Quarta-feira, Maio 27, 2020
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Moçambique | Saúde ancestral com um bem presente

 

 

Texto Pedro Cativelos | Fotos Ricardo Franco, em Moçambique

 

As mãos de João percorrem os meridianos cardeais do corpo de Vanessa, a voluntária. Ao mesmo tempo, ele explica o movimento dos dedos. Empurram, seguram, deslizam com técnicas de massagem tui-na recém-aprendidas. Esta é uma das mais antigas técnicas da Medicina Tradicional Chinesa, uma espécie de medicamento natural para fazer circular a energia do sangue, com registos de utilização na China de há mais de 4000 anos. Mas, aqui e agora, este jovem faz renascer a tradição na ponta dos dedos em Moçambique. E explica, fazendo entender o que ali se pretende, e quais os seus benefícios. Os colegas observam-no, atentos. Os formadores chineses acenam, como alguém faz sempre que partilha algo que sente bem apreendido.

Este é um fragmento apenas de um dos muitos episódios que ocorreram ao longo das duas semanas da segunda formação em Medicina Tradicional Chinesa, que decorreu em Maputo, capital de Moçambique. Numa acção promovida pelo Ministério da Saúde de Moçambique, o Instituto de Medicina Tradicional e o Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong e Macau, com o apoio da embaixada da China em Moçambique, 43 jovens receberam uma formação de iniciação a três técnicas da Medicina Tradicional Chinesa. As menos invasivas, por enquanto, mas é só o começo: para além da massagem, também aprendem sobre moxabustão e ventosaterapia. Quanto à formação em acupunctura, ela acontecerá dentro em breve. “Moçambique pretende que todo este saber milenar, hoje já cientificamente comprovado da Medicina Tradicional Chinesa e utilizado em sistemas de saúde por esse mundo fora, seja também aplicado no Sistema Nacional de Saúde moçambicano”, explica Felisbela Gaspar, do Instituto de Medicina Tradicional.

 

 

Se na China, por exemplo, a medicina ocidental conquista espaço em muitos dos hospitais, que possibilitam aos utentes a possibilidade de optarem entre a medicina ocidental (ou moderna) e a tradicional, do outro lado do planeta o caminho percorre-se ao contrário. Em Inglaterra algumas terapias alternativas já fazem parte do sistema nacional de saúde há alguns anos e em Portugal, por exemplo, a medicina convencional aproxima-se cada vez mais das suas parceiras alternativas. Exemplo prático dessa realidade torna-se facilmente observável em algumas clínicas que as emparceiram no leque de serviços a prestar aos consumidores. Tal e qual como agora acontece em Moçambique, onde começa a deixar de ser inusual encontrar num mesmo local médicos, psiquiatras, naturopatas, homeopatas e todo o tipo de terapeutas de várias disciplinas naturais.

Nesse sentido, Moçambique tem vindo a legislar acerca da legalização das medicinas tradicionais com um projecto de lei que assume como legais as práticas da Medicina Tradicional, como forma de impor disciplina na actividade de saúde. “Nós, como Ministério da Saúde (MISAU), gostaríamos que houvesse reconhecimento de que os praticantes da medicina tradicional são a primeira porta que a população encontra antes de recorrer à medicina moderna”, dizia Graça Cumbe, do Ministério de Saúde, no ano passado, acerca da matéria, antes da aprovação da legislação. Mas um quadro legal direccionado à Medicina Tradicional ainda está por chegar. No entanto, as evidências práticas mostram que as práticas da mais antiga escola de tratamento médico da história da humanidade começa a ser assimilada pelo sistema de saúde. Mas já lá vamos.

 

 

Parceria total

Nesta viagem, entre um saber do corpo baseado numa filosofia da mente comprovada ao longo de milénios, e um presente de contextos e dimensões tão diferentes da sua raiz original, importa perceber porquê este destino.

A China e Moçambique não são estranhos; as relações entre ambos os países vêm de longe [ver caixa]. Claro que hoje a parceria tem uma dimensão mais forte, que tem vindo a reforçar-se desde o início do século, aquando da primeira Cimeira Ministerial China-África, quando foi criado o Fórum de Cooperação China-África. Três anos depois, nascia o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (mais conhecido como Fórum de Macau).

 

 

Se olharmos a um dos momentos marcantes da história recente que liga ambos os países, ele aconteceu com a visita do Presidente chinês Hu Jintao a Maputo, em Fevereiro de 2007. Segundo o Centro de Promoção de Investimentos de Moçambique, o impacto dessa visita oficial foi tão grande que o investimento chinês em Moçambique, entre outras, passou de cerca de um milhão de dólares norte-americanos em 2006, para 61 milhões em 2007. Hoje, o investimento directo chinês na economia moçambicana chegou aos 5,7 mil milhões de dólares, de acordo com dados oficiais da Embaixada da China em Moçambique.

O enquadramento económico é o pano de fundo para entender o que significa hoje a China para a Pérola do Índico. Mas não é um passo maior que a perna passar à ideia seguinte. A parceria efectiva entre China e Moçambique não tem apenas a ver com investimento e trocas comerciais. O apoio do Governo de Pequim a uma das economias emergentes mais entusiasmante – não só pela dimensão das suas riquezas naturais, mas por ser, ainda hoje, uma das dez economias com mais reduzido PIB per capita a nível mundial (525 dólares, de acordo com o Banco Mundial) – materializa-se, entre outras, em áreas tão diversas como a , agricultura, infra-estruturas, assistência técnica e empréstimos sem juros ou com juros bonificados. E também, claro, estende-se à educação, e principalmente à saúde.

 

 

Em 2006, um funcionário do Departamento de Saúde da província de Sichuan, Zhao Xinjie, sublinhava a um jornal chinês a importância da boa aplicação dos programas de cooperação entre a China e os países africanos de língua portuguesa no sector de saúde pública. “A China enviou em 1976 a primeira equipa de assistência médica a Moçambique. Até então, 250 médicos chineses em têm trabalhado no país.” E, de então para cá, esse número aumentou ainda mais. Para se perceber o impacto do auxílio chinês ao sistema de saúde moçambicano basta referir que, de acordo com estatísticas oficiais, só nos últimos 40 anos os médicos chineses presentes no país terão atendido cerca de 1,5 milhões de moçambicanos.

Ainda hoje no Hospital Central de Maputo, maior unidade de saúde de um país com 27 milhões de habitantes, está uma equipa residente de médicos chineses, que apoiam os seus colegas moçambicanos. “Desde a chegada da primeira equipa médica chinesa ao país o governo moçambicano sempre nos apoiou. Os funcionários do governo local visitaram-nos em hospitais, conhecendo as condições de vida e trabalho, o que nos emociona. E a população moçambicana agradece as ajudas dos médicos chineses. Eles consideram que os médicos chineses são simpáticos e diligentes”, diz-nos um médico, com quem nos cruzamos num dos corredores do Hospital.

 

 

“A China continuará a enviar equipas médicas para os países africanos para ajudá-los a desenvolver os serviços de saúde”, assinala o conselheiro da embaixada chinesa em Maputo, Liu Xiau Guang. “Já enviámos mais de 20 mil médicos para África. É um trabalho que fazemos, de partilhar o nosso conhecimento milenar, com países amigos. Aprofundando as relações económicas, políticas, e sociais, deste modo. Iremos continuar a fazê-lo”, diz à MACAU.

Desde que a primeira equipa médica chinesa desembarcou na Argélia, em 1963, as múltiplas missões de médicos chineses já actuaram em cerca de 50 países africanos, atendendo cerca de 200 milhões de pessoas. Já passaram por todos os países de língua portuguesa, de Cabo Verde à Guiné, de Angola a São Tomé, e passando (e ficando) por Moçambique. Ainda hoje estima-se em mais de mil o número de médicos chineses que continuam em África. E esse número tem tendência para aumentar.

 

 

Um novo velho mundo

“Relaxe… Isso… Esvazie a cabeça, deixe-se ir.” A atmosfera preenche-se de aromas tranquilizantes. Em cima da mesa fósforos aquecem-se em fricção, perto do moxabustão. Um tubo de artemísia incensada que será passada a poucos centímetros da flor da pele, soltando calor terapêutico, em fios que rumam sem lugar marcado nas ligeiras correntes de ar que se pressentem, e se dissipam, nas ondas sonoras, serenas, que tranquilizam o ambiente e as primeiras dores de quem por ali passa, procurando afugentar o sofrimento. A descrição tenta fazer jus ao processo. Não é simples, mas até é. E sereno. Humano. E tenta servir o propósito. Até para fazer face ao movimento rápido de uma sociedade em que as drogas medicamentosas, como lhes chamam os técnicos de medicina chamada moderna, dominam e predominam, sobre a descrição do momento e a prescrição da sua urgente importância.

Voltamos à sala de aulas. E ao momento da entrega dos diplomas aos 43 jovens moçambicanos, agora prestes a serem oficialmente iniciados em Medicina Tradicional Chinesa. Vêm de todos os cantos do país. De Cabo Delgado, a quase 2700 quilómetros a norte de Maputo, a Tete, zona áspera e quente onde do chão brota carvão. A maioria destes jovens é fisioterapeuta, mas também há enfermeiros e técnicos de saúde. Estiveram ao longo das últimas duas semanas a receber formação em técnicas de Medicina Tradicional, ministradas pelo MISAU, em parceria com o Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong e Macau, que cumpre assim o seu desígnio de plataforma internacional de intercâmbio da indústria de saúde. O Parque é uma base industrial internacional de Medicina Tradicional Chinesa que inclui tratamentos médicos, cuidados de saúde, transformação tecnológica, pesquisa e desenvolvimento de produtos de saúde, logística, convenções e exposições, e ao mesmo tempo, uma plataforma internacional de comércio de matérias-primas amigas do ambiente e de produtos de saúde de elevada qualidade. O Parque irá estabelecer no futuro, com base no Acordo-Quadro de Cooperação Guangdong-Macau e nos demais acordos entre as duas partes, cooperações estreitas em diversas áreas. E em vários países.

 

 

Como de há um ano para cá acontece em Moçambique. Este não é, de resto, o primeiro curso leccionado. Já no ano passado aconteceu uma acção similar, com aulas no Hospital Central de Maputo e no Hospital Mavalane, e de onde saíram 27 clínicos de hospitais públicos com um novo saber, que agora estão a aplicar em unidades de saúde de todo o país. “São cursos que visam capacitar os técnicos de saúde do Ministério de Saúde de Moçambique em algumas técnicas que possam coadjuvar o que já fazem para, nas suas ferramentas de trabalho, poderem incluir algumas práticas da Medicina Tradicional Chinesa que possam ser úteis nos cuidados de saúde primários à população”, explica a médica Xu Zhanghuan, uma das formadoras que acompanhou o grupo de alunos. “Eles são muito dedicados, muito atentos. Esperamos que tenham aprendido o máximo e que continuem interessados em querer aprender mais. E até quem sabe visitarem-nos em Macau, como alunos bolseiros, para que possam prosseguir a sua formação.”

Eles, os meninos e meninas, já adultos, sorriem-lhe enquanto ouvem a conversa pelo mecanismo de tradução simultânea que lhes chega através dos auscultadores. Aprenderam que saber antigo não ocupa lugar… do mais novo. E que ambos podem até ser complementares. “Vamos sair daqui com novas ferramentas para poder fazer melhor o nosso trabalho. Temos limitações de material, de medicamentos, mas com estas técnicas a verdade é que se pode por vezes fazer tanto mais pelos pacientes com tão pouco. Mãos, conhecimento antigo, e algumas plantas. Nunca imaginei que isto fosse possível”, diz-nos Sandra Bila, uma das alunas.

 

 

Na cerimónia de atribuição dos diplomas, no último dia de formação, o vice-presidente do Parque, Yves Xie é uma visita tão ilustre quanto simpática a quem se lhe dirige. Depois de falar aos alunos sobre o programa de bolsas de estudo, incentivando-os a prosseguir o seu caminho, explica ainda a ideia subjacente a esta missão. “Queremos tornar a Medicina Tradicional Chinesa um conteúdo transmissível ao Sistema de Saúde Pública de Moçambique. Temos uma série de áreas de actuação no Parque Científico e Industrial, e pretendemos expandir os nossos conhecimentos por todo o mundo, funcionando como um pólo agregador de uma corrente de saber, mas, por outro lado, formar médicos e pessoas da área da saúde de todo o mundo que queiram partilhar dos nossos conhecimentos.” O vice-presidente do Parque considera ainda que o “sucesso” do curso demonstra que a cooperação com Moçambique “entra numa nova fase” e garantiu que o Parque irá trabalhar para fortalecer a cooperação com outros países de língua portuguesa.

Já o director nacional de Assistência Médica, Ussene Isse, que discursou dias antes na abertura do curso de formação, dizia algo parecido, esperando que os conhecimentos a serem adquiridos sejam aplicados por todo o território nacional. “As técnicas da Medicina Tradicional Chinesa têm sido praticadas em algumas unidades sanitárias a nível do Serviço Nacional de Saúde, tanto por especialistas chineses, coreanos e vietnamitas, como por colegas formados no primeiro curso desta medicina. Esta formação vai dotar os beneficiários de conhecimentos na área da medicina chinesa com práticas simples, extremamente úteis nos locais onde existe défice de material para uso na medicina física e reabilitação”, disse.

Mas como viajar por um saber milenar em apenas duas semanas? Tobias, que tenta encontrar a distância correcta para aplicar o moxabustão, diz-nos, sem desviar o olhar e a atenção da ponta dos dedos. “É só um começo! Agora quero ir aprender mais! É uma coisa muito boa esta. Se muda a minha vida? Sim, sempre que a partir de agora eu conseguir melhorar a vida de alguém.”

 

 

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Uma longa história de amizade

Foi no século XIX que os primeiros imigrantes chineses desembarcaram em Moçambique. Eram apenas 30 técnicos, vinham da província de Guangdong e tiveram um papel predominante na construção das linhas de caminho-de-ferro que ligaram Moçambique ao Zimbabué e à África do Sul. Com comunidades cada vez mais enraizadas, a China começou a penetrar progressivamente no tecido social moçambicano. Diversos restaurantes, templos, clubes escolas e clínicas terapêuticas surgiram no início do século XX, destacando-se, na Beira, em 1922, o Clube Chinês – também conhecido por Grémio – e a Escola Chinesa, onde, em 1950, se ensinava mandarim. Na capital do país, o Pagode Chinês abriu portas em 1903 e daria origem a uma Escola Chinesa. Já o restaurante Dragão de Ouro, situado onde hoje se ergue o Hotel Southern Sun, era tão renomado que a própria praia era mais conhecida pelo título do espaço comercial. A amizade com Moçambique seria reforçada também pelo apoio à luta pela independência nos anos 1960. A Embaixada da China foi das primeiras a abrir no Moçambique independente em 1975.

 

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As técnicas

São quatro as técnicas basilares da Medicina Tradicional Chinesa que têm sido leccionadas nas acções de formação em Moçambique:

 

 

Acupunctura

A acupunctura é uma terapia milenar originária da China que consiste na aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo para tratar doenças e promover a boa saúde. Estas agulhas, quando aplicadas sobre algumas regiões específicas, são capazes de tratar diversas doenças físicas ou emocionais como sinusite, asma, enxaqueca ou artrite, por exemplo, além de melhorar o sistema imunitário.

 

 

Massagem tui-na

A massagem tui-na é um instrumento da Medicina Tradicional Chinesa que tem como objectivo dispersar, tonificar e harmonizar a energia e o sangue de um meridiano, órgão ou região, desbloqueando, retirando tensões, relaxando e reequilibrando as energias yin e yang do corpo. É executada depois de um diagnóstico que identifica e avalia os desequilíbrios energéticos a corrigir. Apesar de poder ser aplicada numa zona abrangente do corpo, a massagem tui-na deve ser executada nos mesmos pontos e meridianos como se uma sessão de acupunctura se tratasse, conferindo-lhe assim a sua vocação de massagem terapêutica.

 

 

Moxabustão

Originário do norte da China, moxabustão – ou jiú, que significa, literalmente, “longo tempo de aplicação do fogo” – é considerada uma espécie de acupunctura térmica, feita pela combustão de um canudo de artemísia. É uma técnica terapêutica que se baseia nos mesmos princípios e conhecimentos dos meridianos de energia utilizados na acupunctura, sendo amplamente utilizada em outros sistemas de Medicina Oriental tradicionais como Japão, Coreia, Vietname, Tibete e Mongólia.

 

 

Ventosaterapia

O uso de ventosas no Oriente foi desenvolvido com base na acupunctura, sendo que a aplicação de ventosas foi originalmente conhecida como Método Chifre. Os chifres dos animais eram aquecidos, criando-se um vácuo quando eram colocados sobre a pele. O propósito era tratar doenças e retirar o pus. A ventosa tem a propriedade de limpar o sangue das toxinas acumuladas no organismo produzida pelos alimentos e outras fontes poluentes.

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