Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
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O imaginário mundo real de Wong Cheng Pou

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

“A agitação faz parte”, diz Wong Cheng Pou. E quando fala em agitação não esconde que sente angústia e felicidade ao mesmo tempo. O artista de 60 anos, admite que pouco tem dormido. Puseram-se as férias do Natal, seguindo-se os feriados da mais longa e importante festividade da China, o Ano Novo Chinês, e Wong andou atarefado visando o envio para Veneza de todo o projecto em Março.

Encontramo-nos no final de Janeiro no ateliê Art Square, ao lado do Centro Cultural de Macau, onde o artista e também presidente do Centro de Pesquisa de Gravura está a trabalhar. O espaço, amplo, não tem ninguém neste sábado de Inverno, e de sol. Máquinas de gravura ocupam um canto da sala, num quadro branco estão pendurados desenhos, esquissos, fotografias, folhas de jornal, notícias de Macau, de Hong Kong. Wong pousa o computador pessoal na longa mesa de tampo branco. Sentamo-nos.

 

 

“Aqui está a família”, aponta. Várias esculturas aparecem alinhadas numa fotografia no ecrã do computador: um homem-pão, dois homens-ovo, os três homens do buraco, o senhor Yam, um pato, um porco, um bonsai, um homem iluminado, uma serpente-coração, uma seta.

As 13 esculturas representam o mundo imaginário de Wong, podem ser brinquedos, pode nem haver uma explicação. “Por que razão é necessário entender o que é para entrar numa peça de arte?”, pergunta-me.

 

 

Num texto introdutório, Wong Cheng Pou escreve: “No mundo, tudo é mais numeroso e complicado, as pessoas sentem-se confusas ao movimentarem-se entre as brechas de cidades lotadas. E eu tenho sorte de viver algures perto do mar, lugares altos que visito sempre que posso, onde me sento sem nada fazer, só a observar as montanhas encantadas”.

Wong procura aproximar-se da natureza, admite a necessidade de criar um mundo que não existe, ao invés de pegar naquilo que é real. “Como não encontro nada assim, então imagino”, reflecte. Ideias que o transportam até ao universo e “às criaturas que, de forma excêntrica, tomam conta dos mares e das montanhas na obra O Clássico das Montanhas e Mares de Shan Hai Jing, compilada entre 500 a.C e 200 a.C, e que fala de geografia, mitologia, bruxaria, costumes locais”.

 

 

Cabe ao bonsai liderar esta família que vai levar a Veneza. “O bonsai do meu sonho”, como baptizou a peça, tem numa das extremidades uma torre fina, elegante, é a Torre de Macau, um dos poucos elementos que nos fazem relacionar o projecto com a cidade onde estamos. Projectada com quase três metros, esta escultura teve de ser reduzida para “se adaptar ao espaço em Veneza”, revela. “O bonsai era um dos prazeres dos intelectuais, plantavam-no no quintal, representava uma espécie de mundo interior, ao qual davam uma forma especial, fazendo migrar pedras, flores e ramos de outras grandes árvores através de técnicas antigas. Eles criavam um mundo, onde pudessem viver”, recorda.

Uma série de pinturas e de instalações completa ainda o projecto de Wong para o espaço de Macau em Veneza. Para isso, o artista trabalhou com uma vasta equipa de artistas e técnicos espalhados por ateliês em Macau, Hong Kong, Interior da China e Malásia.

 

 

O escolhido

À semelhança das edições anteriores da Bienal de Veneza, coube ao Museu de Arte de Macau (MAM) seleccionar “um artista activo nos círculos artísticos locais, com realizações notáveis tanto em termos de produção artística como de contributo para a promoção das artes e um ícone entre os artistas contemporâneos”. O júri, que incluiu Chan Hou Seng (director do MAM), António Conceição Júnior (consultor de arte do mesmo museu), Hsu Hsiu-Chu (directora da Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau), o artista Wong Ho Sang e o curador Ng Fong Chao escolheram o nome de Wong Cheng Pou entre uma lista de 40 artistas. A escolha “reuniu consenso entre os membros do júri”, revelou à comunicação social o Instituto Cultural de Macau.

“Esta bienal não é algo a que se possa concorrer, é-se escolhido”, reage agora o artista, admitindo estar “satisfeito” por ter sido seleccionado.

A 57.ª Bienal de Veneza realiza-se entre 30 de Maio e 26 de Novembro e tem como tema “Viva Arte Viva”. A mostra teve início em 1895 e Macau participou pela primeira vez em 2007. De acordo com o Instituto Cultural, só na edição passada, o Pavilhão de Macau atraiu mais de 60 mil visitantes.

 

 

Wong Cheng Pou, que será o 15.º artista a representar a cidade, nasceu em Macau em 1960. Premiado com o Sovereign Asian Art, em 2010, foi também reconhecido como um dos 30 artistas de topo da Ásia. Wong esteve envolvido no desenvolvimento da educação artística local, dedicando-se desde os anos 1990 ao ensino de gravura. Trabalhou como assistente de investigação na Escola de Belas Artes Slade, do University College de Londres, e é actualmente presidente do Centro de Pesquisa de Gravura de Macau e curador-chefe da Trienal de Gravura de Macau.

No passado, exerceu funções na área da investigação e museologia do então Leal Senado (hoje Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais), foi chefe do departamento de Gravura da Academia de Artes Visuais (actualmente a Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau), que ajudou a criar, e coordenador da Exposição Etnográfica no antigo Museu Luís de Camões. Com obras espalhadas por vários museus e unidades hoteleiras da região e do mundo, Wong Cheng Pou já expôs em vários países, como no Japão, Reino Unido, Bélgica ou Portugal.

 

Religião, natureza e Bartolomeu Cid dos Santos

“Na minha infância fui educado numa escola católica, associo os trajes religiosos a uma espécie de misticismo fantástico, é neles que encontro o que mais gosto nos meus deuses imaginários.” Este excerto, escrito por Wong Cheng Pou, faz parte ainda da introdução ao trabalho que vai apresentar em Veneza e revela a influência que o Colégio Ricci, estabelecimento religioso onde estudou desde pequeno, teve no seu desenvolvimento artístico. Wong recorda-se desse espaço, que se debruçava sobre a água, lembra-se que jogava futebol ali mesmo, à volta havia árvores, não o trânsito de hoje. Em casa, não tinha televisão. Wong ia ao cinema, lia banda desenhada. “Não havia entretenimento barato”, recorda.

A gravura apareceu quando ainda era novo, foi numa exposição de Mui Chong Ki na então galeria do jornal Va Kio. “Mal me recordo do conteúdo, mas fiquei tão interessado na técnica, era como se estivesse a carimbar, e era tão complicado, que comecei a fazer eu mesmo, utilizava borrachas.”

Terminado o ensino secundário, Wong Cheng Pou mudou-se para Hong Kong, onde, ao longo de dois anos, frequentou cursos de arte, design e gravura. Vivia em Wanchai, trabalhava no restaurante do Yacht Club. De lado ficou Nova Iorque, ficou Paris, ou por falta de dinheiro ou por não dominar a língua francesa, e aos 21 anos acabou por optar pela capital japonesa, Tóquio, onde prosseguiu os estudos em artes visuais. “No Japão aprendi muito ao nível pessoal, sobre a forma como te relacionas com a natureza.”

Antes de se fixar definitivamente em Macau, Wong Cheng Pou viveu ainda no Reino Unido, onde esteve a convite do investigador, pintor e gravador português Bartolomeu Cid dos Santos (1931–2008), na altura director do departamento de gravura da Escola de Belas Artes Slade, do University College de Londres. Aí foi assistente de investigação. Wong volta a abrir o álbum digital que preparou para esta entrevista. Numa das fotografias, que data de 1994, aparece a trabalhar numa máquina de gravura. “Estou a imprimir uma recordação para a princesa Ana [filha da rainha Isabel II], a quem pertencia a universidade, e que está na fotografia. Para mim foi uma honra, e ele [Bartolomeu Cid dos Santos] dizia, ‘tens de guardar esta fotografia, é muito importante, um dia vais precisar’”, recorda.

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