Segunda-feira, Agosto 3, 2020
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É uma casa chinesa, com certeza

 

Foto de abertura

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Coloane. De uma varanda sobre estacas, virada para o rio, vê-se um homem a preparar o peixe para o almoço; no Porto Interior, num pátio velho e iluminado, uma criança pedala num triciclo entre estendais de roupa e fogões improvisados; ali perto, uma família mantém na casa onde vive um negócio de materiais eléctricos e sementes. A MACAU foi conhecer alguns dos antigos exemplares da habitação chinesa local. São poucos os que resistem ao desenvolvimento urbano.

 

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Barcos sobre palafitas

A imagem de Ah Leung, 60 anos, chapéu e abanador de palha, a preparar peixe seco salgado ao meio-dia de uma sexta-feira, não encaixa na Macau de néones multicores, casinos, cadeias hoteleiras internacionais, prédios que crescem em altura. Neste pátio, em Coloane, a roupa estende-se pelos cantos do quintal, escadotes de madeira e baldes de plástico permanecem amontoados por aí, um cão chamado Ah B ladra na casa ao lado. Pouco terá mudado nas últimas décadas na vida destas casas sobre palafitas. Lá ao fundo sim, do outro lado da margem do rio, na Ilha da Montanha. Novos blocos residenciais ocupam a base da montanha; depois há um hotel gigante que mais parece um castelo.

Ah Leung não trocava isto por nada. E não é que tenha alguma coisa para trocar. Ao contrário de alguns dos vizinhos, esta é a única casa que tem. “Quero viver aqui para sempre”, afirma. Dos prédios que se constroem hoje, diz ainda, entram e saem demasiadas pessoas pela mesma porta. “Esta é a minha casa de família, temos qualidade de ar, temos paisagem.”

Erguida pela família há 60 ou 70 anos – Ah Leung não consegue precisar – a casa, com dois quartos, foi construída em várias fases. A estrutura principal era de madeira, mas com o tempo foi revestida a chapa ondulada de zinco, agora manchada a ferrugem, tinta branca.

 

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Aqui viveram pelo menos sete pessoas, algumas casaram-se e saíram. Ah Leung casou-se, não teve filhos. Estranha quando lhe pergunto onde dormiam todos. “Na sala ou no mesmo quarto, éramos da mesma família”, diz, sem nunca tirar os olhos do peixe.

A mulher, Ieok Mei Cheng, aparece por um momento no pátio, traz vestida uma t-shirt, calças de pijama. Na mão, tem um frasco de repelente para as melgas. Está um dia de sol, mais de 30 graus, sentem-se mosquitos no ar, uma borboleta mantêm-se suspensa por cima de Ah Leung.

Como a maior parte daqueles que habitam as casas sobre palafitas, a família de Ah Leung vivia do mar. O pai, de Yangjiang, Província de Guangdong, fugiu da guerra com o Japão nos anos 1930. Em Macau, dividia-se entre trabalhos de pedreiro e a construção naval. Ah Leung ajudou o pai desde pequeno.

 

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Quem veio literalmente do mar foi Ip Kam Fa, a vizinha do 26 da Rua dos Navegantes. Até aos 15 anos viveu com a família num barco. “Acabámos por vir para terra por causa dos tufões”, recorda.

Sentamo-nos numa varanda que olha o rio. Na mesa de plástico está um bule de chá, uma colher de alumínio, um pano sujo. Ip Kam Fa tem 48 anos, vive com dois irmãos, tem um trabalho a part-time. “Não foi difícil deixar o barco?”, pergunto. “Não, já passávamos o tempo em terra, só voltávamos ao barco para dormir”, responde.

Nesta casa de dois quartos, várias divisões espalham-se ao ar livre – numa delas um dos irmãos dorme a sesta, noutra vê-se um pouco de tudo: um fogão de dois bicos, óleos e enlatados amontoados; na parede está pendurado um calendário da PSP, diz “perseverança”. Ah B continua de um lado para o outro, procura atenção.

 

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“Estamos constantemente a fazer obras, os tufões atacam sempre qualquer coisa”, continua Ip Kam Fa. Entretanto Ah B já está ao colo da dona. “Mas gosto de viver aqui, é muito confortável.”

Choi Kin, a vizinha do lado de lá, anda sempre por aí. Vive do outro lado do pátio de Ah Leung. Vestida de preto, chinelos cor-de-rosa da Hello Kitty, Choi Kin diz que tem 80 anos, já não sabe bem. “Só vou para a casa dos meus filhos, na Taipa, quando vêm tufões”, admite. “Gosto mais disto.”

A casa onde vive, verde e de madeira, está de portas abertas. Logo à entrada, no pequeno quarto onde dorme, tem uma cama singular, desfeita; uma ventoinha está apontada para o colchão.

Atravessar o corredor até à pequena varanda é quase como fazer o caminho para o mar. Tábuas velhas de madeira separam o chão do areal e são necessários poucos metros até à varanda, onde é possível ver Ah Leung, ainda a preparar o peixe. “O Governo quer fazer obras de melhoria aqui e já se reuniu connosco em 2014, mas por enquanto não há novidades”, diz o homem. Ah Leung tem medo, não quer ir embora.

 

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Palafitas

As primeiras casas sobre as palafitas em Macau datam do século XVI e foram construídas pela diáspora chinesa. “São o tipo de habitações dos pescadores do Sul da China”, nota o historiador da Universidade de Macau Vincent Ho, referindo que “por não terem suposto direito de propriedade, os pescadores mantinham-se sempre à margem do terreno”.

Nuno Soares, arquitecto e urbanista a trabalhar em Macau, nota que as palafitas são “uma evolução” da habitação nos barcos. “O pé direito, a largura, a técnica com que eram construídas é muito próxima da construção naval”, salienta. “Tem uma varanda virada para o rio, como os barcos têm uma varanda na parte posterior, tem dois pisos e umas escadas de barco íngremes.”

Inicialmente construídas de madeira, estas casas foram sendo revestidas a outros materiais. Ainda há poucas décadas, existiam casas sobre palafitas em várias zonas da cidade. Hoje, restam apenas duas dezenas de exemplares em Coloane – algumas abandonadas – localizadas ao longo de 300 metros entre a vila e a Ponte Cais. O futuro destas estruturas e dos habitantes está neste momento em suspenso. O Governo de Macau tem planos para renovar esta zona da cidade, transformando-a numa área turística. A criação de um museu de palafitas é um dos projectos do Executivo.

 

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Viver ao ar livre

“Este é o primeiro canal de água deste pátio”, diz um homem ao passar de mota. Aponta para uma velha parede, várias camadas de tinta branca não disfarçam as primeiras canalizações que trouxeram água ao Pátio da Claridade, nos anos 1960. “Antes disso ia buscar-se água ao poço e era aí que se lavava a roupa e onde se ficava a conversar”, diz Sofia Mak, funcionária pública e moradora deste pátio, na zona do Porto Interior.

O homem que passou de mota era o irmão. Vivem os dois no 8.º D desde que nasceram. A mãe mudou-se para esta casa quando tinha apenas sete anos.

A vizinha do lado é Lam Ut Ngo, professora de artes na Escola Madalena de Canossa, no bairro do Fai Chi Kei. Mantém a porta principal aberta, apenas a grade de protecção separa-nos do interior. Lam está sentada à secretária a trabalhar; uma estante de madeira clara, com revistas e livros arrumados ao monte, divide o escritório da sala de estar. Outros mil objectos estão espalhados pelo espaço. A sala, com um pé direito invulgarmente alto, está ligada a um sótão por umas escadas metálicas. Em breve, Lam vai juntar-se cá fora à conversa, mantém quase sempre um pé dentro do espaço onde vive.

Sofia e Lam conhecem-se desde pequenas. Os pais costumavam estar aqui fora sentados à conversa. “Ainda se mantêm velhos hábitos, já nos prédios altos, os vizinhos não se conhecem”, afirma Sofia. “Saímos à rua e temos a sensação de que o pátio é nosso”, completa Lam.

 

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Quem entra neste pátio pela Travessa da Assunção encontra um colchão de casal encostado à esquerda, numa parede. Máquinas de lavar roupa, estendais, fogões, armários com peças de automóveis, plantas e alguidares ocupam o caminho. São quase cinco da tarde, uma criança sai à rua de triciclo, uma mulher mata moscas com uma espécie de raqueta eléctrica, são vários os moradores que chegam a casa do trabalho. Se algumas das casas mantêm as portas abertas, outras foram fechadas para sempre. As paredes perderam a cor, estão marcadas pela humidade, manchadas de tinta, sujidade.

O Pátio da Claridade é formado por dois blocos – ao todo são 48 casas tijolo cinza, construídas em alturas diferentes e que, por isso, têm características diferentes. Do ponto de vista arquitectónico, junta elementos chineses com outros de influência europeia.

A casa de Lam apresenta a tipologia mais simples do Pátio da Claridade. Tem pouco mais de 40 metros quadrados, no piso de baixo existe uma sala, uma casa de banho e uma cozinha ao lado de um pequeno pátio interior. Na parte de cima, um sótão.

“Antigamente podiam viver aqui três ou quatro famílias, foram chegando muitas pessoas do Interior da China, o espaço era muito apertado para tanta gente”, recorda Lam. Na casa onde hoje vive sozinha chegou a dormir uma família no sótão e outra no rés-do-chão. “Neste andar, os meus pais dormiam numa cama, os filhos noutra e em baixo das escadas havia uma cama para a minha avó.”

Esta casa, a única onde Lam Ut Ngo viveu, é herança que guarda do pai, da mãe. Representa essa “união familiar”, diz. “Os chineses dão muita importância à compra de uma casa, é raro ver pessoas a viver em casas arrendadas. Um imóvel passa de pais para filhos e isso é importante.”

Sofia Mak concorda. Este é um espaço reservado à família. “Não convido os meus amigos para aqui virem, numa casa existem segredos.”

 

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Casa-pátio

A casa-pátio corresponde a uma unidade de vizinhança: um grupo de casas viradas para um espaço aberto comum. Podem encontrar-se alguns exemplares em Macau: o Pátio da Claridade, o Pátio das Seis Casas e o Pátio da Eterna Felicidade são alguns deles.

Construídas sobretudo no século XIX no antigo bazar chinês, são prevalentes na zona do Porto Interior. Compostas por dois andares, estas casas foram construídas com técnicas tradicionais chinesas: paredes estruturais de alvenaria, telhados inclinados, pé-direito alto. “Do ponto de vista morfológico, de organização social e da vivência são muito específicas e muito diferentes daquilo que podemos chamar as residências da comunidade portuguesa ou católica de Macau”, aponta o arquitecto Nuno Soares, que defende a preservação destas estruturas “ameaçadas”. “[O pátio] é um espaço público, aberto aos elementos, que funciona como uma continuação da casa”, explica ainda o também coordenador do documento Revitalização do Património Vernacular de Macau, publicado em 2014. Esta tipologia pátio, continua, “faz sentido numa área densa” como Macau: “É um elemento de flexibilização do espaço e há várias actividades que fazem mais sentido serem feitas ao ar livre num contexto semitropical como o de Macau”.

 

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Casa e trabalho entre quatro paredes

A televisão de Hong Kong tem David Cameron na imagem. Por estes dias, o mundo discute a saída do Reino Unido da União Europeia. Chong Mei, 70 anos, está sentada a um canto a olhar para o pequeno ecrã e a fazer tempo para ir buscar o neto à escola. Estamos na loja Ieng Kuong, que vende material eléctrico e sementes. Mais ninguém se encontra no número 5 da Rua do Infante, nem um cliente. O espaço, amplo, sem vida, mais parece uma sala de arrumos. Nas estantes de vidro, lâmpadas, tomadas, adaptadores, sacos de plástico, caixotes fechados apanham pó. Talvez estejam ali, assim, há anos. Não fosse estar escrito num placar gigante que aqui se vende material eléctrico e sementes, poucos dariam por isso.

A Ieng Kuong já foi um negócio próspero. Em 1965, quando Chong Mei se juntou ao mais velho dos quatro filhos desta família, mudou-se para esta shop-house (casa-loja na tradução portuguesa). Nessa altura viviam aqui cerca de 20 pessoas, quatro gerações que chegaram a partilhar quatro divisões nestes dois andares – trabalhavam no rés-do-chão, viviam na parte de cima. E o mesmo se passava nas redondezas.

“Os vizinhos saíram todos”, comenta Chong Mei. “Já não se vêem muitas casas destas.” A Ieng Kuong foi-se mantendo, trocou as portas de madeira por portas eléctricas de ferro. O edifício, de fachada degradada, “tem sido objecto de várias obras de reparação da estrutura para não colapsar”, mas em tempos de chuva, a água ainda aqui entra, nota a septuagenária.

Chong Mei mudou-se entretanto para a Taipa. No segundo andar vive apenas um tio do marido, mas há quem passe aqui umas temporadas. É que esta shop-house mantém-se como o espaço de família, de reunião. É aqui que todos se encontram, é aqui que descansam. “Os velhos dormem noutra casa, mas passam aqui o dia.”

Quem manteve o negócio da família foi Lei Heng Keong, 67 anos, vendedor de gelados e água de coco. A loja Cocos Hung Heng tem morada ali perto, no número 14 da Rua da Tercena, um edifício de 147 anos. O pai, oriundo de uma família do Interior da China, fugiu à guerra, chegou a Macau há 80 anos e começou o negócio do coco. “Nos anos 1960 e 1970 esta era uma rua comercial próspera, ao lado da Rua Cinco de Outubro, Rua das Estalagens e Rua dos Ervanários”, aponta Lei.

Mesmo em frente a este negócio, existiram outras duas casas-loja até à década de 1980 – um homem vendia vidro, ao lado trabalhava um dentista. Deram lugar a prédios mais altos. “Existiam aqui muitas casas centenárias, onde havia uma loja, havia sempre pessoas a viver em cima.”

Nos três andares desta shop-house, Lei Heng Keong viveu com a família. Os pequenos quartos foram entretanto transformados em salas espaçosas, que partilha hoje apenas com a mulher. Uma clarabóia no último andar, que projectava a luz do dia até cá abaixo, desapareceu. “O negócio já tem tanto tempo, que não queria que acabasse. É suposto esta casa passar de geração em geração.”

Durante esta entrevista, Lei nunca deixa de atender clientes. Duas turistas compram um gelado, sentam-se cá dentro num cadeirão pesado, estilo chinês. À porta estão pendurados quatro cocos, a casca tem pintado a vermelho o símbolo de dupla felicidade – 囍. Do fundo da Rua da Tercena chega, sem interrupção, o barulho das máquinas a perfurar a calçada.

 

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Casa-loja

A shop-house é uma tipologia tradicional das cidades costeiras do Sudeste Asiático. Predominantes em Macau no século XIX e primórdios do século XX, estas são estruturas híbridas, de uso misto, que combinam a actividade comercial e habitacional. São na maioria estruturas baixas, de dois ou três andares – o rés-do-chão é utilizado para o negócio e os pisos superiores como casa. O estilo arquitectónico varia de cidade para cidade e incorpora diferentes influências de culturas locais. “Macau foi este ponto estratégico que teve muitas influências de outros locais e essas influências muitas vezes nem são cópias, não são transformações radicais, mas adaptações. Muitas vezes pega-se num elemento do local, associa-se às condições locais que temos em Macau e surge uma pequena evolução dentro daquela tipologia maior”, explica o arquitecto Nuno Soares.

Em Macau, esta tipologia está muito presente nas antigas áreas comerciais e reflecte a influência ocidental e oriental. Apresenta frequentemente uma particularidade: um kok chai – trata-se de um piso de mezanino com tecto baixo ligado ao rés-do-chão.

Apesar de se encontrarem ainda vários exemplares em Macau, muitos outros deram lugar a edifícios de quatro ou cinco andares. Sendo esta uma das tipologias mais específicas da antiga cidade, Nuno Soares defende a preservação destes conjuntos urbanos.

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