Sexta-feira, Junho 5, 2020
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Liu Wangjing, produtor de carnes secas

 

Fotos Locanda Films

 

Quando acabei a escola secundária aos 18 anos, comecei a aprender a fazer os chouriços com o meu pai e desde então sou eu quem os faço. O mestre verdadeiro, aquele que começou com tudo, foi o meu primo. Ele era mesmo especialista nisto dos chouriços e eu tive a oportunidade de aprender com ele. Picar o porco, misturar as especiarias, estufar a tripa e dar o nó final. É esse o procedimento básico. Depois aprende-se a fazer um chouriços mais perfeitinhos.

Os meus ascendentes contavam que os filhos e os netos mantivessem as portas abertas e preservassem esta tradição de família. Eu não tive outra escolha. Apesar de todas as dificuldades mais recentes, continuo a ter uma boa clientela, inclusive pessoal mais jovem. Tenho clientes que já são da terceira geração da mesma família. Antes eram os avôs que vinham às compras, depois passaram a ser os filhos e agora tenho os netos. Tenho clientes que são mesmo muito leais a esta loja.

Antes o meu irmão e eu geríamos o negócio, mas há uns dez anos ele reformou-se e então eu pedi à minha mulher que me viesse ajudar. Tenho muitos turistas que vêm aqui e eu não conseguia dar conta de tudo sozinho. Nos anos 70, os primeiros turistas começaram a aparecer e a economia de Macau começou a prosperar. Eles gostam muito do meu chouriço porque não encontram igual em outro lugar. Eu entendo que aquilo que eu faço não é um bem essencial, as pessoas não vêm aqui comprar todos os dias ou todas as semanas. No final do ano é que eu tenho muitos clientes. Por isso, em vez de só ter chouriços, eu acrescentei outros produtos ao negócio para poder ter algum lucro o ano todo.

Antes havia mais de 50 lojas a venderem este tipo de chouriço em Macau. Hoje não passam de três. Por isso, eu acho que este tipo de negócio tem os dias contados; não lhe antevejo grande futuro. Estes negócios mais tradicionais vão desaparecendo pouco a pouco. Se eu pedir aos meus filhos ou netos para levaram isto adiante, seria o mesmo que empurra-los para um beco sem saída. Não posso fazer isto com eles. Por mais pena que tenha, não posso.

Quando eu não puder mais, é a altura de acabar com a loja. Não vou sentir saudades, porque foi uma vida dura.

 

 

*Este retrato é um dos episódios da série documental Os Resistentes: Retratos de Macau, da autoria do realizador António Caetano Faria.

 

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