Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
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Como a língua chinesa está a conquistar o mundo lusófono

 

 

Texto Catarina Domingues

 

Braga. Foi aqui que abriu há 11 anos o primeiro Instituto Confúcio (IC) de Portugal e do todo o universo de língua portuguesa. Ano de fundação: 2006. Na altura, a Universidade do Minho (UM) contava já com uma licenciatura em Estudos Orientais – entretanto reestruturada com a designação de Línguas e Culturas Orientais. O IC nascia para dar apoio a esta oferta formativa do departamento de Estudos Asiáticos do Instituto de Letras e Ciências Humanas da UM. Mas desde logo quis olhar outros horizontes e hoje mantém ainda diferentes níveis de língua chinesa e de chinês comercial e turístico.

Se nesse início o estabelecimento de ensino estava mais direccionado para apoiar estudantes universitários, actualmente está também presente em 15 escolas do ensino básico e secundário da região norte de Portugal, incluindo nas cidades do Porto, Guimarães e Santo Tirso.

Integrada no projecto está cerca de uma dezena de professores, na maioria chineses, como explica António Lázaro, director do IC de Braga. “É no fundo essa equipa que consegue sustentar o ensino do mandarim a diferentes níveis, também ao nível do ensino básico ou secundário, para além de eventualmente podermos dar apoio a alunos chineses que estão em algumas destas escolas e a quem podem ser úteis algumas sugestões ou apoio para um maior enquadramento local”, diz o responsável, acrescentando que “existe uma grande receptividade dos pais e dos alunos”.

Ainda de acordo com o director, já passaram pelas aulas do instituto “uns milhares de alunos”. O futuro profissional é um dos factores que pesa na escolha dos estudantes de língua chinesa. “Desde logo o fascínio pela China que, entre outras coisas, decorre do lugar que [o país] ocupa no mundo desde há muito, hoje cada vez mais, e a constatação de que o mandarim é a língua mais falada do mundo. Creio que estão incluídas razões de natureza profissional, muito práticas, como é a questão do interesse de uma formação na área para o mercado de trabalho.”

Além dos cursos de língua, e à semelhança dos outros IC espalhados pelo mundo, Braga promove também acções de divulgação da cultura chinesa, que incluem workshops em bibliotecas e escolas, colóquios, conferências e espectáculos.

 

 

Apoio empresarial

A Braga, seguiu-se Lisboa. O Instituto Confúcio da capital portuguesa, sediado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, abriu as portas em 2008. “Uma das primeiras coisas que fizemos foi dar apoio ao Comité Olímpico que iria para os Jogos Olímpicos de Pequim”, diz em entrevista à MACAU a directora do Instituto Confúcio em Lisboa, Teresa Cid.

Nove anos após este arranque, além do apoio que é dado ao curso de Estudos Asiáticos, “aquele que tem mais procura e notas mais elevadas de entrada na Faculdade de Letras”, o Instituto Confúcio chega também à generalidade da população, oferecendo cursos que vão desde o nível básico ao mais avançado. “Há muitas pessoas interessadas na China”, assegura Teresa Cid, sublinhando que, mesmo em Lisboa, “a presença chinesa aumentou, existindo hoje uma comunidade muito mais alargada e diversificada”.

Segundo a direcção do estabelecimento de ensino, ao longo destes quase dez anos de existência, já terão frequentado as aulas do IC entre 1500 e 2000 alunos. São vários os grupos interessados na aprendizagem do chinês: desde universitários, passando por reformados até trabalhadores, com ou sem experiência profissional ligada à China. Os estudantes mais jovens são, também aqui, movidos por perspectivas profissionais. “Claro que são pessoas que têm algum interesse por essa cultura, porque ninguém aprende chinês se não tiver interesse, não é uma língua fácil.”

Há cerca de dois anos, Lisboa juntou-se, além disso, a outras zonas de Portugal, como é o caso de Braga, para integrar o projecto-piloto de ensino de mandarim a alunos dos cursos Científico-Humanísticos do ciclo secundário, resultante de um protocolo assinado pelo Ministério de Educação português e a sede do Instituto Confúcio, na China. “Não estamos numa fase de grande capacidade financeira e, por isso, temos de ver [como corre]. O ministério, e penso eu que muito bem, resolveu iniciar isto como um projecto-piloto que será avaliado no final deste ano lectivo. Penso que será para continuar, dadas as informações que tenho.”

Um dos focos da instituição passa também por dar apoio ao mundo empresarial, com cursos de língua e cultura chinesa direccionados a bancos ou empresas “que passaram a ter capital chinês”. A missão do IC, explica ainda Teresa Cid, vai mais longe: funciona como “uma plataforma de cooperação entre Portugal e a China, mais concretamente entre a zona de Lisboa e a China”. Nesta lista de contactos são dinamizadas parcerias e realizadas actividades com especialistas de várias áreas, como na Medicina Tradicional Chinesa.

 

 

Formação de professores

O IC de Lisboa tem como instituto parceiro a Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin. É de lá que chega grande parte dos docentes para trabalhar no centro. Neste momento estão colocados sete professores a tempo inteiro, todos de nacionalidade chinesa, apesar de estar nos planos da instituição a contratação e formação de professores portugueses, que terá igualmente de ser aprovada pelo Hanban, sede do Instituto Confúcio na China. “Este ano já começámos, no fundo, a criar esse espaço de apoio à certificação dos professores que estão na zona de Lisboa, mesmo que não sejam os nossos professores. Achamos também que devemos avançar para esse processo essencial, para que depois haja uma oferta de ensino de chinês que seja validada até pelo Ministério de Educação”, refere ainda a coordenadora do pólo lisboeta.

Tian Shiyuan tem 30 anos, é natural de Xuan’en, província de Hubei. Formada em Ensino de Chinês como Língua Estrangeira, esta professora está a trabalhar há cerca de um ano no IC de Lisboa. A jovem docente, que lecciona quatro turmas – três de nível inicial e uma de nível intermédio – tem-se apercebido de um interesse crescente na língua chinesa. “Abrem cada vez mais cursos nas escolas secundárias, assiste-se a um reforço das relações económicas entre a China e Portugal, por isso, existe uma maior necessidade de encontrar pessoas fluentes em mandarim e que conheçam ambas as culturas”, refere à MACAU, realçando que o maior desafio para os alunos portugueses na aprendizagem do chinês é a pronúncia. “O mandarim é uma língua tonal e é difícil pronunciar naturalmente, depois temos os caracteres chineses que é [outra parte] muito difícil.” Antes de chegar a Lisboa, Tian Shiyuan trabalhou durante três anos no Instituto Confúcio da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em São Paulo, Brasil, onde iniciou a carreira no ensino de língua chinesa a estrangeiros.

Luís António Paulino, director do IC da UNESP, chama a atenção, por outro lado, para a dificuldade na contratação de professores de língua chinesa no Brasil. Uma das apostas deste centro, sublinha, incide na formação de docentes. No caso da UNESP, entre os 22 professores desta escola de São Paulo, trabalha uma especialista brasileira, que completou a licenciatura em língua chinesa e que, numa clara aposta do IC paulista, foi enviada por três anos para fazer o mestrado na Universidade de Hubei, estabelecimento parceiro da entidade brasileira.

À semelhança do IC de São Paulo, a formação de professores locais é também uma das missões prioritárias dos Institutos Confúcio em geral. “Temos alunos já com uma competência linguística muito superior ao que tínhamos há meia dúzia de anos, por isso, realizam o exame HSK 6 [nível máximo do exame de proficiência] com sucesso. Esses alunos estão já a preparar-se para ser professores, porque têm interesse no ensino. Alguns até já dão aulas em escolas privadas”, refere Teresa Cid do IC de Lisboa.

 

 

Centro de tradução

Luís António Paulino, director do IC da UNESP, foi quem sugeriu à faculdade o estabelecimento do Instituto Confúcio. Professor de Economia Internacional naquele estabelecimento de ensino superior brasileiro, trabalhou na Presidência da República entre 2003 e 2005 e no Ministério do Desporto entre 2012 e 2014, mantendo uma relação próxima com a China. “Tive muitos contactos naquele período, na época da primeira visita do presidente Lula da Silva à China, em 2005, depois do Presidente Hu Jintao ao Brasil no mesmo ano.”

Em entrevista à MACAU, Luís António Paulino refere que, devido à crescente importância económica e política da China no panorama mundial, também o interesse pela cultura e língua chinesas tem vindo a aumentar. Actualmente, considera o professor, a China deixou de ser vista como “algo exótico e estranho”, tornando-se “muito presente no dia-a-dia das pessoas”.

Luís António Paulino exemplifica: “No caso do Brasil, já é o nosso principal parceiro comercial, principal destino das exportações brasileiras, principal origem da importação. Existem hoje aqui no Brasil aproximadamente 100 empresas chinesas actuando nos diversos ramos, que inclusive demandam frequentemente mão-de-obra especializada que tenha conhecimento da língua chinesa.”

O IC da UNESP foi o primeiro a abrir as portas no Brasil, em Novembro de 2008, e é aquele que geograficamente tem um maior alcance universitário, com salas de aulas espalhadas por 11 cidades do interior de São Paulo, onde se encontram vários campus da universidade. Cerca de mil estudantes frequentam actualmente as aulas destes vários pólos do IC da UNESP.

A produção da revista bimestral em língua portuguesa do IC, através de uma equipa de brasileiros e chineses, é uma das missões deste centro, que tem desenvolvido também trabalho na tradução de clássicos da língua chinesa para o português. Os Analectos de Confúcio e o Dao De Jing, colectânea de provérbios chineses de Laozi, são alguns dos exemplos. O apoio à investigação científica também é assegurado pelo IC brasileiro. “Temos um centro de estudos sobre a China que funciona junto com o instituto, temos várias pessoas desenvolvendo trabalho de pesquisa nas diversas áreas, o instituto tem sido uma ferramenta de apoio importante também para o desenvolvimento da pesquisa académica.”

 

 

 

Único instituto “construído de raiz” em África

Luanda. Foi na capital angolana que abriu o mais recente de todos os Institutos Confúcio dos países de língua portuguesa. Estabelecido na Universidade Agostinho Neto, em Setembro de 2016 – as aulas começaram quatro meses antes –, o IC de Angola resulta de uma parceria entre a Universidade Agostinho Neto, o Hanban, a Universidade Normal de Harbin, instituição de ensino superior parceira, e a CITIC, empresa chinesa que actua na área da construção, finanças, energia e sector imobiliário. “Em África é o único Instituto Confúcio construído de raiz, todos os outros trabalham em espaços arrendados ou provisoriamente oferecidos”, começa por dizer Jesus Tomé, director do pólo em Luanda.

No primeiro ano de actividade, este IC recebeu cerca de 600 candidaturas, acabando por admitir apenas 160 estudantes para frequentar os cursos de língua e cultura. Este ano, a escola optou por fazer pela primeira vez um exame de acesso – dos 300 candidatos vão ser escolhidos 200, divididos em dez turmas de nível básico, coordenadas por quatro professores chineses.

Outros dados: a média de idade dos estudantes que frequentam as aulas de chinês do IC Luanda é de 20 anos; cerca de 90 por cento pertence à comunidade universitária, entre estudantes, docentes e trabalhadores não docentes; entre 80 e 85 por cento frequenta cursos de Engenharia e Ciências – a Universidade Agostinho Neto funciona geograficamente dispersa e o IC encontra-se no campus onde está instalada esta faculdade, a cerca de 40 quilómetros do centro de Luanda. “Há aqui dificuldades de mobilidade rodoviária, as pessoas podem ter muita vontade [de aprender chinês], mas depois não podem, o que obriga também a que a meio do ano, às vezes, tenhamos algumas desistências”, explica o coordenador.

Jesus Tomé realça ainda o facto de este ano se terem inscrito nos cursos de mandarim cerca de duas dezenas de agentes da polícia, de áreas como os serviços de migração, corpo de bombeiros, investigação criminal e serviços penitenciários. “Temos polícias e funcionários do Ministério do Interior que, do ponto de vista migratório e da regularização da situação migratória dos estrangeiros, lidam muito com cidadãos chineses, portanto, estão a aprender também connosco.”

Numa primeira fase, este instituto está vocacionado para “o ensino da língua chinesa na sua vertente básica”, complementando a oferta com actividades extracurriculares de tai-chi e ténis de mesa, mas segundo Jesus Tomé, o grande plano futuro passa por transformar o centro num departamento de ensino e investigação. “A nossa pretensão é mais ambiciosa [que apoiar um departamento da universidade]. Queremos transformar o curso de língua e cultura chinesas numa licenciatura e quem sabe num mestrado.”

 

 

Papel social de Cabo Verde

Cidade da Praia, Cabo Verde. No futuro, o objectivo é estender o ensino do mandarim a todas as ilhas do arquipélago mas, por enquanto, é na capital cabo-verdiana que funciona o único Instituto Confúcio do país. Integrado na Universidade de Cabo Verde, o estabelecimento abriu as portas a 18 de Dezembro de 2015 com o objectivo de levar o mandarim ao cabo-verdiano. É que, segundo a directora Ermelinda Tavares, a comunidade chinesa no arquipélago está a crescer, os negócios entre a China e Cabo Verde também, mas há ainda “um certo desconhecimento” em relação ao país, língua e cultura chinesas. “É uma coisa nova”, diz a responsável, admitindo que a procura de cursos de mandarim tem sido elevada, principalmente por parte de finalistas do ensino secundário que pretendem seguir os estudos universitários na China.

Além dos cursos oferecidos pelo IC, os professores contratados deslocam-se ainda a uma escola semi-pública na Ilha de Santiago, onde coordenam duas aulas de mandarim. Ermelinda Tavares destaca ainda o papel social que este instituto tem desenvolvido no seio da comunidade de Castelão, bairro da Cidade da Praia. “Como é um bairro problemático, os responsáveis resolveram ocupar os jovens que não estudam e que não estão ocupados com o ensino das línguas. Aprendem ali mandarim, russo, inglês, portanto é mesmo um objectivo do comunitário.”

Ainda segundo Ermelinda Tavares, no ano lectivo passado, o IC acompanhou cerca de 150 alunos nas instalações do estabelecimento, na universidade, escolas e na comunidade de Castelão. Mas quer ir mais longe: “Temos esse grande projecto com o Ministério de Educação, que é abrir as escolas-piloto de mandarim e temos também um outro grande projecto: assinámos na China um protocolo no sentido de aplicarmos o HSK, o teste de proficiência do mandarim”.  A formação de professores, em cooperação com o Hanban, é outro dos objectivos deste centro. “Há muitos interessados, sobretudo cabo-verdianos que estiveram na China e têm o domínio da língua.”

 

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Institutos Confúcio querem trabalhar com Macau

O Instituto Confúcio da Universidade Estadual Paulista (UNESP) quer “incrementar o contacto com Macau”, nomeadamente na divulgação das relações históricas entre a cidade e o Brasil, diz Luís António Paulino, director do centro da UNESP. “Tenho recebido a Revista de Cultura, produzida pelo Instituto Cultural da RAEM, que tem sempre bons artigos, mas raramente se centra sobre essas relações com o Brasil. Penso que esse é um ponto que poderia ser melhor explorado, já que um dos aspectos importantes da nossa actividade é essa questão do intercâmbio intercultural.” Em entrevista, o responsável relembra que Macau foi no passado um “elo importante de comunicação” entre o Brasil e a China e que “a própria formação social do Brasil”, está ligada ao Oriente. “Temos um sociólogo brasileiro, Gilberto Freire, já falecido há muitos anos, que destacava no seu trabalho o quanto a cultura oriental e também africana foi importante na formação social do Brasil, e isso é perceptível em aspectos exteriores, como na arquitectura, nos modos de vestir, sobretudo dos séculos XVII, XVIII e XIX, como também em aspectos sociais como a questão da formação da família e hábitos de alimentação.”

Também o Confúcio de Braga, na Universidade do Minho, em Portugal, gostaria de “estabelecer relações mais próximas” com a RAEM. António Lázaro, director do IC bracarense, revelou que têm sido feitos alguns contactos com instituições sediadas em Macau no sentido de colaborarem. “No meu horizonte, para além do crescimento sustentado, talvez distinguisse na missão que cabe ao Instituto Confúcio o aprofundamento da relação com a comunidade chinesa instalada em Portugal e, por outro lado, o estabelecimento de relações mais próximas com Macau.”

 

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Braga, Portugal

Universidade do Minho

Julho de 2006

Instituto parceiro: Universidade Nankai de Tianjin

 

Lisboa, Portugal

Universidade de Lisboa

Abril de 2008

Instituto parceiro: Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin

 

São Paulo, Brasil

Universal Estadual Paulista (UNESP)

Novembro de 2008

Instituto Parceiro: Universidade de Hubei

 

Cidade da Praia, Cabo Verde

Universidade de Cabo Verde

Dezembro de 2015

Instituto parceiro: Universidade de Estudos Estrangeiros de Cantão

 

Luanda, Angola

Universidade Agostinho Neto

Maio de 2016

Parceiros: Universidade Normal de Harbin e CITIC

 

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17 institutos Confúcio nos países de língua portuguesa

 

Portugal (4): Lisboa, Braga, Coimbra, Aveiro

Brasil (10): São Paulo (2), Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro, Campinas, Belém, Fortaleza

Cabo Verde (1): Cidade da Praia

Moçambique (1): Maputo

Angola (1): Luanda

 

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Confúcio pelo mundo afora

O primeiro Instituto Confúcio abriu em Seul, Coreia do Sul, em 2004. Ao todo existem 500 Institutos Confúcio no mundo em 155 países/regiões.

 

Continente    Institutos       Países ou regiões

ÁSIA               110                33

ÁFRICA         46                   38

AMÉRICA      157                22

EUROPA        169                42

OCEÂNIA       18                   5

 

Fonte: Hanban, sede do Instituto Confúcio

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