Terça-feira, Setembro 22, 2020
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Xian Xinghai | Entre o mar e as estrelas

 

Texto Catarina Domingues

 

Filho de gente do mar, Xian Xinghai nasceu em Macau, na Praia do Manduco, entre o comércio, a doca, entre os barcos de pesca. Esta é a versão que gera maior consenso entre especialistas e que estabelece Macau como o berço de uma das mais proeminentes figuras da música chinesa.

Mas Panyu, distrito de Cantão, na Província chinesa de Guangdong, também reclama o título. Sabe-se que foi aí que nasceu Xian Xitai, pai de Xian Xinghai. Foi aí, aliás, que foi erguido em 2005 um museu em honra do compositor.

“Certa vez os responsáveis de Panyu pediram à filha de Xian Xinghai que dissesse em público que foi aí que o pai nasceu. A filha ficou muito zangada e disse que existem provas que o pai nasceu em Macau”, recorda Yin Limin, estudioso e profundo conhecedor da vida e obra do compositor.

 

 

Yin Limin, que hoje se senta connosco à mesa de um café de Macau, tem 84 anos, nasceu em Xangai e trabalhou ao longo de três décadas no Instituto Cultural de Macau, tendo apoiado a organização de várias actividades ligadas a Xian Xinghai. É com a ajuda deste homem que tentamos traçar o percurso de vida do compositor.

Yin Limin passa-nos um pequeno dispositivo USB. Lá dentro, pastas organizadas levam-nos ao mundo de um dos maiores compositores chineses da história, que em breve terá também um memorial erguido na cidade onde nasceu, conforme anunciou o Chefe do Executivo da RAEM, Chui Sai On, nas Linhas de Acção Governativa para 2017. “A filha do compositor vai ficar muito feliz com este museu. Há muito material sobre Xian Xinghai em Pequim e Panyu, o maior problema na criação de um memorial como estes em Macau vai ser encontrar objectos para ter em exposição”, realça.

 

 

De Macau a Xangai

Diz-se que quando Xian Xinghai nasceu, a família pouco mais tinha além das estrelas e do mar. Daí ter recebido o nome de Xian (apelido de família) Xing (estrela) Hai (mar). Nasceu no dia 13 de Junho de 1905. O pai, Xian Xitai, que nunca chegou a conhecer, morreu ainda novo, aos 36 anos de idade, deixando a mulher, Huang Suying, viúva, pobre e grávida.

Xinghai viveu a primeira infância em Macau, de onde era originária a mãe, lavadeira e costureira. “Lemos na Internet informações de que a mãe é de Cantão, mas está errado”, admite Yin Limin.

Huang Suying foi, aliás, a “primeira educadora musical do filho”, escreveu Chio In Fong num artigo publicado na MACAU em 1995, ano em que se celebraram os 50 anos da morte do compositor. “Quando Xian Xinghai ainda era bebé, a mãe embalava-o, cantando-lhe canções de crianças (já crescido, ele compôs uma canção a partir de uma que ela lhe costumava cantarolar e que dizia ‘Trabalhámos mais porque éramos pobres’)”, escreveu a autora do artigo.

 

 

Aos seis anos, o pequeno partiu com a mãe para Singapura. Foi na cidade-Estado que frequentou a escola primária e começou a desenvolver o interesse pela música. Mais tarde, já com 14 anos, Xinghai foi enviado por um professor para Cantão, onde estudou música na escola secundária anexa à Universidade de Lingnan.

Chegou a Pequim aos 22 anos, dividindo-se entre os estudos em violino e um trabalho numa biblioteca. Na direcção do instituto estava na altura Xiao Youmei, músico originário de Zhongshan, Província de Guangdong, que cresceu em Macau, estudou no Japão e na Alemanha. Foi no pequeno território que Xiao Youmei, considerado o pai da música moderna da China, contactou pela primeira vez com a música ocidental. “Costumava ouvir a música que chegava da casa de um padre vizinho”, realça Yin Limin.

Xiao Youmei foi um dos fundadores do Conservatório Nacional de Música de Xangai, que Xian Xinghai frequentou a partir de 1928. Aí estudou piano e violino, tendo vindo a ser expulso pouco depois por participar numa greve de estudantes.

 

 

Passagem por Paris

De Xangai, Xian Xinghai partiu para França, onde trabalhou como empregado de mesa, ajudou numa barbearia e continuou a estudar música. Xinghai foi admitido no Conservatório de Música de Paris para estudar composição e direcção de orquestra. Era o único estudante chinês e, no dia do exame de admissão, foi parado à porta do edifício “por não estar vestido com roupas luxuosas”, lê-se numa das pequenas biografias cedidas por Yin Limin.

No conservatório teve como professores Noël Gallon, Paul Oberdöffer e ainda Vincent D’Indy, mestre de muitos outros nomes da música mundial: Pierre Capdevielle, Arthur Honegger e Leevi Antti Madetoja.

Sobre a estadia em Paris, Chio In Fong escreveu em 1995: “Numa noite fria do ano de 1932, o vento gelado e forte entra na casa modesta e pobre de Xian, não o deixando conciliar o sono. Foi então que compôs O Vento. Esta obra seria muito apreciada pelo professor Noël Gallon, que a propôs para o concerto de originais do Conservatório de Música de Paris, acabando por receber muitos elogios de vários músicos famosos.”

Além de O Vento, Paris foi inspiração de outras obras, entre elas Nostalgia dos Emigrantes e A Poesia Antiga da China. As peças deste compositor chinês passaram na Radioffusion Française. Diz-se que o célebre compositor russo Sergey Prokofiev era um dos seus admiradores.

 

 

Combater o Japão através da música

Foi em meados do anos 1930 que Xian Xinghai decidiu regressar a casa. Durante a segunda guerra sino-japonesa, que decorreu entre 1937 e 1945, integrou um grupo de teatro que levou a todo o país propaganda anti-nipónica.

Conheceu a mulher em Wuhan, Província de Hubei, e deste casamento viria a nascer a única filha do casal, Xian Nina, actualmente a viver em Zhejiang, na cidade de Hangzhou.

Em 1938 foi viver para Yan’an, Província de Shaanxi, onde foi professor na Escola de Artes de Lu Xun. Yan’an é hoje considerado o berço da revolução comunista – foi aí que terminou a Grande Marcha liderada por Mao Zedong.

Durante este período, participou activamente na campanha contra a ocupação japonesa. A luta e a resistência ficaram registadas no trabalho do compositor. São exemplos O Canto dos Guerrilheiros, A Canção Militar de Salvação da Pátria, Sangue Quente e Canções da Meia-Noite.

“Xian Xinghai era um patriota”, realça o especialista Yin Limin. “Na altura, em Yan’an, a população em geral participava no Partido Comunista e Xian fê-lo a partir de 1939. Muitos jovens estiveram na resistência da guerra contra os japoneses. Não considero, porém, que Xian seja uma pessoa política, porque de todas as obras que compôs, nenhuma louvava o Partido Comunista ou Mao Zedong. Também escreveu músicas artísticas”, refere Yin Limin.

Mas se, por um lado, Xinghai não estava ligado ao fundador da República Popular da China, a verdade é que antes de partir para a então União Soviética, Mao convidou-o para jantar em sua casa.

Xian Xinghai não teve oportunidade de passar muito tempo com a filha e a mulher. Em 1940 viajou para São Petersburgo (na altura chamava-se Leninegrado), onde estudou e trabalhou no Conservatório de Música. Nos planos do compositor, estava também um projecto musical para um documentário, cuja produção viria a ser cancelada devido aos confrontos da II Guerra Mundial. Xinghai tentou voltar a Yan’an através de Xinjiang, mas Sheng Shicai, senhor da guerra que, na altura, estava de costas voltadas para a União Soviética, não permitiu que isso acontecesse.

Sem conseguir regressar a casa, o compositor viajou até Almaty, no Cazaquistão. Foi aí que concluiu a Sinfonia de Libertação Nacional, a Guerra Santa e Vermelho.

Xian Xinghai morreu a 30 de Outubro de 1945, vítima de problemas pulmonares. Tinha apenas 40 anos quando foi enterrado num cemitério nos subúrbios do Moscovo.

 

 

A música de Xinghai

Xian Xinghai viveu apenas quatro décadas, mas deixou um legado de cerca de 600 composições musicais, sendo que apenas duas centenas foram recuperadas. Nenhuma destas obras tem Macau como pano de fundo, admite Yin Limin.

“Na fase inicial, quando Xian Xinghai esteve em França, produziu composições para violino de estilo ocidental, mas depois de regressar à China, eram músicas de revolução, mais ao estilo chinês com técnicas ocidentais”, refere.

Cantata do Rio Amarelo é a obra mais representativa do compositor, tendo sido mesmo considerada o canto histórico do movimento de libertação chinesa. A música combina técnicas modernas de composição com o estilo das canções tradicionais anti-nipónicas.

“Esta obra foi feita em apenas seis dias numa barraca muito modesta em Yan’an. A letra foi escrita por Guang Weiran. O poeta quando desceu o Rio Amarelo, em Novembro de 1938, inspirou-se na vida árdua dos navegantes, lutando contra o vento forte e as ondas grandes”, nota Chio In Fong na biografia que escreveu sobre o Xinghai.

Cantata do Rio Amarelo viria a ser executada em vários pontos do globo, desde os Estados Unidos, passando pelo Canadá, Malásia e Japão. Em 1985, cerca de mil pessoas cantaram em palco o tema durante o Festival de Artes de Hong Kong.

O especialista Yin Limin considera Xian Xinghai um dos mais importantes nomes da música chinesa moderna, a par do “Rei dos Violinistas”, Ma Sicong, que fugiu para os Estados Unidos durante a Revolução Cultural; Nie Er, compositor da Marcha dos Voluntários, o hino chinês, e Xiao Youmei, Huang Tzu e He Luting, ligados à direcção do Conservatório de Música de Xangai. Muitos nomes se seguiram. Entre os alunos de Xinghai destacam-se Ma Ke, nascido em Xuzhou e que se juntou ao movimento anti-japonês na Província de Henan, e Li Huangzhi, originário de Hong Kong e fundador da Orquestra Nacional Tradicional da China, em Pequim.

Nas escolas de Macau, “em geral não se cantam músicas do compositor”, vinca Yin Limin. “Xian Xinghai escreveu muitas músicas ligadas à política e Macau é um local pacífico.”

 

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Emissão filatélica

Em Junho de 2015, os Correios de Macau lançaram uma emissão filatélica especial em honra do compositor, pelo seu 110.º aniversário de nascimento, assinada pelo arquitecto macaense Carlos Marreiros. A emissão é composta por um conjunto de quatro selos e um bloco filatélico, assinalando os quatro estágios da vida de Xian Xinghai: o nascimento em Macau em 1905; os estudos em Paris em 1934; a regência musical em Yan’an em 1939, e, por fim, a sua morte em Moscovo, em 1945. No design dos selos, as cores de fundo – verde esmeralda, verde oliva, vermelho e púrpura – destacam quatro imagens de Xian para ilustrar os seus 40 anos de vida gloriosa; no bloco filatélico, ao fundo a quatro cores sobrepõe-se uma imagem do músico em pose heróica, a segurar um bastão, relembrando o ritmo e a melodia da Cantata do Rio Amarelo.

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