Sexta-feira, Maio 29, 2020
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Os filhos do pop

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

À mesa de um restaurante italiano no maior casino do mundo fala-se de música pop, de ídolos.

– “Wang Leehom de Taiwan, é bem-parecido, tem talento, toca vários instrumentos”, afirma Hyper Lo.

– “Joey Yung de Hong Kong”, diz em seguida AJ (nome profissional de Adriano Jorge).

É a vez de Josie Ho:

– “Temos gostos semelhantes, embora eu não tenha um sentimento forte em relação a ídolos. Também gosto da Joey Yung, é versátil, continua a progredir de dia para dia, tem boa aparência.”

– “É da cirurgia plástica”, brinca Hyper.

– “Muitos músicos de Hong Kong, até de Macau, querem melhorar a imagem e ficar parecidos com os cantores coreanos”, completa Josie Ho.

Hyper, AJ e Josie são músicos de Macau, estão à frente da SP (Super Partners) Entertainment, uma empresa que, além de promover o trabalho dos três artistas, gere eventos, serve de agente, produz microfilmes.

À hora do almoço, uma luz branca e forte de início de tarde ilumina a pequena mesa de quatro lugares onde nos sentamos. AJ e Josie trabalham neste hotel-casino. Aparecem maquilhados, traço preto nos olhos; Hyper chega um pouco depois da hora marcada, traz um boné, que tira ao sentar-se.

“Podemos levar roupa smart casual“, tinha escrito Josie por mensagem há uns dias enquanto combinávamos este encontro. É apenas mais um dia qualquer neste restaurante italiano. Ao meu lado estão três artistas de Macau, se alguém dá por isso, não se nota. “Vivemos numa cidade pequena, as pessoas são amigas, não sentem essa distância entre elas e as celebridades”, explica a jovem cantora.

Josie é relações públicas, AJ está no departamento de marketing, Hyper é dos poucos artistas de Macau que trabalha na área da música a tempo inteiro. Em comum têm o cantopop.

“Nos anos 1980 e 1990, a indústria musical de Hong Kong atingiu o auge com artistas como Alan Tam, Anita Mui, Jacky Cheung, Leslie Chan”, comenta Josie. “Foram estas pessoas que despertaram o meu interesse pela música, que puseram a indústria de Hong Kong num patamar altíssimo, com letras traduzidas para várias outras línguas”, completa AJ.

Os três jovens de Macau trabalham juntos há cerca de dois anos, cada um tem um álbum a solo gravado. No currículo constam ainda vários projectos em conjunto. Em Novembro passado lançaram uma compilação de dez temas produzidos para associações e grupos locais. O videoclipe de Let’s get it on, uma das músicas deste álbum, já está disponível no YouTube – tem mais de 13 mil visualizações. O tema, criado para o espectáculo de dança do leão de uma associação desportiva de Macau, tem coreografia de Don Choi do Estúdio de Dança Zeal. Hyper, Josie e AJ aparecem a dançar entre um grupo de dançarinos. Na coreografia, estão incorporados movimentos da dança do leão. Mais recentemente filmaram ainda “Super Partners” com o apoio de uma concessionária de jogo americana. O vídeo, disponível no canal YouTube, tem também perto de 13 mil visualizações.

 

 

Concursos para começar

Casimiro Pinto ficou para a história como um dos pioneiros do cantopop em Macau. Estávamos em meados dos anos 1990, quando o macaense lançou o primeiro álbum de músicas originais escritas em cantonês. “Diria que a fase seguinte começou com a criação [em 2003] dos Prémios de Música Pop da Teledifusão de Macau (TDM)”, nota Hyper Lo. E relembra: “Eram necessários pelo menos dez temas originais para o concurso, então ligavam a toda a gente que conheciam e perguntavam ‘tens uma música nova?’”. Ao longo dos últimos 15 anos foram passando pelos palcos da TDM vários artistas locais – Siu Fay e os irmãos Soler são apenas alguns dos músicos que participaram nas primeiras edições. Hoje, se há uma característica comum a praticamente todos os artistas pop de Macau é a passagem por competições musicais.

Josie Ho, formada em jornalismo nos Estados Unidos, participou no primeiro concurso de talentos de música em 2004 e foi vencedora da edição de 2013 dos Prémios de Música Pop da TDM. Também AJ, licenciado em marketing, finanças e japonês por uma faculdade australiana, participou no Concurso Internacional de Novos Talentos Chineses de Música, em Melbourne.

“Eu diria que 95 por cento dos cantores locais passaram por concursos”, refere Carmen Wong, secretária-geral da Associação de Artistas de Macau. A organização, estabelecida há três anos, ajuda a promover o trabalho dos artistas de Macau através de uma série de actividades e eventos de caridade. Estão inscritos cerca de 100 sócios, entre músicos, actores, DJ e mestres de cerimónia; apenas 20 dedicam-se à profissão a tempo inteiro, dez estão ligados ao cantopop.

 

 

Revolução digital

A Chessman Entertainment and Production é uma empresa que trabalha na área da produção musical e formação de músicos e profissionais de palco. Fundada por três sócios em 2001, conta hoje com uma equipa de 50 trabalhadores e um escritório em Hong Kong. Visitamos a empresa parceira – a Chessman Music Industry, estabelecida em 2014 em Macau, que o compositor Pun Kuan Pou, um dos fundadores, nos faz uma visita guiada pelas instalações. Num dos estúdios de gravação, senta-se ao piano, deixa-se estar aí a tocar por uns minutos. É um piano de cauda da marca austríaca Bösendorfer. Foi herança do tio, professor de piano em Macau.

Entre 2007 a 2009, Pun Kuan Pou recebeu uma bolsa do governo local para estudar Música Popular na Universidade de Griffith, Conservatório de Queensland, em Brisbane, Austrália. “É um curso com poucos anos e um conceito completamente novo, que está focado sobretudo na produção, tecnologia de gravação, engenharia de som e composição.”

Inicialmente Pun queria ser músico, mas acabou por escolher uma vida de bastidores, ligada à produção e composição. “Estão aqui alguns dos meus trabalhos”, diz, enquanto entramos no gabinete onde trabalha. No computador, tem já preparada uma lista de canções, que ficamos a ouvir em silêncio. Primeiro é Elisa Chan, depois KylaMary Ma. “Hoje passa tudo pela Internet”, acaba por interromper. “A forma de comunicação está a mudar completamente, existem telemóveis, websites, escolhe-se simplesmente o que se quer ouvir”.

Foi a televisão de Hong Kong que permitiu nas últimas décadas ao público de Macau entrar e manter o contacto com o cantopop. O canal em chinês da Rádio Macau levou também às casas da cidade o que se fazia localmente. “Mas não bastava”, refere o responsável. Os novos média permitiram um contacto permanente entre a música e o consumidor final.

“Nós estamos no iTunes, no KK Box, uma plataforma de música de Taiwan, estamos em plataformas de Hong Kong e ainda casas de karaoke”, refere Hyper Lo, director da SP Entertainment.

Mas se por um lado foi a tecnologia que permitiu esta proximidade do público à música, por outro, reflectiu-se também na qualidade artística. Nas gravações “utiliza-se muito auto tune, corta-se aqui, corta-se ali e cantas como a Whitney Houston”, sublinha Germano, artista da Chessman.

 

 

Letras de amor

Ainda de regresso à lista de canções de Pun Kuan Pou. Sem uma árvore, de Elisa Chan, foi uma das músicas vencedoras da edição de 2015 dos Prémios de Música Pop da TDM. O título foi buscar inspiração a um poema budista, a letra fala de amor, de escolhas erradas, do destino. “É cantopop?”, pergunto. “Não gosto de rótulos, talvez seja cantopop, porque é cantado em cantonês, mas não estou ligado a um género específico. Nos Estados Unidos, se fazes hip-hop, só fazes hip-hop. Em Macau, se te focas apenas num estilo, não sobrevives”, diz o produtor. E por razões culturais, continua Pun, histórias de amor e de relações são recorrentes neste género musical. “Os chineses são emocionais enquanto nação, as relações são um tema que nos interessa, porque está ligado ao conceito de família e, para os chineses, ter uma grande família é ter uma vida afortunada.”

Perto da Chessman, aí a uns dez minutos a pé, estão os escritórios da Like Entertainment, outra empresa ligada à produção musical. É no quarto andar de um edifício alto da Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, no NAPE, que nos encontramos com Sunny Chio, director executivo da empresa, e Alex Ao, estudante de Turismo e músico a tempo parcial. Um retrato a preto e branco de Marylin Monroe cobre uma das paredes da pequena sala de reuniões. À frente, colocaram um microfone, uma imitação de um daqueles mais antigos, anos 1920, talvez.

Sunny Chio conheceu Alex Ao num concurso de talentos. Alex gostava de cantar músicas lentas. “Mas começámos a trabalhar em temas mais ritmados, porque são esses que têm mais saída em eventos”, explica o director. No entanto, Sunny admite que, por razões culturais, é dada mais importância à letra de uma música do que à melodia. “Durante a Dinastia Tang, foram poetas como Li Bai que ganharam fama, e não aqueles que tocavam instrumentos.” No que diz respeito à temática, Alex Ao realça que nos concursos de talentos em Macau é dada preferência a “temas positivos”. “Existe essa expectativa”, diz.

 

 

O exemplo coreano

“Noventa por cento dos músicos de Hong Kong são subsidiados pela China e cantam em mandarim”, afirma Hyper Lo, músico e responsável pela SP Entertainment. Para quem quer entrar no gigante mercado chinês, a pressão para o fazer é cada vez maior. Diz quem sabe. Casimiro Pinto é considerado o primeiro músico de Macau a assinar um contrato com uma produtora do Interior do País. Depois de o fazer, não voltou ao cantonês. “Na China não há mercado para o cantonês”, garante.

Em Macau existe, ainda assim, um grupo de artistas que quer contrariar essa tendência. “Se Macau e Hong Kong não o fizerem, então ninguém o fará”, realça o responsável da Like Entertainment, Sunny Chio, para quem a manutenção do cantopop “é uma missão”. Também Pun Kuan Pou, produtor da Chessman, defende a preservação da música em cantonês. Põe as coisas da seguinte forma: Se o pop coreano conquistou a China, por que não o fará o cantopop? “A Coreia conhece o poder da arte, o alcance de uma estrela. Criou estrelas pop, que inspiraram o público e que o levou a consumir.”

A Coreia pode, além disso, servir de exemplo para pensar numa nova estratégia para o desenvolvimento do sector em Macau. Não existe mercado, quem trabalha na área vive sobretudo de apoios governamentais e de convites para cantar em eventos associativos, como explica Josie Ho. “Macau tem milhares de associações que organizam eventos quase à base diária e que procuram artistas para actuarem.” Mas Hyper Lo quer ir mais longe. Defende, por isso, um maior envolvimento do sector empresarial na indústria do entretenimento. Como tem acontecido na Coreia do Sul. “Os músicos associam-se e trabalham com grandes marcas e é isso que estamos a tentar fazer.”

 

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À sombra de Hong Kong?

Hyper Lo, director executivo da Like Entertainment, ainda se lembra de assistir nos anos 1990 a espectáculos com músicos locais e de Hong Kong. “O público só queria ouvir os artistas de Hong Kong, vaiava os de Macau”, conta. E recorda Maria Cordero, cantora e apresentadora nascida em Macau, e que fez carreira em Hong Kong. “Ela contou-me que quando começou olhava-se de lado para os músicos de Macau e que, por isso, a geração mais velha não gostava de ser identificada como sendo daqui.”

Sunny Chio, director executivo da Like Entertainment, diz que ainda hoje a RAEM é vista como “um lugar pequeno, de desenvolvimento lento” e que esta imagem se reflecte negativamente no sector artístico: “Os casinos acabam por procurar artistas internacionais, o público-alvo é do Interior da China e, por isso, preferem artistas reconhecidos ou estrangeiros, que façam passar uma imagem de sofisticação”.

Já para o produtor da Chessman, Pun Kuan Pou, falta “aos cidadãos de Macau o desejo de ter a própria música e de alguém que os possa representar”. É uma “questão de orgulho”, refere.

Mas com a indústria saturada em Hong Kong e a falta de oportunidades, são vários os músicos de Macau que têm optado por regressar à cidade onde nasceram. O boom económico pós-transição é visto como um possível aliado dos artistas. Germano Guilherme, músico da Chessman, passou os últimos seis anos em Hong Kong. Ao lado de Maria Cordero, o macaense trabalhou como artista na ATV, o mais antigo canal televisivo do mundo com emissões em chinês e que fechou as portas em Abril do ano passado. À semelhança de outros músicos locais que fizeram carreira em Hong Kong – Siu Fay é um deles – Germano optou por voltar a Macau. “Em Hong Kong vê-se muita coisa, experimenta-se muita coisa, mas a oportunidade não chega à tua porta.” Macau, realça, é casa e pode ser uma porta para o mundo.

 

 

 

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Era uma vez em Hong Kong

 

O cantopop, nome pelo qual é conhecida a música popular em cantonês, teve origem em Hong Kong nos anos 1970, atingindo o auge nas duas décadas seguintes. O termo surgiu pela primeira vez em 1978, inspirado num outro termo, o cantorock.

Um documento publicado em 2007 por ocasião da organização da exposição “Percorrer uma onda de melodias: o desenvolvimento do cantopop em Hong Kong”, que se realizou no Museu do Património de Hong Kong, traça o desenvolvimento deste género musical ao longo dos tempos.

 

Após a II Guerra Mundial

Uma vaga de emigração de famílias abastadas de Xangai levou para Hong Kong formas de entretenimento da terra natal. As músicas em mandarim, consumidas pela classe alta chinesa, foram ganhando espaço em rádios e bares da cidade. Hong Kong gozava de estabilidade política e social e várias culturas populares do exterior encontraram aqui um espaço de divulgação. As massas permaneciam fiéis à clássica ópera cantonense.

Anos 1960

Em Hong Kong, as camadas mais jovens, influenciadas pelo disc-jockey da estação de rádio RTHK Ray Cordeiro, de descendência portuguesa, começou a desenvolver uma paixão pela música popular ocidental. A visita dos Beatles em 1964 teve um impacto forte entre os jovens de Hong Kong, que começaram a formar bandas de música.

 

Início da década de 1970

O cantopop encontrava-se ainda numa fase inicial, com pouco interesse entre a classe alta chinesa e a mais jovem. O consumo deste género musical ganhou força entre as camadas populares de Hong Kong e as comunidades chinesas de Singapura e da Malásia. Nesta fase inicial, o cantopop incluía covers de peças de ópera cantonense, bandas sonoras de cinema ou teatro radiofónico.

 

Década 1970

A estabilidade económica levou a um aumento do poder de compra e do espaço para a promoção da cultura local. Políticas públicas lançadas em Hong Kong, como o Plano de Habitação a dez anos e o regime de Educação Gratuita de nove anos, trouxeram maior estabilidade à região e as gerações mais novas já não se viam apenas como visitantes temporários ou refugiados de passagem. Esta identificação com a cidade ganhou voz através da cultura popular.

Também um maior acesso à televisão por parte dos agregados familiares exerceu influência no consumo do cantopop. Músicas como a Ironia Fatal, o tema principal de uma série televisiva transmitida em 1974, alcançaram enorme sucesso. O fenómeno era para as grandes empresas discográficas revelador do imenso potencial do cantopop.

A ascensão da música popular coincidiu com a política de abertura da China e temas em cantonês foram sendo introduzidos no país pelos visitantes de Hong Kong. Também no Sudeste Asiático encontraram-se novos mercados.

Foi durante esta altura que se começaram a generalizar os concursos de talentos musicais. Cantavam-se temas de amor, canções moralizadoras sobre a sociedade, vida e filosofia. Criava-se em torno dos artistas uma imagem de culto.

 

Décadas de 1980 e 1990

A ascensão do cantopop não teria sido possível sem os avanços da tecnologia. Dos discos vinil até aos CD, a tecnologia estreitou a relação entre a música e o consumidor. O karaoke, conceito japonês, foi introduzido em Hong Kong e teve sucesso imediato.

De acordo com o IFPI Hong Kong, empresa que representa a indústria musical local internacionalmente, em 1980, um álbum poderia ganhar um disco de ouro se as vendas anuais alcançassem as 25 mil unidades; o critério para um disco de platina era de 50 mil unidades. Nesse mesmo ano, o IFTP atribuiu 13 discos de ouro e 17 discos de platina a artistas locais. Já em 1988, os números tinham saltado para 23 discos de ouro e 62 de platina.

Foi na década de 1980 que abriu o estádio de Hong Kong, em Hung Hom. Com uma capacidade de 12 mil lugares, tornou-se no lugar preferencial para concertos pop. Um concerto a solo era o objectivo de todos os cantores e muitos fizeram-no, incluindo Samuel Hui, Paula Tsui, Alan Tam, Leslie Cheung e Anita Mui.

A indústria cinematográfica de Hong Kong, que prosperou entre as décadas de 1970 e 1990, impulsionou a expansão da música popular em cantonês. Sucessos de bilheteira levaram a música para fora da região.

 

Novo milénio

A globalização, os avanços tecnológicos e o desenvolvimento da Internet tomam nova forma neste novo século. A emergência dos novos média trouxe novas funções à música popular, permitindo às produtoras a criação de apenas uma música e não de um álbum. Na rua, os telemóveis começaram a tocar temas de cantopop. Mas a música pop acabou por se ressentir, muito também devido ao download ilegal, o que se veio a reflectir no número das vendas, que desceu dos 17 mil milhões de dólares de Hong Kong, em 1997, para 0,56 mil milhões, em 2006.

O documento do Museu do Património de Hong Kong aponta ainda que nos anos mais recentes, o cantopop tem sido associado a temas de amor, dirigidos aos mais novos, sentido dificuldades em diversificar o seu público.

Já notícias recentes avançam, porém, que com a emergência do “localismo” em Hong Kong – um sentimento partilhado pelos locais que querem preservar valores locais e culturais – o cantopop poderá estar a renascer.

 

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CINCO ESTRELAS

Leslie Cheung

Leslie Cheung nasceu em 1956 e é considerado um dos pais fundadores do cantopop. Ícone do pop de Hong Kong na década de 1980, foi premiado em várias ocasiões na área da música e do cinema. Leslie está entre os músicos estrangeiros que mais concertos fez no Japão e o artista de cantopop que mais vendeu na Coreia do Sul. Em 2003, atirou-se do 24.º andar do hotel Mandarim Oriental, deixando uma carta de despedida onde escrevia que sofria de depressão.

 

Anita Mui

Cantora e actriz de Hong Kong, Anita Mui é ainda hoje considerada a “Diva do cantopop”. Também conhecida como a “Madonna asiática”, Mui esgotou concertos em Londres e manteve-se na ribalta ao longo de 21 anos.

A artista nasceu em 1963 e era a irmã mais nova de Ann Mui, também cantora e actriz. Anita revolucionou a música pop na antiga colónia britânica com a forma sensual de dança em palco e roupas ousadas. Morreu aos 40 anos, em 2003, de doença prolongada. Deixou um legado na área do cinema e da música, mas também na área social, tendo-se destacado pelo trabalho humanitário que desenvolveu.

 

Eason Chan

Actor e músico, Eason Chan nasceu em 1974 em Hong Kong. É considerado um dos três deuses da música pop de Hong Kong, a par com Samuel Hui e Jacky Cheung. Aos 12 anos, foi viver para Inglaterra e foi aí que completou a licenciatura em Arquitectura. Em 1995, venceu o Concurso de Novos Talentos Musicais em Hong Kong, assinando logo de seguida com a Capital Artists. Vencedor de múltiplos prémios, Eason Chan foi o segundo músico não taiwanês – depois de Jacky Cheung – a vencer os Taiwan Golden Melody Awards. Toca vários instrumentos, incluindo piano, violino, acordeão, baixo, guitarra e bateria.

 

Joey Yung

Nasceu em 1980 e tinha apenas 15 anos quando participou no Concurso de Música Big Echo, em Hong Kong. Dessa participação resultou a assinatura de um contrato com a Go East Entertainment. A parceria não resultou e só em 1999 Yung viria a relançar a carreira com o Grupo Emperor Entertainment. Foi a partir daí que ganhou visibilidade e uma série de prémios, incluindo o prestigiado Jade Solid Gold Best Ten. Em 2014, a Forbes considerou Yung a 63.ª celebridade mais influente da China, entre um grupo de 100 personalidades.

 

Jacky Cheung

Filho de emigrantes chineses, Jacky Cheung, cantor e actor, nasceu em Hong Kong. Com mais de 25 milhões de álbuns vendidos até 2003, Jackie Cheung canta em cantonês, mandarim e inglês. É conhecido pelo timbre de barítono. Tudo começou quando derrotou dez mil candidatos e ganhou o concurso musical Amateur 18-Hong Kong, em 1984, com o tema Fatherland. Assinou com a Polygram Records, a actual Universal Music Group. Dos álbuns de maior sucesso contam-se o True Love Expression e o Love Sparks, lançados em 1992.

 

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Miro, o tradutor de Macau que caiu nas graças da China

 

É tido como o primeiro músico local a assinar um contrato com uma empresa discográfica do Interior do País. Casimiro Pinto, conhecido no mundo da música como Miro, foi lançado após a transferência de administração, em 1999, como símbolo da convivência secular entre chineses e portugueses em Macau. Em Pequim, o músico, filho de pai português e de mãe chinesa, lançou cinco álbuns. Todos em mandarim.

A última vez que Casimiro Pinto preencheu as páginas dos jornais de língua portuguesa de Macau foi em 2009, quando se candidatou a um lugar de deputado à Assembleia Legislativa pela “Voz Plural, Gentes de Macau”. A lista, que não conseguiu eleger nenhum dos candidatos, acabaria por cair no esquecimento. Assim como o nome de Casimiro Pinto.

Encontramo-nos no gabinete onde trabalha. Tradutor de formação, o macaense é chefe do departamento dos assuntos linguísticos dos Serviços de Administração e Função Pública de Macau (SAFP).

Casimiro Pinto está entre a papelada, vai assinando uma série de documentos. Encostada à parede, na estante, estão fotos de família. Da janela, vê-se Macau, cá de cima o centro da cidade parece ainda mais velho do que é, falta-lhe cor. Lá ao fundo, do outro lado do rio, vê-se a China a crescer. “Já deixei o mercado da China há muitos anos, mas ainda hoje não vejo um cantor de Macau no mercado chinês.”

 

De Barry Manilow ao pop de Hong Kong

As primeiras memórias são canções chinesas. São da mãe, nascida na Província de Guangdong e que morreu quando Casimiro tinha apenas 12 anos. Casimiro Pinto era filho único, e o pai, português, era militar, estava sempre ocupado. Foi assim que a música entrou na vida deste macaense. Quando chegava da escola, punha “aqueles discos grandes e pretos” a tocar, cantava para acompanhar, agarrava-se a essas baladas. “Sentia-me aliviado, ajudava a superar a perda”, conta.

Foi também por volta dessa altura que começou a ter aulas privadas de canto e de piano, mas admite que “estava mais virado para a música pop“. O pai ouvia Elvis Presley, Beatles, ABBA, adorava Barry Manilow. Casimiro também. Mas a maior influência acabou por ser o pop cantonês, as músicas de Hong Kong das décadas de 1970 e 1980. Foi Danny Chan, Alan Tam e Leslie Cheung, também foi Jacky Cheung. “Era o que se ouvia em Macau”, relembra. E era o que se cantava. “Na altura havia uma competição de música, um evento enorme com bons músicos, mas que cantavam temas de Hong Kong e eu achava estranho o facto de não serem temas originais.”

Em 1995, Casimiro, então com 25 anos, lança o álbum “Miro” num concerto que foi transmitido em directo pela Rádio Macau. O espectáculo realizou-se no então Fórum de Macau, actual Centro de Actividades Turísticas. Casimiro conta que estavam presentes cerca de 800 pessoas. A produção deste primeiro álbum de músicas originais em cantonês custou cerca de 100 mil patacas e foi Miro que pagou do próprio bolso. Poderia ter ficado por aí, não fosse um dia a China bater-lhe à porta. Corria o ano de 1999, estávamos perto da transferência de administração. Wu Song Jing, produtor da China Records, apareceu em Macau à procura de um músico para interpretar um tema sobre a transição. “Encontrou um póster desse álbum de 1995, ficou muito entusiasmado porque tenho sangue chinês e português e, por isso, achou que eu era a pessoa indicada para interpretar o tema.” Canção de Amor de 1999 foi o resultado dessa primeira cooperação com o outro lado da fronteira.

 

Lançado pela televisão chinesa

Miro entrou no novo milénio com o pé direito. A Canção de Amor de 1999 levou-o nesse mesmo ano à Gala do Ano Novo Chinês do canal de televisão estatal CCTV – um espectáculo de cerca de quatro horas e que hoje é visto por 700 milhões de pessoas. “Por factores históricos e políticos, a música passava em todas as rádios e esteve semanas consecutivas no top em várias províncias.”

Casimiro Pinto participou nas galas de 1999 e de 2000. “No dia a seguir à primeira gala, quando ia apanhar o voo para Macau, apareceram de repente muitas pessoas a pedir autógrafos e tive mesmo de telefonar ao meu agente para me ajudar a sair dali.”

Estava lançado na China. Miro pediu uma licença sem vencimento – trabalhava como intérprete-tradutor na função pública – e partiu em 2004 para a capital chinesa. Foi com o Grupo Emperor Entertainment de Pequim que lançou o segundo álbum e que subiu aos palcos do país inteiro. Fujian, Jiangsu, Henan, Hunan, Sichuan, Yunan, Guangxi, Guizhou são nomes de apenas algumas das províncias que visitou. “Conheci quase tudo”, refere. O público era “muito bom, muito diferente”.

Miro lançou cinco álbuns na China, todos em mandarim. “Em três deles incluí sempre uma música em português, apesar de dificilmente ser promovida no Interior do País.”

 

Regresso a Macau

Em 2008, Miro interpretou em São Francisco, Estados Unidos, Sorriso, um tema que criou especialmente para os Jogos Olímpicos, que se realizaram nesse mesmo ano em Pequim. No palco, foi acompanhado pela ex-atleta de ginástica desportiva Sang Lan, que em 1998 sofrera um acidente em Nova Iorque durante os treinos para os Goodwill Games. Paralisada das pernas para baixo, Sang Lan luta hoje pelos direitos dos portadores de deficiência na China. Foi Casimiro que escreveu a letra e compôs a melodia daquele que seria o último tema que lançou no Interior da China.

Nesse mesmo ano, depois de um concerto em Macau e das celebrações da passagem da tocha olímpica pela RAEM, regressava de avião a Pequim, quando conheceu a bordo a actual mulher, hospedeira na companhia de bandeira de Macau. “Sentia que precisava de uma família, que já não era um jovem de 20 anos”, recorda, acrescentando que também o mercado na China estava em transição. “Já não havia muito mercado em termos de vendas. Ganhava-se dinheiro a fazer espectáculos e não com a venda de álbuns. Com o download ilegal, muitos músicos tiveram de entrar para o mundo das telenovelas.”

A curta carreira deste português terminou em 2008, cerca de uma década depois de ter começado. Mas a China nunca se esqueceu dele. Quando se casou, a CCTV voltou a Macau para o entrevistar. “Vinha no noticiário a dizer que o cantor de Macau, macaense, de sangue português e chinês, tinha casado com uma senhora do norte da China, de Heilongjiang.”

Casimiro Pinto teve dois filhos, voltou à função pública e à tradução. Mas garante que Miro, o músico, não acabou. Assume-se como um homem que gosta de palco e que faz música nos tempos livres. Tem 11 temas em mão. Todos em mandarim.

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