Domingo, Novembro 28, 2021
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150 anos de Sun Yat-sen | Os grandes amigos de Macau

 

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Texto João Guedes

 

O relacionamento de Sun Yat-sen com Macau tem sido alvo de diversas abordagens por parte de autores tanto chineses como estrangeiros. No entanto, essa análise limita-se muitas vezes às clássicas fontes historiográficas que se centram sobretudo em biografias da co-autoria de James Cantlie (seu professor na Faculdade de Medicina de Hong Kong) e do jornalista Sheridan Jones, referindo-se essencialmente à sua prática clínica no Hospital Kiang Wu. Os autores citam também, num mesmo discurso tautológico, a relação entre Sun Yat-sen e Francisco Fernandes, o amigo macaense que o auxiliou em diversas ocasiões, concomitantemente com a colaboração de Sun nos jornais de que aquele era proprietário e que publicava em chinês, em português ou em edições bilingues.

Os trabalhos até agora publicados pouco vão além do que se disse. A razão de ser desta lacuna pode prender-se com o facto da maioria dos autores e académicos que se debruça sobre a sua biografia desconhecerem, ou dominarem mal, a língua portuguesa, e por isso se cingirem às fontes anglo-saxónicas. Por outro lado, os académicos que se dedicam à história contemporânea e a estes assuntos em particular não são muitos embora os poucos que têm publicado mais recentemente se destaquem por trazer a público perspectivas contextualizadas de grande interesse e ineditismo, nomeadamente Paul B. Spooner e Geoffrey C. Gunn.

Tendo em conta estas limitações, este artigo debruça-se sobre as relações políticas e pessoais de Sun Yat-sen em Macau, ao mesmo tempo que pretende abordar um tema que tem sido muitas vezes negligenciado e que se prende com o facto da história social e política das províncias meridionais da China, na segunda metade do século XIX, ter sido dominada pela verdadeira hecatombe que constituiu a chamada revolução dos Tai Ping. O conflito teve início em 1850 e formalmente durou até 1864, mas na verdade a China manteve-se depois disso em estado larvar de rebelião até à queda do regime imperial e a proclamação da República, a 10 de Outubro de 1911. Este conflito, que se desenrolou em campanhas militares de dimensões épicas, foi atentamente acompanhada pelos correspondentes da imprensa ocidental baseados na China, que contribuíram para a descrever, bem como aos seus líderes, no tom romântico da época.

A personalidade de Sun Yat-sen, nascido em 1866, é moldada desde a infância pelo imaginário dos Tai Ping na sua revolta contra a injustiça em busca do “reino da paz celestial”. De conhecidos e amigos da sua aldeia ouviu histórias de heroísmo e redenção nessa campanha pela justiça universal que nunca chegaria a destino algum. Muitos dos derrotados da revolta eram precisamente os que por motivos directos ou indirectos, mas ligados à revolução Tai Ping, integraram o afluxo constante de refugiados de Guangdong e Guangxi que se dirigiam a Macau, num caudal que ficaria conhecido como a “emigração dos cules”. A maior parte via em Macau apenas a porta para rumar à miragem das riquezas americanas, mas de entre esses muitos alguns acabavam por ficar.

Essa visão dos Tai Ping terá sido determinante para que a figura de revolucionário romântico que Sun Yat-sen em si concitava tantas simpatias tenha despertado entre a população portuguesa de Macau. Acresce a isso o facto de uma pequena e influente percentagem dos dirigentes da administração portuguesa pertencer à maçonaria, organização secreta que se encontrava então na vanguarda do progressismo político. Para os maçons da época, a democracia política e as liberdades públicas eram bens fundamentais. Aqui reside assim uma das explicações para o facto de Sun se ter eximido aos efeitos discriminatórios da xenofobia e dos preconceitos reinantes na época, mesmo quando era apenas mais um desconhecido recém-chegado a Macau, sem verdadeiras credenciais e principalmente com pouco dinheiro.

O primeiro encontro de Sun Yat-sen com o Ocidente ocorre em Macau, quando com apenas 12 anos de idade chega à região. Era apenas mais um entre os milhares de “cules” que aqui embarcavam com destino às Américas. O seu destino era o Havaí onde, ao contrário dos outros, não ia assentar os railes do caminho de ferro do continente americano, ou cortar cana de açúcar em Cuba, mas sim estudar sob a protecção do irmão Sun Teh Chang, comerciante que prosperava em Honolulu.

 

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A ajuda dos amigos portugueses

Dessa fugaz passagem por Macau em 1879, de que se não conhecem pormenores para além da confissão autobiográfica de ter sido aqui que ganhou a sua consciência social, não existem referências específicas a figuras de origem portuguesa. De facto, o primeiro encontro com um português teria lugar bastantes anos mais tarde e ocorreria não em Macau, mas em Hong Kong, quando conheceu Francisco Hermenegildo Fernandes.

A profusão de citações feitas a Francisco Hermenegildo Fernandes faz jus à importância fulcral e também à centralidade desta figura no tecer do guanxi de Sun Yat-sen junto da comunidade portuguesa e estrangeira, e das autoridades tanto em Macau como na vizinha colónia britânica.

Durante a sua vida estudantil em Hong Kong (1884-1892), Sun Yat-sen não se limitaria a ser um elemento passivo no palco da contestação política. Bem pelo contrário, mergulhara numa série de actividades radicais. Aprendeu a fabricar explosivos, participou designadamente em campanhas bombistas e integrou-se no movimento sindical nascente e em frequentes manifestações de violência, designadamente por ocasião das greves e boicotes dos estivadores. As suas actividades não passaram despercebidas à polícia, acabando por o fazer cair na alçada dos tribunais. Terá sido nessas andanças que travou contacto com Francisco Hermenegildo Fernandes, então tradutor judicial, que se tornaria num dos seus mais íntimos e prezados amigos.

Francisco Fernandes não era apenas um simples funcionário da justiça britânica, mas também um apaixonado e aguerrido jornalista. Interesses vários ligavam-no à imprensa de Hong Kong, enquanto em Macau a sua família era proprietária da mais importante empresa tipográfica e editorial da cidade. Francisco Fernandes era também director da tipografia da família e do semanário que imprimia o Echo Macaense. Através de Francisco Fernandes, Sun Yat-sen seria apresentado a António Joaquim Bastos, figura que de facto desbloquearia o acesso de Sun aos círculos sociais macaenses, avalizando-o na sua vida profissional e defendendo-o nos processos judiciais que lhe foram movidos por rivais e inimigos políticos em Macau.

António Joaquim Bastos era, tal como Francisco Fernandes, jornalista e integrava igualmente a redacção do Echo Macaense. Mas era jornalista apenas a tempo parcial e devido principalmente à sua militância política no Partido Regenerador (uma das duas formações políticas do rotativismo monárquico a que também o governador pertencia), de que em Macau era o chefe de fila. Para além de político era também um destacado causídico do foro local. A acrescentar a isso, representava como cônsul os interesse da França e da Inglaterra em Macau, sendo igualmente membro das Sociedades de Geografia de Portugal e do Reino Unido. Além de todas essas actividades, foi diversas vezes vereador e presidente do Leal Senado e provedor da Santa Casa da Misericórdia.

Foi graças a esta última qualidade do seu protector macaense que Sun conseguiu estabelecer-se como médico na cidade, já que António Joaquim Bastos, como provedor da Santa Casa, não teve dificuldades em convencer a mesa directora da instituição a conceder-lhe os empréstimos necessários para montar não só consultório, mas também uma farmácia anexa. Sem o seu patrocínio, tal não seria possível tanto mais que os curandeiros que constituíam o corpo clínico do Hospital Kiang Wu não viam com bons olhos a chegada de um verdadeiro médico diplomado por uma universidade, declarando-se dispostos a tudo fazer para o impedir de singrar profissionalmente em Macau.

Os bons ofícios de Bastos contribuíram também para que a Misericórdia arrendasse a Sun a casa que seria a sua residência nos anos de Macau, situada precisamente na Travessa da Misericórdia, a poucos passos da Praça do Leal Senado. No seu novo domicílio, Sun atendeu alguns dos seus primeiros pacientes, que além de serem seus vizinhos eram portugueses, como os filhos do escritor Venceslau de Morais, que à época assinava nos principais jornais portugueses os folhetins que lhe granjeariam o lugar de destaque que hoje ostenta na história da literatura portuguesa. A protecção tutelar de Bastos foi decisiva para abrir as portas e granjear o respeito das principais figuras da vida social política. Tudo isto apesar de Bastos estar muito longe de partilhar os ideais republicanos do seu protegido, e muito menos o seu credo protestante. Bastos era um arreigado conservador e devoto católico, pelo que não deixa de ser contraditória a sua atitude de defesa intransigente do jovem revolucionário chinês.

Apesar do poder e influência de António Joaquim Bastos, não lhe foi possível evitar que o peso da lei, que exigia aos praticantes de medicina ocidental em Macau um diploma de uma universidade europeia reconhecida, interrompesse inexoravelmente a carreira de Sun. Isto num momento fulcral em que, nomeadamente como cirurgião na área da urologia, reunia créditos cada vez mais amplos da população e dos seus pares. Créditos esses que eram devidamente enaltecidos nos jornais em artigos inflamados e sempre com contornos políticos, que não se sabe se sairiam do punho do próprio Bastos.

 

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Porto seguro de Macau

A suspensão do exercício da medicina levou Sun Yat-sen a mudar-se, em 1893, para Cantão, onde reergueu farmácia e consultório, mas já não era, porém, o exercício da medicina que o animava, mas sim e apenas a revolução.

Todavia e apesar de todo o ardor e militância, sobrava a Sun em entusiasmo o que lhe faltava em experiência política, faceta que caracterizava a maior parte dos camaradas com que levou a cabo a primeira sublevação republicana contra a monarquia Ching, desencadeada a 26 de Outubro de 1895. A essa inexperiência se deveu o fracasso da revolta rapidamente dominada pelo exército imperial.

O golpe fatal que jugulou a tentativa de sedição foi vibrado pelos ingleses, que por razões conjunturais tinham alterado a sua política, passando a colaborar francamente com o governo imperial, a quem forneceram todas as informações sobre a conjura (nomeadamente a lista com os nomes dos seus cabecilhas). Por esse motivo, a liderança da revolta foi literalmente decapitada, sendo Sun um dos poucos que escapou. O facto de ser cristão foi então decisivo, já que beneficiou da protecção dos missionários protestantes que o esconderam como puderam das primeiras investidas do poder imperial para o capturar. Depois os passos seguintes são bem conhecidos, ao atravessar durante vários dias numa rocambolesca fuga, vestido de mulher, o dédalo de ilhas e braços de Rio das Pérolas até conseguir chegar a Macau.

Na cidade administrada pelos portugueses, podia respirar aliviado, porque a sua rede de amigos, conhecidos e correligionários era já suficientemente sólida para lhe garantir abrigo seguro. Pelo menos por alguns dias, tantos quantos seriam necessários para lhe arranjar transporte para o Japão, onde os socialistas anarquistas e republicanos estruturavam o movimento de regeneração da China.

E assim foi, dispondo da cumplicidade da Repartição dos Assuntos Chineses. Com a protecção da polícia secreta dessa Repartição não foi possível aos espiões imperiais darem conta da presença do fugitivo em Macau, permitindo ao governador, na sua correspondência com o vice-rei de Cantão, negar que Sun alguma vez tenha estado em solo macaense.

O vice-rei viria a aperceber-se de que os seus esforços tinham sido em vão, quando Sun Yat-sen reemerge em Tóquio, para anunciar o estabelecimento da delegação do seu Movimento para a Regeneração da China no Japão.

Depois dessa primeira tentativa frustrada de alterar o regime pela força, Sun Yat-sen passará os 16 anos seguintes num exílio andarilho por meio mundo, desde o Japão a Inglaterra passando por Singapura, Malásia, Canadá e EUA, como propagandista da revolução, fazendo prosélitos e angariando fundos entre as comunidades chinesas ultramarinas.

Posto isto, compreende-se que o furtuito encontro nos corredores judiciais de Hong Kong com Francisco Fernandes se revelaria fundamental para tecer a sólida e diversificada rede de contactos de Sun em Macau. Rede essa que não só perduraria como se iria robustecer e rejuvenescer com novas figuras civis ou militares, que para Macau iam cumprir comissões de serviço, ou ali se domiciliavam definitivamente.

Se até então o papel de Macau se restringia, em grande parte, à facilitação dos movimentos dos partidos e militantes da oposição ao regime manchu, esta situação conheceria uma alteração significativa depois de 1895 com as restrições ao comércio de armamento pelas autoridades de Hong Kong. Decisão que determinou a mudança de domicílio para Macau das empresas que a ele se dedicavam, num movimento que incrementou a economia local e contribuiu para dar o pontapé de saída para o estabelecimento da Associação Comercial de Macau, reunindo num só corpo os comerciantes e conferindo-lhes assim também uma voz política de que até aí não dispunham.

Nesse âmbito, reconheça-se o papel determinante do banqueiro Lou Lim Iok na estruturação da Associação. Os efeitos das mudanças político-económicas levaram a que a importância do seu banco (Po Hang) crescesse exponencialmente de dimensão no financiamento ao novo ramo de comércio do armamento, mas também ainda que indirectamente aos grupos que defendiam a revolta armada contra o regime e que se organizavam um pouco por toda a China.

Esta nova conjuntura ficará indelevelmente assinalada pelo chamado caso “Tatsu Maru”, o apresamento de um cargueiro japonês com esse nome junto a Macau que transportava um carregamento de armas para os rebeldes. O carregamento foi apreendido pela Alfândega chinesa, e Tam Pek Lei, proprietário da loja de armas Kong Vo, e os seus apaniguados foram presos. Esse incidente pôs a nu o papel de Macau relativamente às forças que combatiam o regime na China, contribuindo também para azedar o relacionamento diplomático com o Império do Meio. Isto porque o cargueiro quando foi apresado se encontrava fundeado junto a Coloane, o que levou o governo português a protestar veementemente pelo sucedido. A China respondeu que Macau não possuía águas territoriais e rebocou o vapor para Cantão. Perante isto, o Japão enviou um ultimato a Pequim exigindo a devolução do navio, a que a China acabaria por aceder. Todo esse processo, que inflamaria de novo os sentimentos nacionalistas chineses e uma nova vaga de boicotes contra o Japão, poria em destaque a figura de Alfredo Pinto Lello, secretário-geral do governo de Macau.

O processo “Tatsu Maru” – em que, segundo a opinião geral de então, a intervenção diplomática de Portugal se saldou pelo desaire – provocou a introdução de alterações político-administrativas que levaram a que o comércio de armamento passasse a ser regulado e fiscalizado pelo governo. Foi então criada uma nova repartição administrativa para lidar com essa área, com um chefe de repartição próprio mas supervisionada pelo Governador. Esta alteração legislativa ampliou largamente os poderes do secretário-geral do governo, alcandorando, consequentemente, Pinto Lello a uma posição de poder e influência sem precedentes. Assim, este jurista será durante bem mais de uma década eminência parda do governo e também mais um elemento da rede de cumplicidades activas de que Sun Yat-sen dispunha em Macau.

No caso de Alfredo Pinto Lello, a cumplicidade estabelecida com Sun Yat-sen e as suas forças será explicável por, entre outras coisas, ser genro do velho causídico António Joaquim Bastos, de quem eventualmente herdou o cartório e os negócios quando este se retirou do foro e da vida política, poucos anos antes do dealbar da república chinesa de 1911.

 

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O regresso

Depois de uma ausência de 16 anos, Sun Yat-sen regressou a Macau em Maio de 1912, para umas curtas férias, depois de ter resignado do cargo de Presidente da República. Dessa visita conserva-se actualmente uma fotografia tirada no pátio do Grémio Militar, na qual se vêem as principais individualidades portuguesas de Macau. Era o agradecimento do pai da China moderna aos seus “cúmplices”, correligionários, ou simplesmente amigos de Macau.

Com esta visita, Sun Yat-sen tomava um pouco de fôlego para enfrentar o futuro que não se adivinhava fácil. Sun tinha deposto o poder republicano nas mãos de Yuan Shi Kai, um velho general que não escondia os seus sentimentos monárquicos e se suspeitava que tinha aderido à revolução apenas para a usurpar e restaurar a monarquia consigo no trono imperial. Sun, por seu turno, não escondia a percepção de que teria de fazer tudo de novo para salvar a república que perigava.

Nesse contexto, a visita a Macau na Primavera de 1912 era também uma boa oportunidade de consultar as autoridades republicanas de Macau sobre a continuidade do apoio que lhe tinha sido dispensado, na eventualidade de ter de voltar a pegar em armas. Essa garantia ter-lhe-á sido dada pelos maçons da Loja Luís de Camões, onde, entre outros, pontificavam o governador Álvaro de Melo Machado, Francisco Hermenegildo Fernandes, Aureliano Jorge, Constâncio José da Silva (chefe da Repartição dos Assuntos Chineses e da Polícia Secreta), Coronel José Luís Marques (chefe da Repartição de Armamento dos Civis e presidente do Leal Senado), para além de Camilo Peçanha, o notário da cidade. Não esquecer que tinha sido a Maçonaria que tinha contribuído em larga medida para a revolução de 5 de Outubro de 1910, ocupando os seus membros um grande número de postos dos mais altos escalões civis e militares, tanto em Portugal como em Macau.

Essa garantia materializou-se quase imediatamente com a chegada a Macau de Carlos da Maia, um dos dirigentes revolucionários do 5 de Outubro, maçom e líder da Carbonária, braço armado daquela ordem iniciática.

De facto, durante o mandato de Carlos da Maia como governador de Macau o relacionamento com os nacionalistas e com o próprio Sun Yat-sen ultrapassaria mesmo o que seria de esperar. Ao longo desse período, quando Sun lançou o movimento anti-Yuan Shi Kai que ficaria conhecido como “Segunda Revolução”, Macau tornou-se numa base ainda mais explícita de apoio ao Kwomintang, o partido nacionalista de Sun Yat-sen. Essa situação levou Macau a atravessar um período de grande sensibilidade política, já que Sun Yat-sen não fazia parte do governo central que era de facto liderado por Yuan Shi Kai. A questão aumentava de melindre tendo em conta que Macau estatutariamente não possuía qualquer papel formal a nível de negócios estrangeiros, estando a embaixada portuguesa sediada em Pequim. Esta situação manter-se-ia pelos anos seguintes, com Macau a apoiar sempre informalmente o partido de Sun Yat-sen, enquanto em Pequim a embaixada se encarregava de manter os laços diplomáticos formais entre os dois países. A situação levaria por vezes a situações diplomáticas embaraçosas e a quezílias entre os embaixadores em Pequim e os governador de Macau.

Nesse contexto, é significativo e relevante referir o caloroso agradecimento de Sun Yat-sen endereçado formalmente ao seu correligionário político Carlos da Maia, governador de Macau, numa carta manuscrita redigida em francês que lhe enviou de Xangai: “É com verdadeiro prazer que venho exprimir-lhe os meus sinceros agradecimentos pela extrema bondade que testemunhou, em repetidas circunstâncias a todos os meus amigos políticos, sobretudo durante os últimos acontecimentos que tiveram lugar não longe de Macau. Não tenho palavras para vos expressar o reconhecimento profundo que dedico a tantos testemunhos de simpatia da vossa parte. Transmitindo-vos assim esses sentimentos, eu estou certo de ser o intérprete fiel de todos os republicanos chineses. Formulo ardentes votos, meu caro Governador, para que a ordem e a paz sejam rapidamente restabelecidas na China, a fim de que nós possamos, com a ajuda e o exemplo da República Portuguesa, instaurar na China os princípios e as bases de uma administração que traduza as aspirações do povo”.

A situação mais grave em termos de relacionamento diplomático entre Portugal e a China ocorreria no decurso do governo de Rodrigo José Rodrigues, quando este optou por implementar uma política de relacionamento diplomático directo com o governo de Cantão, à revelia do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Lisboa, deixando o embaixador português em Pequim numa posição embaraçosa junto do governo central.

Rodrigo Rodrigues chegou a Macau a 5 de Janeiro de 1923 e pouco tempo depois iniciou negociações com Liao Zhongkai e Wu Chao Shu, representantes de Sun Yat-sen, no sentido de desbloquear o projecto das obras do porto. O projecto destinava-se a permitir o regresso a Macau de navios de grande calado, impedidos de o fazer devido ao assoreamento da costa. Essas obras eram uma questão em aberto e pomo de discórdia permanente entre as autoridade portuguesas e chinesas desde longa data, tanto mais que interferiam directamente com os limites de Macau que nunca tinham sido oficialmente definidos.

Segundo o historiador Paul B. Spooner, naquele momento, porém, parece haver uma coincidência de interesses sobre o assunto que nunca antes se tinha verificado. A Grã Bretanha mantinha um relacionamento frio com o Kwomintang, particularmente depois deste se ter aliado ao Komintern, aceitando o auxílio financeiro, militar e político soviético. Assim, o porto de Hong Kong deixava de poder desempenhar qualquer potencial papel nos desígnios de reunificação da China de Sun Yat-sen. Macau passava a ser deste modo um projecto potencialmente prometedor. Só assim se pode explicar que as negociações de Rodrigo Rodrigues e dos enviados de Sun tenham sido coroadas de sucesso em tão pouco tempo. O próprio Sun regressa a Cantão no mês seguinte para formar o seu terceiro e último governo. Mas apesar de todas as esperanças, a turbulência política aumentava de tom e de dureza impedindo que o idealismo de Rodrigo Rodrigues se materializasse num acordo cujos efeitos teriam tido um alcance histórico inimaginável.

 

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