Sexta-feira, Outubro 23, 2020
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Liu Jie Mei, farmacêutica de medicina tradicional chinesa

 

 

Fotos Locanda Films

 

Os negócios de família são mesmo assim, são os filhos, os netos que têm de assumir a responsabilidade e levar isto adiante. Só sei que carrego esta escolha há mais de cinco décadas.

 

 

Havia muitos negócios na área da medicina tradicional chinesa, mas hoje em dia já não há tanto interesse nisto como antes. A vida é mais exigente e há de se ter muita paciência para produzir este tipo de medicamento. Há alguns que levam dias, semanas a ficarem prontos. Leva-se muito tempo a fermentar as ervas de forma tradicional, sem a ajuda de máquinas. Depois ainda temos de moer tudo, porque é mais fácil de consumir em pó. Ano após ano, há cada vez menos clientes. É uma arte em risco de extinção.

 

 

Temos clientes que são amigos de longa data. Conheço-os desde sempre. Estes sim, continuam a vir, confiam nos nossos medicamentos. Alguns já nem vivem em Macau, mas quando cá voltam fazem-nos uma visita. Há gente que até nos liga da Malásia a pedir conselhos do que tomar e a pedir um diagnóstico à distância. Tenho uma cliente cuja filha, que vive no estrangeiro, estava a ter problemas para engravidar. A mãe então veio e levou o medicamento e não tardou para a rapariga engravidar. Ela enviou-nos vários presentes… doces de gengibre e outras coisas. A senhora ficou radiante por poder andar a passear o neto. Temos muitos clientes assim, que confiam em nós e depois tornam-se nossos amigos.

 

 

Hoje em dia quando uma pessoa fica doente, quer logo recuperar. Quem é que tem tempo de ficar em casa à espera de ferver as ervas? Algumas precisam de ser fervidas por pelo menos uma hora. É mais fácil ir a um médico da medicina ocidental e trazer logo um comprimido. Quando se tem dinheiro, a vida é mais fácil. Os mais novos preferem a medicina ocidental e isso põe em risco a continuidade do nosso negócio. Os métodos de confecção dos medicamentos chineses são complexos e demorados. Os resultados também não são assim tão imediatos como com os medicamentos ocidentais.

 

 

Já tenho mais de 70 anos e não tenho muito mais anos de vida pela frente. Mesmo que eu queira muito, sei que no futuro terei limitações nas minhas capacidades e terei de deixar de trabalhar. Os meus filhos não têm interesse em manter o negócio. Estão todos bem empregues no estrangeiro e não tencionam regressar para ficar com a farmácia. O meu marido faz parte da quarta geração e os meus netos são a sexta… Isso quer dizer que este negócio existe já há mais de um século e não vai continuar.

 

 

Este retrato é um dos episódios da série documental Os Resistentes: Retratos de Macau, da autoria do realizador António Caetano Faria.

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