Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Festividade do Arroz das Irmãs

 

 

Texto e Fotos José Simões Morais

 

Nas montanhas vermelhas da Província de Guizhou, no sul da China, todos os anos se repete a Festividade do Arroz das Irmãs, uma tradição ancestral que mergulha nos primórdios da cultura Miao, minoria étnica chinesa com cerca de 270 mil membros. A celebração, que segundo antropólogos e historiadores mantém uma grande autenticidade principalmente na localidade de Taijiang, nasceu há 4800 anos pelas mãos de Fu Xi e Nu Wa, ancestrais soberanos do povo chinês, com o intuito de promover casamentos e encontros entre os jovens, incentivando-os a constituir família.

Segundo a tradição de outrora, no terceiro mês lunar – geralmente no mês de Abril –, os jovens da etnia reuniam-se num vale protegido por uma montanha de vertente côncava. As relações de amizade arrancavam com base na empatia e ao longo dos dias da festividade – geralmente três – e à medida que se estreitavam contacto podia então surgir espaço para outro tipo de relacionamento. Quando um rapaz se encantava por uma rapariga, a forma de o demonstrar era a pedir-lhe arroz. Mas tal não era assim tão fácil, pois o pretendente também tinha de demonstrar talento no canto e na dança, no comer e no beber.

Os bordados nas vestes das raparigas e o tocar sheng (instrumento de sopro criado por Nu Wa) pelos rapazes permitiam avaliar outras mestrias. Na hora da despedida, as raparigas entregavam aos pretendentes um cesto com arroz de cinco cores, tapado por um lenço para ocultar a mensagem simbólica, a esclarecer o que deles pensavam. Codificada pelo posicionamento dos fai chi, assim ficavam a conhecer quais as intenções que elas neles depositavam.

 

 

Se o sinal fosse favorável e eles estivessem interessados, iam ter com elas para lhes entregar o lenço. Aos encontros marcados num local discreto da povoação, com noites de diálogos cantados de amor, juntavam-se depois as famílias e depois havia casamento.

Por via do grupo étnico Miao, descendente de Fu Xi, chefe e fundador da tribo Yi, e de Nu Wa, (o elemento fertilizador feminino, ou a Deusa da Fertilidade) a celebração anual que criaram e promoveram perpetuou-se até à actualidade e é hoje chamada Festividade do Arroz das Irmãs. Na língua Miao, significa “arroz escondido” oferecido aos namorados, e acabou por ser traduzida como Arroz das Irmãs e tem como primário paralelo o Dia dos Namorados.

 

 

As canções Miao

Hoje a minoria étnica Miao, descendente de Chi You e com os ancestrais Fu Xi e Nu Wa, encontra-se dispersa pelas províncias de Yunnan, Hunan e Guangxi, mas é na província de Guizhou que se concentra em maior número (cerca de 270 mil membros), ficando aí estabelecida a Prefeitura Autónoma de Qiandongnan Miao e Dong. Com capital na cidade de Kaili, Taijiang é um dos 16 concelhos que forma esta prefeitura.

Shi Defu (Hu-Yin Vang-hliu em Miao) escreve o seguinte: “Foi em Taijiang que as pessoas preservaram melhor a cultura tradicional e por isso, as letras das antigas canções são aqui as mais autênticas. De geração em geração, foram elas cantadas nos festivais dos Miao e em outras ocasiões especiais em diferentes formas. Não é fácil memorizar uma canção com perto de dez mil linhas e para isso, na calma da noite, as pessoas, especialmente os mais novos, juntam-se para aprenderem os versos ensinados por mestres cantores, ou para entre si praticarem”.

 

 

Para assistir a tão promissoras festas, chegamos ao Sudeste da Província de Guizhou. Partimos de Zhuhai no comboio de alta-velocidade em direcção a Cantão, onde mudamos de comboio e embarcamos noutro que segue para Guiyang. Ao todo, são seis horas e meia de viagem. Há anos, para chegar a esse longínquo mundo eram necessários dois dias inteiros.

A Província de Guizhou preserva as fortes tradições das diferentes nacionalidades que aí habitam, tanto no modo de dar o comer e beber, como nos ornamentos e vestes. No quotidiano gastronómico, os Miao prezam o arroz glutinoso, o vinho de arroz, a comida agridoce confeccionada com vinagre e ao estilo yan, um modo de cozinhar vegetais colhidos na altura.

Após hora e meia de autocarro desde Duyun até Kaili, e o primeiro contacto visual com os trajes coloridos bordados de fundo azul ou castanho, é durante a viagem até à vila de Taijiang que ficamos despertos para as tradicionais casas feitas em madeira apreciadas na paisagem. Tal anima as perspectivas que trazemos para a localidade, onde iremos ficar durante cinco dias a assistir às ancestrais festividades. Induzidos pelas palavras de Shi Defu, idealizamos uma grande e tradicional aldeia habitada pela etnia Miao. Mas ainda na auto-estrada, ao passar por cima da vila de Taijiang, esta apresenta-se em cimento, num estilo dos anos de 1980, e muito pouco resta já das casas em madeira, as originais Miao.

 

 

Concelho de Taijiang

Chegamos dois dias antes do começo da Festa do Arroz das Irmãs e torna-se complicado arranjar um quarto de hotel para tais dias, dada à enorme afluência de visitantes. Já depois de instalados, aproveitamos para passear pelas redondezas e pouco quilómetros após sair da vila de Taijiang encontramos um cortejo. À frente, um homem transporta um títere com a representação de um macaco e logo segue o placar com o nome da aldeia Nan Dong Xin aos ombros de quatro homens. Atrás, um grupo de algumas dezenas de mulheres a trajar vestes coloridas de festa com riquíssimos ornamentos de prata. Em filas caminham com passos bamboleados, para um lado e outro, tomando conta da largura da estrada.

À frente seguem as jovens casadoiras, com trajes de cor de fundo azuis e bordados por fios de muitas cores. Nas fileiras de trás, seguem as casadas e idosas, a vestir tonalidades diferentes de castanhos e lenço preto na cabeça; levam nas mãos um cesto de vime e uma raquete com rede para capturar peixes ou patos. Já os ornamentos em prata, para além de preencherem partes das vestes, couraçando-as, apresentam-se em argolas colocadas à volta do pescoço e na pura filigrana dos brincos, assim como toucados tipo coroa finamente trabalhados, muitos encimados por uma lâmina em prata com a forma das enormes hastes dos búfalos.

 

 

Ensaiavam para a marcha a ter lugar pelas ruas da vila dali a dois dias, logo após o grande espectáculo. Deixamos este grupo Miao recolhido de volta à aldeia, cujas casas parecem estar a ser recolocadas numa nova área e construídas com madeira à maneira tradicional.

Seguimos ao longo do Rio Qingshui até Shidong, o mesmo que banha Taijiang, numa viagem que permite reparar na arquitectura das casas feitas sobretudo de madeira e cujo andar superior, sem paredes e coberto pelo telhado, guarda muito do material que precisa de arejar. As casas novas de madeira apresentam-se com cor laranja, enquanto as antigas estão mais acastanhadas, numa tonalidade difícil de nelas se reparar por ficarem escondidas na vegetação. Na visão inversa, as magníficas varandas, normalmente no andar do meio, permitem espraiar os olhos pela cobertura verde das montanhas, apenas rasgado pelo castanho da terra que ficou à mostra após as torrenciais chuvadas dos dias anteriores. Por isso, na estrada asfaltada muitas são as pedras que para aí rolaram, assim como devido aos desmoronamentos, as terras atravessaram a estrada e só pararam no rio. Logo foi limpa, pois tratando-se de via importante, estará cheia de movimento nos próximos dias, tendo que por ela passar os que vão a Taijiang participar nas Festividades do Arroz das Irmãs.

 

 

Três dias de festa

De volta à vila de Taijiang, deparamo-nos já com muitas pessoas provenientes das povoações do concelho. Os diferentes grupos de etnia Miao concentram-se na praça principal e são facilmente distinguidos pelos diferentes trajes de festa, dançam em círculos ao ritmo de um tambor de madeira que se encontra no meio do círculo. Os jovens tocadores de lusheng cortejam as raparigas com canções de amor, como forma de demonstrar o seu afecto. O circular pelas ruas da vila noite dentro tem como apoio logístico muitos vendedores ambulantes que vão alimentando de gulodices os transeuntes. Em locais mais ou menos afastados do reboliço aparecem pequenos grupos de onde discretamente se ouve o som das canções trocadas entre os elementos femininos e os masculinos.

No dia seguinte, começam as festividades com a recepção de convidados e familiares que chegam de fora. Esta festa também serve para as mulheres casadas visitarem uma vez ao ano a família, estar com os pais, irmãos e sobretudo com as irmãs, por quem ficam a saber as novidades. Ocupando a entrada da rua de acesso ao bairro com uma mesa, um grupo de mulheres, cujas filhas casaram fora da povoação, está encarregue de dar de beber vinho de arroz a quem chega. Entornando directamente para a boca, o pequeno copo bebido num trago não deve ser tocado pelas mãos de quem bebe, senão esperam-lhe mais dois de seguida. Com uma flor seca, cujo interior forma uma estrela pentagonal, carimba-se com um pigmento vermelho a testa dos convidados da família das mulheres casadas e coloca-se à volta do pescoço um fio, vermelho ou azul, consoante mulher ou homem, tendo atado em cada uma das extremidades um ovo de pato tingido de vermelho.

Atrás dessa mesa comprida ao longo rua curta e inclinada, a azáfama é grande. Em grupos, as mulheres preparam os vários pratos para as refeições dos convidados, que serão servidas ao longo do dia pelas dez baixas mesas, com cadeiras à altura. O som de uma banda abre a festa. Após bebidos muitos pequenos cálices de vinho de arroz e já com o espírito aquecido, entram em acção os instrumentos e a dança.

Assim são passados os três dias de festa. Os Miao participam com grande entusiasmo nas danças em roda ritmadas pelo tambor de madeira, ao qual se alia também os lusheng, uma espécie de cabaça trespassada por canas de bambu de vários tamanhos. Se essa melodia do respirar serena o ritmo da precursão, é no privado e discreto cantar que os Miao exprimem as suas emoções. Nas letras das suas canções oralmente transmitidas, preservam até hoje a sua enciclopédia.

 

 

Cantam a sua história e a dos antepassados, assim como as leis para a conduta do social. Através delas, os Miao mantêm os três pilares da sua organização, procurando fazer os casamentos entre famílias da mesma etnia para preservar a cultura. Como descendentes de Chi You, cujo totem era o búfalo, após a derrota ocultaram-nos pelos bordados nas vestes confeccionadas em peles de búfalo e cão.

 

Corpo mitológico desta festa

Uma canção Miao, conhecida como a Canção da Festa das Irmãs, conta a história de dois primos, o rapaz Jindan e a rapariga Ajiao. A rapariga levava sempre para os encontros amorosos, realizados às escondidas, arroz glutinoso cozido escondido numa cesta de bambu para oferecer ao amado. Mas esta festividade tem outras histórias, a partir daqui interligadas por o enredo ser o mesmo. Ocorrida há longo tempo na aldeia de Shidong, concelho de Taijiang, onde existia uma família cujas sete filhas, muito bonitas e prendadas na tecelagem e no bordado, viam os anos passar sem conseguir encontrar marido. Ainda assim arduamente trabalhavam no seu enxoval, mas como não se sentiam plenamente realizadas, ocupavam o tempo a plantar arroz glutinoso. A colheita do Outono foi tão grande que além de dar para todo o ano, sobrou o suficiente para fazer vinho. A abundância era grande, a comida era farta, havia belas vestimentas e mesmo assim elas continuavam infelizes. Os anciões sugeriram-lhes que fizessem uma festa e convidassem todos os jovens das redondezas, já que Shidong era uma localidade muito afastada das outras povoações e ninguém sabia da existência de tão belas raparigas disponíveis para casar.

As sete irmãs decidiram fazer a festa e convidaram jovens rapazes e raparigas de outras aldeias. Três dias antes da data, foram colher folhas e flores para o processo de tingimento que daria cinco cores ao arroz (preto, vermelho, amarelo, verde e branco). Prepararam um abundante repasto e muito vinho de arroz para receber os convidados, que a pé tinham percorrido a partir das suas povoações os difíceis caminhos montanhosos para chegar a Shidong. A festa durou três dias e algumas das sete irmãs conseguiram encontrar o amor das suas vidas.

 

 

Na manhã do segundo dia de festividades, histórias coreografadas do reportório da etnia Miao são apresentadas num grande espectáculo no recinto improvisado, num dos cantos da vila de Taijiang. Para assistir, aí conflui uma imensa corrente humana. Pelo enorme palco passaram desde bailados aos cantores predilectos da população, assim como houve representação em teatro dança de episódios da sua história e peças trazidas por diferentes grupos das povoações e por crianças. A chuva tomou conta dessa manhã e só no final do espectáculo, por volta do meio-dia e meia, o sol rompeu das nuvens e deu brilho ao desfilar pelas ruas do cortejo etnográfico, realçando os diferentes trajes e cores, assim como os ornamentos de prata que trazem à cabeça. À noite, um espectáculo de luz e som com vedetas Miao tomaram conta do enorme recinto sempre cheio de famílias.

No cartaz das festas há outros divertimentos, como lutas de cães, galos e búfalos, e para os rapazes, a pesca ou a caça aos patos. Para os homens, as chegas de búfalos são o prato forte das festas, encontrando-se a arena no outro canto da vila e durante as tardes dos cinco dias esteve completamente cheia de espectadores. Fazem-se apostas nos búfalos e a povoação, à qual pertence o animal campeão, enche-se de orgulho.

Durante o dia, rapazes e raparigas comungam a mesma comida e à noite, os amantes cantam canções de amor até ao amanhecer. Assim passam os jovens os três dias das festividades, realizadas para encontrarem com quem partilhar o seu amor e constituir família.

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