Segunda-feira, Outubro 26, 2020
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Nos bastidores do grupo teatral Hiu Koc

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Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro e Arquivo Pessoal

 

É fim de dia de terça-feira e são poucos os actores que já chegaram ao Laboratório Hiu Koc para mais uma noite de ensaios. Estamos no 12.º andar de um edifício industrial da Rua dos Pescadores, no norte da cidade. Cá dentro, as paredes estão pintadas a preto, também o tecto, os caixilhos das janelas, até as tomadas de electricidade. Trata-se de um teatro caixa-preta, um tipo de espaço cénico, de origem europeia, amplamente generalizado nas décadas de 1960 e 1970. Este conceito, associado ao teatro experimental, permite montagens simples, dispensa decorações.

Os actores que já aqui estão, três ou quatro, dividem-se entre tarefas ou aproveitam para fazer exercícios de aquecimento. Numa das extremidades deste espaço, encostada à janela, uma secretária antiga de madeira destoa no espaço; alguém se senta ao computador num compasso de espera. Objectos, vários, estão espalhados pelo chão: uma longa faca de plástico, pares de chinelos alinhados a um canto. E as cortinas, negras também, separam um armazém improvisado. Pela janela, chega a luz quente de um dos apartamentos do outro lado da rua. Luzes brancas, frias, iluminam o espaço cá dentro.

 

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Hoje o elenco da Associação de Representação Teatral Hiu Koc vai ter uma aula de exercícios corporais de ópera chinesa. Prepara uma comédia inspirada na obra Foragidos do Pântano, do autor chinês Shi Nai’an (1296-1372).

Billy Hui, director artístico, puxa duas cadeiras. Sentamo-nos. Todos o tratam por Big Bird (Pássaro Grande) – o nome vem dos tempos do secundário. Billy Hui não sabe bem porquê, aceitou-o, ainda assim.

Não era um aluno qualquer do colégio católico Yuet Wah. “Era um menino gordo numa escola de rapazes, gozavam comigo, era terrível.” Billy Hui sorri sempre, dá gargalhadas. Nessa altura, no colégio, os rapazes cantavam e dançavam rock’n’roll, mas Billy Hui subia ao palco para dar vida à Bíblia. “Ninguém queria fazê-lo, todos diziam: o gordo faz.” Não gostava. Mas foi assim que se fez ao teatro, há 32 anos.

 

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Romper o silêncio

Hiu Koc foi o último pseudónimo utilizado por Lu Xun (1881-1936), pai da literatura moderna chinesa. Hiu significa madrugada; koc é um cornetim. O nome refere-se ao cornetim utilizado pelo exército para convocar os soldados logo pela manhã.

A Associação de Representação Teatral Hiu Koc foi criada em 1975. “Em Macau, o teatro vivia em silêncio, como um exército adormecido”, relembra Lawrence Lei que fundou o grupo juntamente com um colega do Colégio Mateus Ricci.

Inicialmente com sete membros, o Hiu Koc cresceu sem fundos, foi sobrevivendo das contribuições dos sócios e receitas de bilheteira. Sem experiência na área da representação, Lawrence Lei fez parte de um pequeno grupo enviado em 1983 pelo Governo de Macau para Portugal, onde ao longo de vários meses recebeu formação no Teatro Experimental de Cascais.

 

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É por esta altura que a associação começa a ganhar dimensão e visibilidade. Chegava a casa da população através do canal chinês da Rádio Macau. Dramas Hiu Koc, um programa de teatro radiofónico, foi transmitido entre 1983 e 1986, num total de 1200 episódios. “Era daqui que chegava o grosso dos nossos rendimentos”, nota Lawrence Lei. “O equipamento não era o que é hoje e bastava um pequeno erro para termos de repetir tudo desde o início. Podíamos levar uma noite só a gravar um pequeno texto”, recorda.

Mas quando a emissora local decidiu terminar a colaboração, o Hiu Koc passou por um dos momentos mais difíceis da sua trajectória. Recusou-se a fechar as portas, procurou soluções: chegou a organizar festas de música ao vivo e a vender nos intervalos dos espectáculos de teatro faichis (pauzinhos chineses de bambu), que comprava a preços baixos num mercado local e embalava com fitas coloridas. Em palco, era tudo feito manualmente. Criaram-se técnicas para superar a tecnologia em falta: dos bastidores atirava-se água para simular dias de chuva, reproduzia-se o som de um trovão, ou de um dia fresco de Outono. “E era tudo tão real.”

Lawrence Lei iniciou-se também na escrita de guiões. A Macau faltavam livrarias, faltavam livros, guionistas, obras para adaptar. A família e as questões sociais são hoje ainda temas centrais do repertório da companhia. “Uma das características que nos distingue enquanto grupo de teatro é o trabalho criativo”, diz Billy Hui, referindo que cerca de 80 por cento das peças em cena são trabalhos originais.

 

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Projectar Macau lá fora

Se na década de 1970, o Hiu Koc queria “acordar Macau”, o passo seguinte passava por “levar o teatro local além-fronteiras”, explica Lawrence Lei. Em 1986, a associação foi o único grupo a representar Macau numa competição anual de teatro organizada pelo governo de Hong Kong. Entre as mais de 100 companhias presentes nessa edição, esta foi também a única de fora a pisar os palcos do City Hall, “na altura o mais grandioso, belo e importante dos teatros de Hong Kong”.

O Hiu Koc estreou-se com um argumento de Lawrence Lei. Retorno dos Espíritos conta a história de um grupo de mulheres que espera diariamente à beira-mar o regresso dos homens da guerra. Estes voltam a aparecer, mas em forma de espíritos. A actuação valeu ao grupo um lugar entre os 15 finalistas e o prémio para “melhor actor”.

“Num debate entre o júri e o público, lembro-me de alguém perguntar por que razão o prémio principal não tinha sido atribuído ao nosso grupo e, para nós, isso foi o suficiente, porque sentimos que o público estava do nosso lado”, relembra Lei.

 

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O Hiu Koc regressou aos palcos do City Hall até 1996, trazendo para Macau distinções nas mais diferentes categorias. “Depois deixou de ser um desafio”, diz o responsável. Seguiu-se o Interior da China, Taiwan, Singapura, Portugal.

Foi pouco antes da transferência de administração que alguns dos membros da associação se juntaram para comprar o Laboratório Hiu Koc. O espaço, com 180 metros quadrados, seria o primeiro teatro de pequenas dimensões a ser gerido por uma instituição não-governamental em Macau. A cidade crescia, o Hiu Koc queria acompanhar o passo.

 

Profissionalização do sector

“Antes da transferência de administração havia um maior entendimento sobre o que nós fazíamos, porque o teatro tinha um peso grande em Portugal”, observa o director artístico do Hiu Koc, Billy Hui, admitindo, porém, que foi depois da transição que o apoio das autoridades aumentou.

Com a subida do preço do imobiliário, os palcos de Macau tornaram-se num bem raro e a associação começou a arrendar as instalações a outros grupos de teatro locais e estrangeiros para ensaios e espectáculos. Perto do Mercado Vermelho nasceu ainda a segunda casa do Hiu Koc. Com o arrendamento deste espaço, a companhia tinha como objectivo principal abrir um novo centro de arte. “Por falta de tempo não tem sido muito bem-sucedido”, lamenta Billy Hui.

Para o futuro, o Hiu Koc espera ainda estabelecer uma relação mais próxima com as várias comunidades a viver em Macau e está a estudar a legendagem das peças em cena para inglês. O grupo quer também reforçar a colaboração com a vizinha Zhuhai e todo o universo da China que fala cantonês. A aposta na formação de actores e encenadores, diz a associação, é para continuar. Se há 41 anos, o pequeno corpo de actores locais não tinha formação superior na área do teatro, hoje “pelo menos 20 pessoas de Macau vão estudar anualmente para Taiwan, Interior da China, Singapura ou Inglaterra”, diz o director artístico.

No entanto, ainda são poucos aqueles que fazem dos palcos uma vida. Dos 12 elementos que compõem o elenco da peça que o Hiu Koc está a preparar, apenas três trabalham na área do teatro a tempo inteiro. “Mas nunca morremos”, diz Billy Hui.

Entretanto já passam das oito da noite, daqui a nada começa mais um ensaio.

 

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BREVE CRONOLOGIA DO HIU KOC

1975

Lawrence Lei e Yu Meng Sang criam a Associação de Representação Teatral Hiu Koc

 

1983

Membros do Hiu Koc recebem formação no Teatro Experimental de Cascais, em Portugal

 

1983

A Rádio Macau começa a transmitir Dramas Hiu Koc, um programa de teatro radiofónico produzido ao longo de três anos

 

1986

O grupo apresenta em Cantão Made in Macau, com argumento de Lawrence Lei. Trata-se da primeira actuação fora de Macau.

Participa pela primeira vez na competição anual de teatro de Hong Kong com a obra Regresso dos Espíritos, de Lawrence Lei

 

1988

Participa no 1.º Festival de Artes de Macau com Equus, de Peter Shaffer

 

1998

A companhia adquire o Laboratório Hiu Koc na Areia Preta

 

1999

Apresenta Inferno, de Lawrence Lei, em Lisboa e Coimbra

 

2007

Introdução do “Ciclo para Novos Encenadores” com o objectivo de formar novos profissionais na área

 

2015

Participa em colaboração com o grupo ArtFusion na Mostra de Teatro dos Países de Língua Portuguesa da Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa com a peça A Cegueira I

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