Sexta-feira, Maio 29, 2020
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Konstantin Bessmertny, o artista da paródia humana

 

 

Texto Diana do Mar e Fátima Valente | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

Quando chegou estava longe de imaginar que Macau seria para sempre. Nascido em 1964 na pequena cidade russa de Blagoveshchensk, perto da fronteira com a China, Konstantin Bessmertny veio por pouco tempo, “empurrado pela curiosidade”, – como tantos outros amigos que fez na cidade. Era suposto ser um ano – mas passaram 23: “Nunca esperei ficar tanto tempo”.

Como eram só duas exposições – uma em Macau e outra em Hong Kong – primeiro veio sozinho. Contudo, surgiram oportunidades, a família veio ao seu encontro e depois passou a “não haver razão para deixar Macau”. O filho Max ia bem na escola – dominava o português – e a mulher, Gala, que é pianista, foi trabalhar para o Instituto Cultural. Isto depois de um convite inicial do padre Lancelote Rodrigues, que “ficou surpreendido por ela ter tocado o Concerto n.º 2 de Rachmaninov para piano e orquestra”. “Depois, foi ir com a corrente”, recorda.

Será a esses primeiros tempos que remonta a origem do “mito” de que era um espião ao serviço da principal organização de serviços secretos da antiga União Soviética, o KGB – pelo menos assim suspeita Konstantin Bessmertny. “Imagina: 1993, um artista e uma pianista tentam estabelecer-se aqui… Qualquer idiota com o pensamento da Guerra Fria vai pensar isso. Mas que tipo de informações é que Macau tinha? Não havia nenhuma razão.”

 

 

O artista russo sabe ter sido alvo de escutas telefónicas no início da vida em Macau – não só pelos “barulhos estranhos” que ouvia às vezes enquanto conversava com a mãe, mas porque teve uma amiga que trabalhava na empresa de telecomunicações o confirmara. “Penso que perdiam muito tempo”, diz, entre risos.

Ironia do destino, na Rússia aconteceu-lhe o contrário. Nascido numa “família dissidente, em que cerca de 20 familiares foram mortos durante a repressão de Estaline”, Bessmertny teve “problemas” com os serviços secretos russos quando, enquanto cumpria o serviço militar obrigatório, tentou comprar uma máquina para fazer gravuras: “Era muito perigoso porque poderia distribuir coisas ilegalmente…”

Mas a sua figura, quase tão enigmática como as suas criações, também despertou outros rumores, como o de ligações à Maçonaria. Konstantin Bessmertny garante serem inexistentes, mas não esconde o interesse: “Adoro o simbolismo, a semiótica… e estudei muitas coisas. Por causa da curiosidade sei mais do que é preciso”.

 

 

Ser português, um feliz incidente

Apesar das oportunidades que o fizeram ficar em Macau, Bessmertny tem presente as dificuldades iniciais, nomeadamente por ser russo, devido à memória ainda muito viva da “estupidez internacional” que foi a Guerra Fria. “Tive problemas. Viajar para qualquer sítio era uma loucura. Por exemplo, para ir a Hong Kong fazer uma exposição precisava de visto, e para ir a outros países também tinha de ir a Hong Kong. Era impossível”, sublinha o artista, recordando que precisou de ir a Pequim para pedir visto pelo menos uma vez.

Uma janela abriu-se quando apareceu a possibilidade de ter um passaporte canadiano. Bessmertny lembra que preparara os papéis todos para a família quando, num jantar, um amigo advogado lhe disse: “Macau está sob administração portuguesa. Porquê canadiano? Deixa-me os documentos”. Foi um passo até à nacionalidade portuguesa. “Foi por acidente, mas nunca me arrependi. Adoro o mundo mediterrânico, e penso que a maior descoberta que fiz foi Portugal.”

 

 

É, aliás, em Portugal, onde passa “no mínimo” um mês por ano com a família, alargada a quatro membros, com o nascimento da filha Sasha, ainda no tempo da administração portuguesa. Mas Bessmertny partilha que gostaria de permanecer mais tempo em Alcobaça, onde tem casa desde o final da década de 1990: “Quero arranjar maneira de viver e trabalhar mais tempo em Portugal”.

A língua domina-a desde os primeiros tempos, muito por causa do círculo de amigos que foi construindo em Macau. Frequentou aulas de português, mas o curso era “muito aborrecido”, pelo que a verdadeira aprendizagem fez-se entre convívios.

Já à Rússia regressa hoje mais amiúde do que antes, para visitar os pais que vão ficando mais velhos, e aproveitar a proximidade ao Lago Baikal para “recarregar baterias” junto da “natureza absoluta”, independentemente da estação do ano. “Adoro o magnetismo e a energia, é um sonho.”

 

 

Artista é alcunha

Konstantin Bessmertny já era “artista” antes de o ser. A alcunha veio dos tempos de escola. Não recorda quem foi o autor, mas terá sido por “desdém” de alguns colegas que não achavam jeito à arte. “Quando o professor estava a explicar alguma coisa eu desenhava. Todos os meus livros estavam cheios de desenhos, e os meus colegas gostavam de se sentar perto de mim quando me viam a desenhar alguma coisa engraçada.”

“Bom aluno, particularmente a física e química”, Konstantin Bessmertny era também “obediente e calmo”, e tentava pacificar os outros estudantes sempre que se levantavam ondas de contestação na escola. A razão é fácil de explicar: a sua mãe era professora e ele sabia bem quão “difícil” era estar do outro lado.

Para minimizar o bullying por causa do gosto pelas artes – mais associado às raparigas – praticou futebol e hóquei no gelo para se ‘enturmar’ entre os seus pares, mas também o ajudou o facto de ter primos mais velhos a frequentar a mesma escola que lhe garantiam paz. “Não tinha de perder tanto tempo a ter de provar algo.”

 

 

Uns anos depois, a alcunha de “artista” ganhou um tom “mais respeitador”. “Vinham ter comigo e diziam: ‘Oh, podes desenhar-me um retrato?’ Quando provas a ti mesmo e aos outros que tens capacidade para fazer uma coisa, eles começam a respeitar-te.”

O “artista” ganhou o seu primeiro prémio por uma pintura aos sete anos. A memória que partilha – enquanto esboça um grande sorriso – é a de ver o pai a mostrar a todos os amigos o jornal que trazia um pequeno artigo sobre o desenho. “Lembro-me do título: ‘Cavalos cor-de-rosa’”, diz Konstantin Bessmertny, recordando o cenário invulgar de um rapaz a pintar cavalos cor-de-rosa na Rússia na década de 1970.

De exposição em exposição, na pré-adolescência Bessmertny já ia lançado nas artes. As reticências no seio familiar surgiram mais tarde, sobretudo por parte da mãe e de uma tia, com o aproximar da ida para a universidade. “Elas queriam que fosse para arquitectura, porque achavam que os artistas não têm dinheiro, são alcoólicos… Para elas era um pesadelo a vida de artista. E, na verdade, depois enganei-as um pouco… fiz de propósito para demorar a entregar a candidatura para depois dizer: ‘Já não vou a tempo para ingressar em arquitectura, mas ainda posso entrar em artes’”. Por ter começado a escola primária antes dos seis anos, chegou à universidade aos 16 anos. Resultado: estudava com colegas com o dobro da sua idade. “Eu era uma criança e de repente estava a desenhar um nu integral.”

 

 

Com a separação dos pais, Konstantin Bessmertny, que não tem problemas em dizer que era um “menino da mamã”, percebeu que tinha de ajudar em casa e, antes de acabar os estudos, já trabalhava em artes gráficas e design de interiores. O primeiro trabalho, “uma das experiências mais divertidas”, foi num “jornal comunista, mas dirigido por um judeu russo como uma certa mentalidade de dissidente”. Era designer gráfico, uma actividade a que ainda recorre como hobby, como por exemplo em 2015, com o livro The Last Dumpling, em co-autoria com o chef Kristoffer Luczak.

Foi nos idos anos 1980 que aprendeu “como passar uma mensagem sem ser directo” nas suas criações artísticas. “Todo o jornal era concebido para uma audiência específica. Havia coisas escritas para os chamados idiotas, para as pessoas comuns, mas depois brincávamos com os títulos, com as letras.”

Num universo familiar em que sobressaem as mulheres – como a mãe e a tia –, Konstantin Bessmertny fala frequentemente de uma outra figura feminina: a avó, que falava chinês quando era nova, e com quem “passava muito tempo”. Era a mesma que acompanhava aos sábados e aos domingos até à igreja – mas normalmente só até à porta, porque como não era obrigado a entrar, ficava na rua a desenhar. A avó era fiel da Igreja Baptista, algo pouco comum na Rússia predominantemente ortodoxa (ele próprio foi baptizado), uma “alternativa” com a qual até simpatizava por se basear no respeito pela vontade própria. Nos dias de hoje, Bessmertny, que se define como “autodidacta” em religião, sente-se bem tanto numa igreja na sua terra natal como no Mosteiro de Alcobaça.

No entanto, ao contrário da política, a religião é menos visível na “paródia humana” recriada nas suas obras. “Não uso símbolos religiosos, não é por ter medo”, realça, dando como exemplo o atentado à publicação satírica francesa Charlie Hebdo. Mas para Bessmertny não faz sentido a “ofensa grosseira”. “Há pessoas que têm as suas próprias ideias na vida e tens de respeitar. Sim, podes dizer que é autocensura, mas eu simplesmente quero evitar insultar boas pessoas.”

 

 

A metáfora do like de Leonardo da Vinci

A vontade própria é também o principal motor das criações de Konstantin Bessmertny, cuja mestria técnica adquiriu ao longo de sete anos em academias de belas artes soviéticas. Afinal, não lhe importa se a “mensagem” da sua obra passa nem a idealiza para um determinado público. Interessa-lhe antes desafiar-se a si mesmo e a “diversão” de conceber “labirintos ilusórios” para quem realmente aprecia o seu trabalho.

“De facto, não quero saber [se a mensagem passa]. Na verdade não ligo às opiniões, mas, de certa forma, a algumas pessoas”, afirma, recorrendo a um exemplo: “Imagina que o Michelangelo publica uma imagem no Instagram e tem um like do Leonardo da Vinci e depois 500 mil likes de fãs da Kim Kardashian. Um único like do Leonardo da Vinci vale mais do que 500 mil de idiotas”.

A metáfora serve para explicar que a satisfação chega muitas vezes com uma única opinião: “Quando tenho, por exemplo, um comentário de um escritor a dizer que gostou de uma exposição minha, mas que demonstra que descobriu algo que escondi propositadamente com outros significados e entendeu onde é que queria chegar”.

 

 

O absurdo e o humor misturam-se com complexos conceitos da política, da história, da filosofia e até da música no trabalho de Bessmertny que confessa ter na paródia humana a sua “obsessão”. O cocktail de ingredientes que combina quando pinta, esculpe ou cria uma instalação faz com que uma obra sua não seja uma descoberta só.

Como escreveu o autor norte-americano Don J. Cohn, no catálogo da actual exposição patente no Museu de Arte de Macau, nos quadros de Bessmertny é “muito raro que uma coisa ocorra sozinha”. Talvez tal fique a dever-se ao “truque” que utiliza: “Adoro usar labirintos ilusórios como ferramenta. Há coisas que fazes por diversão; outras por dinheiro. Penso que a arte deve ser por diversão. Quando feita por pessoas tristes e que apenas pensam em ficar famosas ou ricas é sempre má”.

Tal como acontece a muitos outros artistas, sempre que acaba um trabalho é-lhe difícil voltar a lançar mãos à obra. “Tens de te forçar: medito para ficar bem-disposto e ter prazer pelas coisas. Podes estar zangado, mas alegremente zangado, ou rebeldemente zangado. Por exemplo, quando queres atacar certos tipos de mentalidade, de conceitos instituídos ou pessoas [que te irritam], então podes estar rebeldemente feliz, por estares entusiasmado com o trabalho que estás a fazer.”

É precisamente o entusiasmo de quem fala do que gosta que leva Bessmertny a perder-se na conversa, dispersando-se em histórias, referências da arte e conceitos – algo que reconhece. Afinal, o processo criativo é solitário e, às vezes, passa “até 18 horas por dia” sem falar com ninguém.

A disciplina faz parte da sua vida desde a escola russa, em que tinha aulas de desenho ao estilo militar: “Duas horas todos os dias, excepto aos domingos”. Odeia rotinas e “muda-as de tempos em tempos”, mas no quotidiano não prescinde da literatura. Em sua casa, tem “de certeza” mais de mil livros expostos em duas grandes paredes.

Acabou recentemente de ler o “simplesmente brilhante” livro do historiador Simon Sebag Montefiore sobre a família Romanov, que revela o terror que era ser czar na Rússia imperial, e tem “mais quatro ou cinco” obras à espera de serem lidas ou ouvidas, pois começou a experimentar as versões em áudio para dar descanso à vista.

Energia e boa disposição não lhe faltam logo pela manhã: já tinha corrido dez quilómetros antes de se sentar para mais de uma hora de conversa animada, em Coloane, com vista para a China, saboreando um pastel de nata pelo meio. Já a segunda sessão, marcada para as fotos, foi mais apressada porque Bessemertny tinha ido com a sogra fazer as compras para o Ano Novo Ortodoxo (14 de Janeiro) e estava preocupado, não fosse a comida estragar-se no carro.

Com a exposição no Museu de Arte, até Maio, tem andado num corrupio a dar entrevistas. Por ser famoso? Bessmertny relativiza: “O sucesso deve ser medido em termos de escala”. Por isso brinca quando diz que há apenas uma coisa que pode afirmar com convicção: é o “artista mais bem-sucedido na vila de Coloane”.

Referências e reflexões

Entre as referências de Konstantin Bessmertny figuram nomes como Hieronymus Bosch e Peter Brueghel, mas também Salvador Dali ou Diego Velasquez. E, até certo ponto, ressalva, obras de Michelangelo, Leonardo da Vinci ou Goya. Isto porque são mais do que uma imagem com leitura ou percepção imediatas – exigem um certo tempo de observação. Por isso é que, da sua perspectiva, Andy Warhol é “muito mau”, embora ache o retrato de Mao Tsé-tung “sensacionalmente impressionante” e não desgoste de todo da primeira Marylin Monroe (Gold) e do quadro de Elvis Presley.

Reflexões sobre o estado e conceito da arte também ecoam no discurso de Konstantin Bessmertny, que defende que a história da arte, como a conhecemos, “deve ser desafiada” e contesta a forma como é absorvida, já que depreendemos à partida, por exemplo, que se é um Picasso é bom. Além disso, “nem tudo o que vemos num museu tem qualidade”, sublinha Konstantin Bessmertny, para quem tal tem a ver com a “democratização da criatividade”.

 

 

O pintor dá o exemplo do momento em que se desapontou com o movimento abstracto: “Em 2000 e qualquer coisa, metade dos meus trabalhos eram abstractos. Mas fui à Tailândia e vi exposições de pinturas abstractas feitas por elefantes – que são animais extremamente inteligentes – e aquilo mexeu comigo. Percebi que a arte abstracta serve para decoração de entradas de edifícios, escritórios, e coisas do género”.

Diz acreditar na “‘meritocracia’” – “independentemente do tipo de sistema da sociedade”. Contudo, é bastante crítico relativamente à forma como o negócio da arte evoluiu, e isso também se vê numa das suas obras em que o artista surge no fundo da pirâmide social da arte, enquanto “parte subvalorizada” da cadeia.

 

O sonho do cavalo de bronze

Como artista, Bessmertny está sempre expectante em relação ao “próximo desafio”. Na gaveta tem uma ideia com uma dezena de anos, e não esconde o desejo de encontrar alguém que esteja interessado em investir na obra ou pelo menos contribuir para a sua produção.

Isto porque aprendeu a “garantir-se”, como mecanismo de defesa, deixando para trás o tempo em que ficava ‘à rasca’ – pendurado por um comprador que não avançou o dinheiro quando devia – e porque não quer para si a história romântica do artista que viveu na miséria.

O seu sonho é fazer uma “enorme” escultura de bronze de um cavalo, um animal que, aliás, utiliza em muitas obras, mas não um cavalo qualquer. “Tenho uma obsessão de fazer esculturas interactivas. Por exemplo, fazer um cavalo clássico como a estátua equestre de Marco Aurélio, em Roma, mas que pudesse ser reutilizado anualmente, e ter um website com transmissão ao vivo, que permitisse ver tudo o que se passa. Por exemplo, no primeiro ano ficava num espaço público. Podia pôr-se fogo num ano e, no outro, fazer decorações de Natal. Ou seja, fazer qualquer coisa diferente, vandalizando a escultura como ideia de último momento.”

Macau foi sempre uma fonte de inspiração para Bessmertny, que foi mudando de casa – primeiro da península para a Taipa e depois para Coloane – à medida que a cidade se foi desenvolvendo, como que em busca de um refúgio da densidade que, todavia, percorre os seus quadros preenchidos por imensos detalhes e histórias paralelas.

Essa mutação da cidade – outrora pacata também – propiciou o fim do “paraíso” que era ter um espaço para trabalhar em Macau. Em 23 anos, mudou 13 vezes de estúdio, até abandonar o de Coloane, e estabelecer-se, no ano passado, em Hong Kong.

Bessmertny gosta de se reinventar e acredita em novos ciclos. “Para seres criativo precisas de novos começos. Mesmo limpar a casa para entrar no novo ano é um bom começo.” Agora passa alguns dias por semana a trabalhar na região vizinha e por isso tem de “resolver novos problemas”, lidar com “novas desilusões”, próprias de quem acaba de se mudar. “Recarregas-te a ti próprio. Procuras sempre uma saída”, diz.

Mas mesmo a passar mais tempo em Hong Kong, mantém Macau como o seu cartão-de-visita. “Tu és do sítio onde passas as férias e os fins-de-semana”, aponta, recordando o exemplo de Leonardo Da Vinci, que trabalhava em Roma, Milão ou Paris, mas era conhecido por ser oriundo daquela pequena cidade italiana.

Bessmertny chegou a ponderar outras paragens, mas um amigo advertiu-o que iria cometer um “grande erro”, já que as pessoas associavam a sua marca a um espaço. “Adoro estar associado a Macau. De facto, de Hong Kong a Londres, todos dizem que sou um artista de Macau.”

Da Rússia, de Macau ou do mundo, Bessmertny junta o olhar tanto de um estrangeiro como de um nativo.

 

 

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Uma exposição “a bel-prazer”

 

“Ad Lib”, abreviatura da expressão latina ad libitum, que significa “a bel-prazer”, figura como a mais recente exposição de Konstantin Bessmertny, patente no Museu de Arte de Macau (MAM) até 28 de Maio. A ideia para o título partiu da mulher, pianista e musa inspiradora – já que a expressão ad libitum no meio musical constitui como um convite à improvisação.

Trinta e quatro obras recentes de Konstantin Bessmertny perfazem um conjunto que joga com diferentes meios, escalas, perspectivas ou até culturas. Na ampla galeria, uma das primeiras imagens que salta à vista – por ser incomum – é a de um carro a cair aos bocados.

Estacionado na sala de exposição, o Mercedes Benz SL180 de 1964, ano em que nasceu o artista russo, surge como “símbolo da civilização moderna, dependente de combustíveis fósseis que, no seu interior, tem vestígios da Antiguidade Clássica: há moldes de gesso e cópias em mármore de esculturas gregas partidas”, explica o MAM. Por definir está, contudo, o destino a dar ao carro – oferecido por um amigo de Hong Kong – quando a exposição acabar. Konstantin Bessmertny diz que pode sempre vendê-lo, pois restaurá-lo é quase. Mas o primeiro problema a resolver será arranjar um espaço para o guardar.

Imponente pela sua dimensão, afirma-se também a pintura a óleo sob a forma de circunferência dividida em duas metades, intitulada “Batalha de Macau”. Dois eventos, separados temporalmente por quase 400 anos, que tiveram um forte impacto no desenvolvimento de Macau encontram-se representados: a derrota da invasão holandesa, em 1622, e a liberalização do jogo, em 2002. Como escreve Don J. Cohn, no catálogo da exposição, a primeira fez de Macau a “Veneza do Oriente” e a segunda “a capital opulência kitsch com as mais imbecis consequências culturais de todos os tempos (…) É um catecismo ilustrado do Bem e do Mal (…), da pobreza e da riqueza, da colónia e do colonizador (…), de Marx e de Mao com pandas pelo meio, vestidos e nus, porno e púdicos (…), jogando na possibilidade de que este recanto de inferno à nossa volta não seja mais que o próprio paraíso”, acrescenta o autor norte-americano.

Ainda na pintura destaca-se também o “S. Sebastião da Acupunctura”, em que o artista, como descreve Don J. Cohn, lança irónicas farpas e agulhas à imagem clássica do mártir cristão, com a medicina tradicional chinesa a ir em seu socorro, como “forma alternativa de opressão disfarçada de cura”.

Já a instalação “Melhor Juntos. Da Série O Encontra O” replica o slogan da campanha contra a independência da Escócia, “aplicado absurdamente ao estafado conceito do encontro entre o Oriente e o Ocidente”, em que surgem dois homens, como que ligados pela cabeça: um com os pés no chão e o outro por cima, virado ao contrário, de pernas para o ar.

Uma roleta russa e uma ratoeira, ainda com a etiqueta do preço de $2.99 e com fichas de jogo presas, provocam os visitantes. O mesmo efeito tem um par de violoncelos, cheios de mensagens sob a forma de colagens, com um deles a anunciar “que todos os homens são iguais, excepto os génios e os idiotas”. “Inspirei-me no livro de Mario Vargas Llosa A Civilização do Espectáculo”, conta Konstantin durante uma visita à exposição, ilustrando com o exemplo da política do “pão e circo” dos tempos da Roma antiga. Na mesma mostra junta ainda casas de bonecas para adultos, reconstituindo em detalhe uma sala-de-estar victoriana e uma cena da conhecida saga O Padrinho, de Francis Ford Coppola.

A obsessão de Bessmertny pelo cinema é uma constante em “Ad Lib”. A ocupar uma parede da sala está ainda uma série com as luvas usadas por Charlie Chaplin em O Campeão de Boxe. E na “Remakes” – inspirada nas cópias dos DVD pirateados na China e que depois chegavam a Macau e Hong Kong –, Konstantin Bessmetny surpreende com fotogramas a preto e branco. Estes são inspirados nos filmes de cowboys, mas também na cultura pop norte-americana. Neles, mensagens sob a forma de legenda baralham e espicaçam os mais distraídos, como a fala “I know English. Monday. Tuesday. Thursday, Wednesday, Friday”, roubada à personagem Apolloni de O Padrinho e agora presa a um imaginário saloon dos filmes estilo western da América.

Os fotogramas estão entre as obras expostas preferidas do artista russo. Mas nem tudo é linear, adverte: “Às vezes a obra preferida pode ser aquela falhada, que passaste mais tempo a melhorar”.

Konstantin Bessmertny, que representou Macau na Bienal de Veneza em 2007, afirma que “não foi desafiante” seleccionar as obras. “O desafio foi antes convencer as pessoas a darem-me este espaço para vandalizar.”

Depois da exposição no MAM, seguir-se-ão este ano outras pelo menos em Roma, em Pequim e em Xangai.

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