Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
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O hotel chinês de Maputo

 

Texto Marta Curto | Fotos Júlio Dengucho, em Moçambique

 

O hotel chinês. É assim que o Maputo AFECC Gloria Hotel é conhecido na capital moçambicana. Imponente e ocupando uma área de 90 mil metros quadrados, não há como não dar por ele na marginal, uma das zonas mais nobres e caras da cidade.

Embora não seja o primeiro do grupo AFECC a abrir em Moçambique, tendo já sido inaugurado um aparthotel na capital e um hotel na cidade da Beira, este é o empreendimento turístico chinês com mais destaque no país. E o maior hotel de Moçambique.

Considerado um cinco estrelas é, no meio dos demais hotéis com traça colonial portuguesa, um monumento de mármores e madeiras trabalhadas. Na verdade não há nada parecido com o Gloria em Moçambique e logo à entrada os mais incautos são esmagados pela imponência do lobby. Mármore branco e preto, colunas gigantes, balcões do primeiro andar que mais parecem varandas italianas. Lá dentro, um quase silêncio, um quase entrar noutro mundo longe da confusão dos mercados moçambicanos, dos carrinhos de mão empurrados em qualquer esquina, do trânsito infernal da marginal. Do barulho. Talvez seja a imensidão do espaço ou a música chinesa que serve de banda sonora à entrada majestosa, mas a verdade é que logo ali, à entrada, o mundo é um lugar calmo e organizado.

 

 

O hotel começou a ser construído em 2014, depois de assinado um acordo entre o governo de Moçambique e o grupo AFECC (sigla inglesa para Grupo de Construção Económica no Estrangeiro de Anhui) e faz parte do Centro de Exposições Internacionais Joaquim Chissano, também construído pelo grupo chinês, em 2003. O investimento total rondou os 300 milhões de dólares, o que faz do Gloria o maior complexo hoteleiro do país. O AFECC também foi já o responsável pela construção do novo aeroporto internacional de Maputo, o estádio nacional da Matola, ministérios do governo e está a recuperar estradas e pontes em todo o país.

Embora seja um hotel chinês em Maputo, a tradição e cultura milenar chinesa estão presentes sem qualquer tentativa de globalização da oferta. Atrás dos concierges aperaltados com se estivessem num hotel nova-iorquino – mais uma inovação que o Gloria veio trazer a Maputo – um altar budista é abençoado com a queima de incenso e oferta de fruta. Três almofadas no chão indiciam que ali se reza, e Daisy Shi, directora de Vendas e Marketing do hotel, afiança que os 28 funcionários chineses não se limitam a passar por ali todas as manhãs. Pelo contrário, rezam regularmente, pedindo paz, segurança e sorte.

Daisy está em Maputo há dez meses e irá ficar até completar a missão de dois anos. Fala inglês fluente e o sorriso aberto e a simpatia fazem dela uma relações públicas por excelência. “Quis vir para Maputo porque sabia que aqui ia aprender a trabalhar melhor, e queria ter mais experiência profissional antes de me casar”, disse à MACAU. Tal como a maioria dos funcionários chineses que trabalha no Gloria, Daisy vem da província chinesa de Anhui, de onde o grupo hoteleiro é originário. Embora admita que gosta de viver em Maputo, não é ali que quer ficar. A China é a sua meta após o casamento.

 

 

De collants de vidro apesar dos 40 graus na rua, Daisy comanda o seu exército de 200 funcionários moçambicanos e 28 chineses de rádio na mão. Hesita em admitir que o hotel está com uma ocupação baixa, mas logo se justifica com o facto do hotel ser recente, e apronta-se a elogiar a prestação do restaurante chinês, com bastante sucesso.

Com 258 quartos, todos virados para o mar, o Maputo AFECC Gloria Hotel é um empreendimento arriscado na capital moçambicana, sobretudo numa época de crise. Ainda assim, as portas do hotel abriram em Outubro de 2016 com toda a pompa e circunstância que a presença do presidente da república de Moçambique, Filipe Nyusi, exigia. No fim da visita protocolar, o presidente disse que esperava que o hotel servisse para atrair mais investidores ao país. “Queremos urgentemente fazer mais, de forma célere e melhor. A nossa visão é que, até 2025, Moçambique passe a ser um destino turístico de eleição, mais exótico de África, famoso e atraente”, disse na altura. Em resposta, Wang Lipei, o conselheiro económico da embaixada chinesa em Moçambique afiançou que “os empresários chineses têm confiança em Moçambique. Creio que haverá mais chineses a virem investir neste país e desenvolver Moçambique junto com o povo moçambicano”. E por isso, não é com um sentimento de fracasso que Daisy fala nos quartos (ainda) vazios do hotel. Pelo contrário, o seu tom é de segurança num futuro promissor e próspero.

 

 

Futuro próspero

Ainda se ouve o som de obras em algumas alas do hotel. Brevemente está prevista a abertura de um restaurante de comida continental, uma sala de chá, uma discoteca, um casino e um centro comercial. Por enquanto, apenas o restaurante chinês serve almoços e jantares, e o buffet está reservado aos pequenos-almoços.

Embora o restaurante feche às 21h30, bastante cedo mesmo para Maputo onde normalmente tudo fecha às 22h30 durante a semana, já atrai bastantes curiosos. Não é o primeiro restaurante chinês na cidade, mas é decerto o mais selecto. Para além da zona comum, tem 14 salas privadas e dois espaços de karaoke com capacidade para 50 e 60 pessoas, respectivamente.

Com gastronomia Hui, Yue e Chuan, o restaurante oferece mais uma experiência do que uma simples refeição. Os pratos vêm com fotografias no menu e têm nomes tão sedutores como Garoupa Deliciosa (ao vapor com molho de soja), ou Sopa Azeda e Picante (com chilli e tofu). Os habituais spring rolls lá estão, mais as massas chinesas e o arroz disto ou daquilo. Mas também algumas delícias de quem conhece a verdadeira cozinha chinesa como os dumplings e o pão ao vapor com recheio de ovo. Surpreendentemente, a maioria dos ingredientes é de origem local; apenas alguns mais selecionados têm de ser importados da China. “Escolhemos estes pratos típicos porque são os menos diferentes do que é o paladar moçambicano. Não vale a pena apresentarmos um prato muito picante que não será agradável para quem não está habituado”, explica Sam Huang, o vice-director do hotel. Sam está em Moçambique há seis anos e trabalhou antes no aparthotel do grupo em Maputo. Mas fala pouco português e nada de inglês. Admite gostar muito de Moçambique, nomeadamente do clima, da comida, das pessoas, mas nem por isso traz a família para este país africano. “Estou aqui para trabalhar”, diz, admitindo que vai à China uma vez por ano, normalmente no Ano Novo Chinês.

 

 

Cultura em massagens

O spa do hotel é também uma das melhores formas de apresentar a cultura asiática. Embora o espaço respire calma e tranquilidade, no menu não existem massagens delicadas. Wararat Boonthai e Ratanavalee Areesanan, de 21 e 31 anos respectivamente, são duas das quatro massagistas tailandesas do spa. O grupo chinês opta em todos os seus hotéis por profissionais da Tailândia, e Maputo não é excepção. Pés, cabeça, ombros, costas. Todas as massagens são feitas com força e os clientes saem dos gabinetes revitalizados e alongados. Ali ninguém faz festinhas com óleos. Massajam-se os músculos com energia e perícia. Tímidas mas sorridentes, as massagistas contaram à MACAU que vieram directamente de Chiang Mai para Maputo, seleccionadas por um responsável do grupo AFECC para vir para o Gloria. Na capital moçambicana, admitem ganhar mais e gostarem de aqui viver, apesar das saudades da família que não conseguem trazer. Ambas chegaram à capital moçambicana em Outubro, na altura da inauguração do hotel, e ambas dizem não ter planos para regressar a casa.

Quem também agradece a oportunidade é Fernando Cherinda, de 29 anos. Hoje é responsável por toda a área da recepção, contando assim com 22 pessoas a seu cargo. E, quando se candidatou a uma vaga no hotel Gloria, a sua experiência em hotelaria era apenas ligada à área da restauração. “Realmente trabalhar com chineses é uma experiência muito diferente. A maioria das pessoas que aqui está não tinha experiência na área. Eu próprio não conhecia a recepção, mas era o que eu queria. Perguntaram-me quando me candidatei, e foi o que respondi: Recepção. Então aceitaram. Comecei apenas como recepcionista, mas viram o meu empenho e promoveram-me rapidamente. Mais do que o currículo penso que os chineses vêem a vontade e potencial das pessoas”, admite Fernando, de sorriso rasgado.

 

 

Sam Huang recorda a formação do pessoal como um processo poliglota. “Vieram especialistas em recursos humanos do grupo, e esses falavam inglês. Encontramos pessoas que fizessem a tradução e assim se dava a formação”, conta a sorrir.

O fim da visita faz-se pela suite presidencial que custa mais de 3000 dólares por noite, e estende-se por salas, escritório, quarto e casas de banho. Imponente talvez seja uma descrição humilde da suite. Enormes móveis brancos lacados criam os espaços de luxo até agora vazios. Lá em baixo, a marginal continua movimentada. O plano futuro, quando a crise económica abrandar, é de reabilitar toda a marginal. Estão ali previstos hotéis, condomínios, restaurantes e zonas de lazer. Mas, mesmo nessa altura, dificilmente o hotel chinês passará despercebido.

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