Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Formação de quadros bilingues “a pensar na identidade de Macau”

 

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Texto Catarina Domingues

 

A formação de quadros bilingues para “responder às necessidades de qualificação dos recursos humanos da RAEM” é, segundo Luciano Almeida, director da Escola Superior de Línguas e Tradução do Instituto Politécnico de Macau (IPM), o principal objectivo da nova licenciatura em Ensino de Língua Chinesa como Língua Estrangeira.

O curso de quatro anos, que arranca já em Setembro deste ano com duas turmas, cada uma com cerca de 25 alunos, tem dois planos de estudo: dirige-se, por um lado, a alunos de língua materna chinesa e, por outro, a não falantes de chinês.

A ideia é que o primeiro grupo de estudantes adquira conhecimentos das línguas e culturas dos países de língua portuguesa. No segundo ano da licenciatura, estes alunos deverão rumar a Portugal para um ano de imersão linguística numa instituição de ensino superior no país. Já o plano de estudos para aqueles que não falam chinês tem como estrutura principal o ensino e aprendizagem da língua e cultura chinesas. É em Pequim que vão passar o segundo ano da faculdade.

Dentro de cada um dos planos de estudo, existem ainda duas opções: o estudo da língua e cultura e a formação de professores de língua chinesa, que deverão ficar aptos a leccionar o mandarim em Macau, no Interior da China ou em qualquer outra parte do mundo. Por esta mesma razão, o IPM aposta também no inglês enquanto língua de trabalho.

“Trata-se de uma licenciatura concebida numa lógica de mobilidade internacional”, refere Luciano Almeida, que acredita que as perspectivas profissionais são “excelentes”.

Para o primeiro ano deste curso, estão inscritos alunos de Macau, Interior da China, Portugal, Brasil, Cabo Verde e Moçambique. Ministrada por professores do IPM, a nova licenciatura pretende também que os licenciados regressem aos países de origem e “sejam aí o embrião da expansão do ensino da língua e cultura chinesas e mediadores das relações comerciais entre as empresas dos seus países e as empresas chinesas”.

 

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Localizar ensino superior

Apesar do mandarim ser uma das línguas veiculares – além do português e inglês – Luciano Almeida sublinha que, “tendo em conta a realidade local”, vão ser incluídas algumas disciplinas em cantonês.

O responsável diz ainda que este foi um curso desenhado a pensar no papel e identidade de Macau, que tem a “natural vocação” para ser uma ponte entre a China e os países de língua portuguesa. “Ou se quisermos entre a China e os países latinos, considerando aqui os [países] de língua portuguesa e espanhola”, acrescenta.

As vantagens desta formação para a RAEM são “evidentes”, na medida em que “consolidará Macau como plataforma entre a China e os países lusófonos”.

Luciano Almeida, também professor catedrático convidado da Universidade de Línguas e Cultura de Pequim, acredita que, muito frequentemente, a “identidade de Macau” não é pensada ao nível do ensino terciário local. São adoptadas experiências que os professores tiveram no estrangeiro, em países como os Estados Unidos, Austrália ou Reino Unido, refere. “Essas experiências são importantes, enquanto contributo para aumentar a qualidade do ensino superior em Macau, mas não podem ser importadas e implementadas directamente sem ter em conta a identidade de Macau, devem contribuir para o reforço da qualidade, mas não podem pretender, consciente ou inconscientemente, alterar a identidade de Macau”, explica.

 

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Plataforma não é “responsabilidade exclusiva do Governo”

Na formação de profissionais que poderão encurtar a distância entre a China e os países de língua portuguesa e promover o papel de Macau como plataforma entre estes dois pólos, o IPM lançou já no ano passado a licenciatura em Relações Comerciais China-Países Lusófonos.

Luciano Almeida acredita que Macau pode, de facto, desempenhar o papel de plataforma entre a China e a lusofonia, sublinhando, porém, que esse trabalho não é da “responsabilidade exclusiva do Governo”. Depende também de quem está no terreno, sejam instituições de ensino superior ou os “demais actores económicos e sociais”, assinala o director da Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM.

“O discurso dominante na sociedade civil e dos opinion makers é um discurso estranho, como que se o que faltasse fazer fosse da responsabilidade exclusiva do governo”, indica o responsável.

“Eu creio que a pergunta que se impõe a cada um de nós formular é ‘em que é que eu posso contribuir?’, abandonando o papel de terceiro, um terceiro que se alheia da questão e se assume como mero espectador-perguntador.”

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