Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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Cabo Verde à mesa de jogo

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Tiago Alcântara

 

Jordane Brazão alinha as cartas de jogo. A mesa de black jack está forrada a tecido vermelho; no centro, estampado, o logótipo do Instituto Politécnico de Macau (IPM). Estamos numa das salas do Centro Pedagógico e Científico da Área do Jogo do IPM, na Taipa, que abriu as portas em 2009 para dar apoio à formação de profissionais ligados ao turismo e ao jogo. Mesas de jogos e slot machines estão espalhadas pela sala, grupos de alunos inclinados sobre as mesas. Neste espaço, que simula o funcionamento de um recinto de jogos, não se aposta, aprende-se antes os dois lados deste mundo – de quem joga e de quem trabalha num casino.

Neste momento, Jordane faz de croupier, é ele que dirige o decorrer do jogo. Vai olhando as cartas uma a uma – estão dispostas em forma de leque aberto. Jordane faz as contas em voz alta, tenta perceber se o baralho de cartas está completo. “Já estás aí a contar as cartas há dez minutos”, diz a instrutora Ângela Fong Lopes. O estudante acaba por perceber que falta uma carta. “É um 7”, diz.

 

 

Jordane é um dos 17 alunos de Cabo Verde que recebeu uma bolsa para estudar Gestão de Jogos e Diversão no IPM, ao abrigo de um acordo assinado pelo Ministério do Ensino Superior, Ciências e Inovação de Cabo Verde e o Instituto Politécnico de Macau – o protocolo prevê ainda a atribuição de bolsas a alunos cabo-verdianos para a licenciatura em Ensino de Língua Chinesa como Língua Estrangeira do IPM.

Este grupo de estudantes, que hoje encontramos à volta de uma mesa de black jack, tem idades compreendidas entre os 18 e 22 anos. Vivem na residência de estudantes do IPM e recebem uma bolsa mensal de 3200 patacas.

 

 

No lado oposto ao de Jordane está Ana Catarina Monteiro. Tem 22 anos e uma licenciatura em Turismo, concluída no Instituto de Ciências Económicas e Empresarias de Cabo Verde. “À mesa tem de ser feito tudo muito rápido, o mínimo erro pode mudar completamente o jogo, temos de estar muito atentos”, diz.

 

Apoiar o sector do jogo em Cabo Verde

As aulas à mesa de jogo fazem parte de uma série de cursos adicionais oferecidos aos alunos da licenciatura em Gestão de Jogos e Diversão do IPM.

Hester Cheang, directora do Centro Pedagógico e Científico da Área do Jogo, refere que a atribuição de bolsas a estes alunos pretende apoiar a formação de profissionais para trabalhar no sector do jogo em Cabo Verde. “Temos experiência na área e podemos partilhá-la com o mundo”, nota a responsável, referindo que o centro de formação do IPM “é o maior (do género) na Ásia”.

 

 

O empresário de Macau David Chow está a erguer um empreendimento turístico com casino no Ilhéu de Santa Maria, em Cabo Verde. O empresário local recebeu uma licença de jogo de 25 anos, 15 dos quais em regime de exclusividade. A concessão custou à CV Entertaiment Co., subsidiária da Macau Legend, o equivalente a cerca de 1,2 milhões de euros.

Na licenciatura de Gestão do Jogo e Diversões, que inclui disciplinas como finanças, marketing e contabilidade, o IPM disponibiliza ainda módulos na área recreativa, segundo explica Hester Cheang: “Estamos a tentar formar pessoas que possam trabalhar como gestores e também na área dos elementos não-jogo de um casino.”

 

 

A instrutora Ângela Fong Lopes, acredita que, quando estes alunos regressarem a casa, “poderão vir a ser os formadores dos futuros profissionais de jogo de Cabo Verde”, que conta já com um casino na Ilha do Sal. “Talvez se tornem administradores, mas na área dos jogos de mesa, eles são os primeiros que estudaram aqui [neste centro]”.

Kino Rodrigues, outro dos estudantes que entrevistamos, senta-se numa mesa de bacará para falar à MACAU. “Bajiale, é assim que se diz bacará em mandarim”, sublinha Kino, que antes de chegar à cidade, esteve dois anos a estudar chinês em Pequim. O jovem de 22 anos espera um dia fazer parte do corpo de funcionários do novo projecto de David Chow. “A minha intenção é trabalhar na área da gestão, mas antes disso quero começar como croupier”, refere.

 

 

Também Ana Catarina Monteiro, que trabalhou em Cabo Verde com uma empresa de eventos no lançamento do novo hotel-casino do empresário de Macau, espera integrar o projecto quando estiver concluído – prevê-se que seja daqui a três anos.

“Mas temos de começar por baixo, como se diz, e temos de passar pelas diversas fases para saber lidar com os problemas que surgem. Se eu estiver na equipa de gestão de um casino e não souber o que um croupier faz, então não saberei resolver a situação”, nota a estudante do primeiro ano.

 

Perspectiva internacional

O diálogo à volta das cartas faz-se em crioulo, as entrevistas com a MACAU são em português, mas para estes 17 estudantes cabo-verdianos a língua de ensino é o inglês. Por várias razões: é o idioma que permite alunos comunicarem com professores. E é o futuro. Cabo Verde tem cerca de 530 mil habitantes e a indústria do jogo não vai estar apenas focada na população residente, realça a directora do Centro Pedagógico e Científico da Área do Jogo, Hester Cheang. “Estando na costa ocidental de África, Cabo Verde tem uma boa posição estratégica para o turismo europeu, mundial e, claro, africano.”

Ana Catarina Monteiro ainda está a adaptar-se ao ensino em inglês. “Vamos crescendo pouco a pouco”, diz a jovem, que depois desta licenciatura quer fazer um mestrado em Macau “numa área que junte de forma mais directa o jogo e o turismo”.

E antes de regressar a casa, Ana Catarina admite explorar outros mercados. “Nem sempre a forma como se faz um trabalho num casino daqui é igual a Las Vegas ou à República Checa e, por isso, quero conhecer um pouco de cada um”, adianta.

Hester Cheng acredita que, para este grupo de alunos, “as perspectivas de emprego são muito boas” e que, no futuro, o centro espera receber novos pedidos de Cabo Verde para apoiar a formação em áreas especializadas. “Vão precisar de pessoas que possam dar formação aos trabalhadores, vão precisar de croupiers e de técnicos de slot machines”, exemplifica a responsável.

Mas aqui, à volta desta mesa, há também quem pense em ficar na RAEM. É o caso de Jordane Brazão: “Quero ser um dos melhores e, quem sabe, conseguir um trabalho em Macau”.

 

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Comércio entre a China e países de língua portuguesa cai 11%

O comércio entre a China e os países de língua portuguesa caiu 11,22 por cento nos primeiros oito meses do ano, face ao mesmo período de 2015. De acordo com estatísticas dos Serviços da Alfândega da China, o comércio entre a China e as nações lusófonas totalizou 60,23 mil milhões de dólares entre Janeiro e Agosto. Pequim comprou aos países de língua portuguesa bens avaliados em 41,68 mil milhões de dólares – menos 0,74 por cento – e vendeu produtos no valor de 18,54 mil milhões de dólares – menos 28,24 por cento. O Brasil manteve-se como o principal parceiro económico da China, com trocas comerciais de 45,16 mil milhões de dólares, o que representa uma descida de 7,69 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior. Com Angola, o segundo parceiro comercial da China no universo da lusofonia, as trocas comerciais caíram 28,34 por cento, para 10,19 mil milhões de dólares, e com Portugal, terceiro parceiro do universo de língua portuguesa, o comércio bilateral ascendeu a 3,57 mil milhões de dólares, uma subida de 19,19 por cento.

 

CPLP deverá aprovar cinco países como observadores associados

A República Checa, Eslováquia, Hungria, Costa do Marfim e Uruguai poderão ser os próximos observadores associados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Com a entrada dos cinco países, a CPLP passará a contar com 11 Estados como observadores associados, ultrapassando assim o número de membros de pleno direito (nove). “Isto vai criar uma espécie de pressão sobre a comunidade, de os países associados pretenderem ter um espaço também. Estamos a reflectir para ver qual o papel que eles podem ter”, disse o secretário-executivo da organização, Murade Murargy. Actualmente, são observadores associados da CPLP a Ilha Maurícia, Namíbia, Senegal, Turquia, Japão e Geórgia. A CPLP tem interesse que a “língua portuguesa se insira cada vez mais nesses países” e que tenha “uma presença muito forte”, afirmou Murargy, realçando que esta é uma forma de internacionalizar o português.

 

Portugal no topo da lista do investimento chinês na Europa

O afluxo de capitais chineses na Europa em 2015 bateu recordes e atingiu 29 mil milhões de euros, o dobro do valor investido nos Estados Unidos no mesmo ano. Portugal está no topo da lista de países europeus que receberam mais investimento da China nesse ano, revela um estudo publicado recentemente pela ESADE Business & Law School. Entre 2010 e 2015, o Reino Unido foi o país predilecto da China em termos de investimento, tendo somado 20 mil milhões de euros, investimentos ligados sobretudo ao grande interesse pelo sector imobiliário. Seguiu-se Itália, França, Irlanda e Alemanha. Portugal surge em sexto lugar dos países europeus com um valor estimado em 6.600 milhões de euros.

 

Leiria e Tongling reforçam cooperação em diferentes sectores

Os municípios de Leiria, em Portugal, e de Tongling, na China, vão reforçar a cooperação económica, na educação e no desporto. Durante um encontro em Portugal entre os dois presidentes destes municípios geminados, o presidente da Câmara Municipal de Leiria, Raul Castro, propôs um intercâmbio desportivo, com a participação de um treinador de ténis de mesa de Tongling no desenvolvimento da modalidade em Leiria e a deslocação de um treinador de futebol da cidade para o município chinês. Na ocasião, o presidente da Câmara de Tongling, Chen Liangping, manifestou o desejo de aprofundar a relação com o município português, salientando que existem entre os dois municípios muitos pontos em comum em que podem ser desenvolvidos intercâmbios e projectos comuns. A criação de um espaço naquela cidade chinesa para divulgação dos produtos e da cultura leiriense, à semelhança de um projecto já desenvolvido com uma cidade italiana, foi uma das sugestões de Chen Liangping.

 

Empresas chinesas querem investir na linha ferroviária brasileira

O grupo chinês Shanghai Pengxin Group, Ltd. está interessado em concorrer à concessão da linha de caminho-de-ferro que liga a cidade de Sinop, no Estado do Mato Grosso, a Itaituba, no Estado do Pará. Após um encontro com o presidente brasileiro, Michel Temer, o responsável pelo Shanghai Pengxin Group, Jiang Zhaobai, disse ao portal Planalto que as medidas políticas e económicas do governo brasileiro aumentaram o interesse dos empresários chineses no país. “Especialmente em áreas como agricultura, infra-estrutura e logística”, disse Zhaobai. Numa outra reunião com o presidente brasileiro, a empresa chinesa Xuzhou Construction Machinery Group Co. (XCMG) manifestou interesse na construção de trechos da Ferrovia Integração do Centro-Oeste (FICO) nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Rondônia, ligando os municípios de Uruaçu e Vilhena. O presidente da XCMG, Wang Min, referiu que a empresa chinesa quer participar no projecto ferroviário que vai ligar os oceanos Atlântico, no Brasil, e Pacífico, no Peru, propiciando alternativas para o escoamento de grãos e minérios.

 

Automóvel mais barato do mercado brasileiro é chinês

A fábrica chinesa de automóveis Chery, localizada em Jacareí, no Estado de São Paulo, lançou no Brasil o automóvel mais barato do mercado. A produção do Chery QQ teve início em Abril, chegando apenas agora aos stands de venda. Os preços rondam os 10 mil dólares. O modelo é o segundo automóvel da Chery a ser montado no Brasil, depois do Celer. A empresa anunciou que no primeiro trimestre de 2017 lançará no mercado brasileiro o modelo SUV Tiggo 2.

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