5, 2020
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Vida multimédia

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Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Quando Peng Yun era pequena, a mãe costumava levá-la a olhar as nuvens. Fazia-o para que trabalhasse a imaginação. Acontecia no caminho de casa, em Langzhong, no nordeste da Província de Sichuan, onde viviam. Olhavam as nuvens, e o modo como se iam alterando. Aos domingos, ficavam deitadas na cama e olhavam o tecto, e todas as formas que se organizavam no limite máximo do quarto. Depois passavam para os lençóis e imaginavam objectos a formarem-se nas pregas dos mantos com que se tapavam. Peng Yun começou a querer olhar outras coisas; seguiram-se os animais e todo o género de objectos que encontrava pelo caminho e que examinava de forma detalhada. Até que só restou mesmo o que não existia. Aqui serviu-lhe a imaginação, e imaginou que pintava.

Por volta dos 12 anos, teve a primeira aula de pintura na escola e aventurou-se no primeiro esboço. “Apaixonei-me pelo desenho quando toquei num lápis pela primeira vez”, diz.

 

Peng Yun com pais

 

A mãe desenhava qualquer coisa, e o avô também, mas eram conjuntos de representações “muito chinesas”, era tinta-da-china, “nada profissional”, e Peng Yun sabia que queria mais. Ao ponto de ficar noites sem dormir, e a pintar.

Langzhong era uma cidade pequena e contavam-se pelos dedos os jovens locais que alguma vez tinham conseguido entrar no Academia de Belas Artes de Sichuan, em Chongqing. Já aluna do ensino secundário, com 15 anos, Peng Yun e uns quantos colegas foram fazer os exames de acesso àquela faculdade. Apanharam o autocarro, equipado com beliches para dormir, mas tão antigo que seguia de porta aberta. A viagem demorou 13 horas. A gigante cidade de Chongqing passaria nesse mesmo ano, em 1997, a município, um estatuto equivalente a província que só Pequim, Xangai e Tianjin têm na China. Hoje tem mais de 32 milhões de habitantes, segundo dados do Governo Municipal de Chongqing.

 

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Às seis e meia da manhã, quando chegaram ao destino, Chongqing era uma cidade escura, coberta por uma camada espessa de nevoeiro. “Mas eu olhei para o portão principal da universidade e soube desde logo que pertencia ali”.

 

As novas formas de arte

A mãe depositava todas as esperanças na filha única. Desde que nasceu. O nome próprio, Yun (韫), que em chinês significa “conter”, foi apenas o primeiro sinal disso mesmo. “Diz-se que uma montanha é bonita porque contém jade escondido. Creio que a minha família esperava que eu fosse alguém com conhecimento e inteligência.”

Peng Yun foi a única aluna de Langzhong nesse ano a ser admitida no curso de pintura a óleo na Academia de Belas Artes de Sichuan. Tinha 17 anos. “Por cada 2000 candidatos, é admitida uma pessoa”, sublinha.

 

primeiro trabalho em macau

 

Fundada nos anos 1950, a academia formou alguns dos mais consagrados artistas contemporâneos do país. Foi “capaz de romper corajosamente com doutrinas e explorar sem cessar novos campos”, disse o presidente do estabelecimento, Luo Zhongli, quando, em 2008, o Museu de Arte de Macau recebeu a exposição “Pinceladas Inovadoras: Pintura Experimental da Academia de Belas Artes de Sichuan”.

E foi exactamente um período de mudanças na instituição que veio romper também com a ideia que Peng Yun tinha sobre a arte – e que trazia ainda presa à imaginação. “Escolhi pintura a óleo porque acreditava ser a arte absoluta”, relembra.

 

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Nos anos 1990, começaram a ser contratados novos professores. Pi Li era um deles. O artista chinês, a viver actualmente em Hong Kong, esteve à frente de alguns workshops organizados pela Academia de Belas Artes de Sichuan. Com ele, chegaram também novos livros e novas formas de arte: instalações, performances e vídeos. “Pela primeira vez pensei: a arte pode ser assim?” Peng Yun agarrou-se a essas três novas palavras e não as largou mais.

 

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Vídeo como língua materna

A entrevista de Peng Yun com a MACAU teve duas fases. Encontrámo-nos primeiro no Jardim da Flora e falámos durante uma hora, numa conversa lenta, e num inglês difícil, que a artista foi apoiando com explicações em mandarim. Da segunda vez, a artista respondeu por email, utilizando o chinês para completar as perguntas.

É esta dificuldade de comunicação que serve também a Peng Yun de analogia para esclarecer a diferença entre o vídeo e a fotografia. “Digamos que falar inglês seria tirar uma fotografia e falar a minha língua materna seria fazer um vídeo. Existe mais espaço para contar o que quero.”

 

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A primeira experiência profissional ligada ao vídeo aconteceu logo depois de terminar o curso na Academia de Belas Artes de Sichuan. Recém-licenciada, Peng Yun entrou para uma estação de televisão, onde produzia vídeos didácticos. Mas a natureza do trabalho, o ambiente de escritório, a importância dada aos papéis e aos números não eram vida, muito menos a que imaginara quando anos antes apanhara aquele autocarro velho para chegar a Chongqing. Peng Yun precisava de mais e inscreveu-se no mestrado de Arte dos Novos Média na Academia de Artes da China, em Hangzhou, capital da província de Zhejiang.

O professor e fundador do departamento, Zhang Peili, foi o artista que mais influenciou a carreira e a obra de Peng Yun. Co-fundador da Pond Society, um grupo que rejeitou as noções convencionais de arte e explorou novas formas artísticas, como instalações em espaços públicos, Zhang Peili é hoje considerado o pioneiro do vídeo e da arte dos novos media. “Ainda antes de fazer os exames, enviei-lhe o meu currículo e trabalho”, conta Peng Yun. “Gostou muito e encorajou-me a fazer o exame de admissão”. Mais uma vez, foi a aluna com a pontuação mais alta a entrar no curso. Corria o ano de 2004.

 

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Universo feminino

Hoje olha para trás e a mulher esteve sempre lá. Trabalhar a figura feminina poderá não ter sido uma decisão consciente, e a constatação de que em dez anos de carreira esse tem sido o tema que mais explorou é quase tão natural como surpreendente. “Interessa-me sobretudo perceber as mudanças das mulheres no processo de crescimento.”

Num dos primeiros trabalhos a vídeo, a artista filmou, com uma câmara antiga e emprestada, uma conversa entre um grupo de amigas. “Retirei primeiro a fita da cassete, raspei a superfície com uma pequena faca, voltei a colocar a fita no lugar e filmei enquanto falavam de memórias. Fiquei apenas com algumas imagens, como se o sinal se tivesse perdido ao longo do processo”, explica.

 

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Macau teve contacto pela primeira vez com este universo íntimo de Peng Yun em 2008, quando o Museu de Arte convidou a artista multimédia para participar numa exposição colectiva com a instalação “Passagem”. Para ter acesso à instalação, o visitante era obrigado a atravessar uma parede e passar por cima de um colchão, coberto por um lençol branco. “As pessoas tiveram dificuldade em entrar, como se estivessem a violar o meu espaço.”

Peng Yun trabalhava nessa altura como professora na Universidade Fudan, em Xangai, e colaborava com vários museus de arte. “É um grande pólo cultural, todos os dias há inaugurações, mas sentia-me pequena numa cidade tão grande”, nota a artista que, em 2009, acabou por se mudar para Macau. Aqui divide-se entre trabalhos de fotografia, aulas ocasionais no Instituto Politécnico de Macau e projectos pessoais.

 

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PERFIL

Ano de Nascimento: 1982

Cidade: Langzhou

Signo chinês: Galo

Artista: Zhang Peili

Livro: Sonho do Pavilhão Vermelho, Cao Xueqin

Filme: A Brighter Summer Day, Edward Yang

Gastronomia: Sichuan

Cidade: Barcelona e Langzhong

Lugar em Macau: Bairros Antigos

Cor: Todas

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