Terça-feira, Julho 7, 2020
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A ressurreição do cinema

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Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Passam poucos minutos das nove e meia da manhã. No centro de Macau, na zona das Ruínas de São Paulo, ouvem-se os lojistas a levantar as portas metálicas, a abrir o negócio. O som interrompe brevemente o silêncio da Travessa da Paixão, onde estão sentados dois guardas de colete amarelo fluorescente a brincar ao telemóvel. Um jovem casal do Interior da China arrasta as malas de viagem pelo pavimento de paralelepípedos – ela traz uma cor-de-rosa, ele uma azul escura. As malas vão ficar na próxima meia hora encostadas a um dos antigos edifícios desta travessa, enquanto o casal se vai fotografando. Ela aponta com o indicador para a placa onde está inscrito o nome da rua: Travessa da Paixão. E sorri, ao olhar em direcção ao telemóvel.

Poucos saberão que o nome desta travessa, baptizada pelo Governo português em 1925, se refere originalmente à “Paixão” de Cristo. Em chinês, o nome foi traduzido, e interpretado, como “estando apaixonado”.

É no número 13 desta rua estreita, num edifício do início do século XX, que está localizada a Cinemateca Paixão. “Esse cinema só está aberto de vez em quando”, atira o senhor Zhou, responsável pelo negócio de gelados Coco Legend, ali perto.

 

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Apoiar o cinema independente

A Cinemateca Paixão, que abriu as portas em Setembro do ano passado, está a funcionar em regime experimental. É Ho Ka Weng, chefe substituto do Departamento de Promoção das Indústrias Culturais e Criativas do Instituto Cultural (IC), que acompanha a MACAU ao fim de tarde numa visita guiada à cinemateca. As obras deste espaço, propriedade da Associação Hó-Sông-I-T’óng de Macau, e com gestão temporária do IC, ainda não terminaram. Dois edifícios situados ao lado da Cinemateca Paixão – o número 9 e 11 da Travessa da Paixão – deverão ser anexados ao projecto em 2017 para servir como espaços para exposições.

Neste momento, apenas o rés-do-chão do número 13 está em funcionamento: uma pequena sala de cinema com capacidade para 60 espectadores; uma sala de controlo, equipada com um projector digital e um sistema de som Dolby Digital 7.1, que custaram dois milhões de patacas ao Governo e foram comprados em Hong Kong; e a área da bilheteira no átrio principal. É aqui que nos sentamos.

“Quando encontramos um cinema em Macau, este é comercial, e o Governo da RAEM quer proteger o cinema independente”, diz Ho Ka Weng sobre o novo projecto.

 

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E foi com este objectivo que o Instituto Cultural lançou o Programa de Cedência Temporária do Espaço, ao qual membros da indústria, realizadores ou associações ligadas ao cinema se podem candidatar. A ideia é que todas as actividades realizadas durante o período experimental – seminários, ciclos de cinema ou debates – sejam organizadas por representantes do cinema local. São associações que “têm dificuldades em projectar os próprios filmes num cinema comercial, porque isso envolve custos muito elevados, e o nosso objectivo é que esta seja uma plataforma para o fazer”, completa Ho Ka Weng.

Desde que abriu as portas, já foram organizadas várias actividades. O seminário “A Arte do Cinema: Teoria e Aplicação”, uma iniciativa do IC, trouxe ao território Alex Mok, vice-presidente da Hong Kong Film Arts Association; a Associação Macau-Itália exibiu o documentário Father Nicosia, The Angel of The Lepers; e foi também durante este período que se realizou a segunda edição do Festival de Cinema de Macau Ying E Chi, cuja programação incluiu uma retrospectiva da obra de cineastas asiáticos.

Quando o período experimental terminar, será feita uma avaliação ao funcionamento do equipamento e à reacção da população e associações de cinema ao novo espaço. Nessa altura, a concessão da gestão do espaço vai ser entregue a um organismo externo por concurso público. Deverá entrar em funcionamento oficial em meados de 2017.

 

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Educar mais que entreter

“A cinemateca pode preencher um vazio em Macau no que diz respeito ao cinema alternativo”, diz Vincent Hoi, cineasta local e co-fundador da Associação Audiovisual CUT. O realizador de Before Dawn Cracks, exibido em Macau, Hong Kong, Pequim, Osaka e Granada, acredita que este novo espaço deve trazer mais cinema de autor à cidade.

Já era assim em Hong Kong, há 20 anos, recorda Vincent Hoi, referindo-se ao Centro de Artes da região vizinha, que se lembra de “oferecer um programa mensal de cinema”.

Vincent Hoi acredita que esta deverá ser a prioridade da cinemateca de Macau quando passar para as mãos de um gestor fixo. Deixa a sugestão: “A associação [que ficar com a exploração do espaço] poderá apresentar mensalmente diferentes tipos de cinema, como por exemplo, cinema francês dos anos 1960 e 1970, filmes italianos produzidos no pós-guerra ou obras cinematográficas da Quinta Geração de cineastas da China, da qual faz parte Zhang Yimou”.

E mais. Este deverá ser um espaço para dar a conhecer os “filmes de minoria”, que “dificilmente são encontrados na Internet ou em lojas de DVD, como é o caso de obras de autores africanos ou de alguns países da América Latina”, defende.

A cinemateca deve, além disso, ser um pólo de discussão por excelência. Política e cultura andam de mãos dadas, observa o realizador, sublinhando que este espaço deve servir para “educar mais do que entreter”.

 

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A importância do arquivo

No primeiro andar da Cinemateca Paixão vai estar instalada a sala de documentação cinematográfica. No futuro, é aqui que qualquer pessoa poderá consultar todo o tipo de material relacionado com o cinema local – filmes, jornais ou revistas. Ho Ka Weng, chefe substituto do Departamento de Promoção das Indústrias Culturais e Criativas do IC, realça que foram feitas visitas a Taiwan e Hong Kong para servir de referência à criação deste espaço. “Vamos cooperar com várias associações para recolher este tipo de materiais”, diz.

O arquivo é um dos espaços nobres de uma cinemateca, realça António Caetano Faria, realizador português e autor de uma série de obras recentes sobre Macau, como Time Travel e Into the Void. De acordo com o cineasta, a futura sala de documentação cinematográfica deve estar preparada para receber todos os filmes produzidos por pessoas de Macau ou filmados na cidade. “Por exemplo, os filmes de Macau que datam de 1952 ou que foram cá gravados nesse ano, devem poder ser visualizados neste local.”

Vincent Hoi, por sua vez, alerta para a necessidade de criar um arquivo com capacidade para armazenar “a temperaturas baixas” filmes mais antigos. “Se estiverem a pensar trazer as películas em formato 16mm do Arquivo Histórico, então este tipo de situação deve ser pensada.”

O realizador chama ainda à atenção para a existência de obras sobre Macau que se encontram noutros territórios, como em Portugal, e que poderão ser aqui arquivadas. “São imagens antigas e é importante conservar nesta cinemateca.”

 

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Passagem de testemunho

O Governo de Macau deverá em breve lançar o concurso público para a futura gestão do espaço e a Associação Audiovisual CUT quer entrar na corrida. Para Vincent Hoi, membro fundador do organismo, a CUT é uma concorrente natural porque conta “com experiência na exibição de filmes e na organização de programação cinematográfica”.

O cineasta acredita que o processo deverá demorar. “Serão necessários por volta de dois meses para as candidaturas serem entregues e talvez meio ano para estudar e tomar uma decisão sobre qual será a associação a ficar a gerir o espaço.”

António Caetano Faria defende que a gestão deverá ficar nas mãos de uma associação de Macau e não de fora. Depois disso, é necessário “haver um critério” na selecção da programação em cartaz. “Se é uma cinemateca, tem de haver alguma qualidade e para haver qualidade tem de ser avaliada. Parte do Instituto Cultural responsabilizar-se por isso e avaliar os projectos que vão estar em exibição no local.”

 

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