Sábado, Dezembro 5, 2020
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Telas que questionam a realidade virtual

 

 

 

Texto Hélder Beja | Fotos Paulo Cordeiro, em Portugal

 

Faltam poucas horas para a abertura da exposição “Sequência Dimensional” na galeria Arte Periférica, à entrada do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, e Sylviye Lei parece descontraído antes de apresentar aquela que é a sua primeira mostra individual na Europa. Vencedor do Prémio Fundação Oriente/Artes Plásticas 2016, o artista nascido em Macau há 31 anos mereceu a distinção antes entregue a jovens criadores como Lai Sio Kit, Eric Fok, Lai Sut Weng e Karen Yung, com um trabalho que aborda a realidade virtual na sociedade contemporânea – acima de tudo o contacto quase permanente com ecrãs de que é feita a vida quotidiana nas cidades desenvolvidas.

Faz calor em Lisboa nesta tarde de Junho. Turistas fotografam-se com câmaras digitais e telemóveis junto ao CCB e ao Mosteiro dos Jerónimos. Na cafetaria deste centro cultural, há quem trabalhe ao computador e quem leia no iPad ou no Kindle. A luz, essa, tem a força habitual que o sol imprime sobre a capital portuguesa, mas essa luz natural não é a única aqui presente, como aponta Sylviye Lei. “O que quero expressar é que na nossa vida do dia-a-dia estamos sempre em contacto com a luz artificial dos ecrãs dos computadores e telemóveis. Dependemos destas luzes e destas cores, que vêm desses ecrãs, para fazermos a nossa vida e para entrarmos nesse espaço virtual da nossa existência”, diz o artista.

 

 

Sylviye Lei passa a maior parte do tempo em centros urbanos. Nascido numa Macau diferente da de hoje mas já a desenvolver-se, frequentou a Escola Secundária Hou Kong e, quando chegou a hora de pensar no ensino superior, decidiu-se pela Academia de Belas-Artes de Cantão, onde completou licenciatura e mestrado. “A minha família tem uma relação com a pintura e a arte. Na minha casa convivi muito facilmente com as cores e as tintas quando era criança. O meu pai é pintor e, durante a escola secundária, nos meus tempos livres, sempre pintei”, conta.

Em Cantão, veio a formação clássica. “Soube que havia essa universidade que me permitiria continuar a pintar, então decidi inscrever-me.” Em 2008 regressou a Macau, onde continuou a criar ao mesmo tempo que dava aulas de pintura. Mas depressa resolveu regressar à Província de Guangdong, para fazer o mestrado. “Posso dizer que, durante os sete anos de estudo em Cantão, aprendi exclusivamente pintura clássica. Então, porque é que evoluí para esta forma mais abstracta e conceptual? Porque percebi que, mesmo na pintura clássica, os pintores estão sempre a trabalhar com o espaço e a luz. Usei estes dois conceitos, espaço e luz, como pontos de partida. A luz é um elemento muito importante no impressionismo, mas a luz nos nossos dias não é a mesma que existia no período dos impressionistas. Hoje em dia a luz vem também desse espaço virtual. Por isso tive de usar essa luz moderna, a luz desse espaço virtual, para poder criar. Gosto de extrair este tipo de elementos básicos para criar o meu universo e desenvolver os meus trabalhos.”

 

 

Jogo de contrastes

É possível olhar à distância as pinturas de Sylviye Lei que preenchem as paredes da Arte Periférica e não perceber que se trata de uma série de trabalhos a óleo sobre tela. As cores esbatidas e as formas geométricas remetem, de facto, para um ambiente virtual que não associamos com facilidade a uma das mais tradicionais formas de pintura. Poderia pensar-se que se trata de impressões digitais de alta qualidade, a partir de imagens criadas e processadas em computador.

É neste jogo – ainda que inconsciente – entre tradição e modernidade que reside o interesse do trabalho de Sylviye Lei, pintor que assume a admiração por Mark Rothko, um dos mestres do abstraccionismo expressionista. “Uso óleo porque é o material com o que mais estou familiarizado. Quero usar materiais simples, que julgo poder controlar bem, para expressar as minhas ideias, e esta é a melhor forma de expressá-las.”

Afinal, que ideias e que artista se escondem por trás destes trabalhos? Há aqui uma crítica ao modo cada vez mais virtualizado da existência humana, ou apenas uma vontade de questionar este estado de coisas? “O que faço é questionar essa realidade. Só posso deixar o público ter diferentes sensações questionando o que me rodeia”, prossegue o artista, que admite ser também ele “uma pessoa que usa muito os ecrãs”. “Vivo numa cidade moderna, portanto tenho de usar sempre um telemóvel.”

 

 

Na China como em Portugal, tarefas que vão da mais elementar leitura de notícias e da consulta do estado do tempo, ao pagamento e compra de diferentes bens e serviços, muito do que antes requeria visitas a diferentes lojas e departamentos se faz agora online. “Nós, as pessoas que vivemos em Macau, estamos a fazer tudo – pagar o cartão de crédito, fazer compras, enviar encomendas – estamos a fazer todas estas actividades nesse espaço virtual. Essa foi a motivação para fazer esta série de trabalhos”, refere Lei.

Ao debruçar-se sobre o tema, foram surgindo outras descobertas, como as formas que começou a encontra ao apreciar os diferentes ecrãs com que coabita. “Descobri que este espaço virtual é composto de formas e imagens geométricas que estão nos ecrãs. Se ampliarmos um ecrã, encontramos uma série de imagens geométricas. Então, tentei recriar na pintura este espaço virtual, através de formas geométricas.” O pintor fala de “camadas que são como as costelas do espaço virtual e que servem para deixar a audiência penetrar e viver esse espaço”, sendo que o mais importante para Lei é “que o público pense sobre este espaço virtual, se é algo bom ou mau para nós”.

Apesar de evitar fazer juízos de valor, o universo virtual parece-lhe sempre um lugar desprovido de emoções e sentimentos. Nas suas pinturas, as cores servem para acrescentar essa nota emotiva. “Não darei uma definição para cada cor e cada emoção, porque as cores têm significados diversos para diferentes pessoas. Há quadros que são obviamente felizes, o cor-de-rosa que está bastante presente, depois a transposição da cor para lilás e para azul… há qualquer coisa muito sensual ali e, quando uso o azul, sinto essa sensualidade e excitação, mas essa é a minha definição, a definição do público pode ser diferente. Para mim, quando entro neste espaço sinto que é um espaço muito sensual, que me transmite felicidade.”

 

 

Arte que viaja

A primeira exposição individual de Sylviye Lei aconteceu em 2011, em Taiwan, com o título “Steal Into”. Seguiram-se “Emptiness” (2011), “Echo” (2013) e “LIGHT” (2014), todas na sua cidade natal. Nos últimos anos, o autor participou em várias mostras colectivas com outros jovens artistas plásticos de Macau, como o pintor Lai Sio Kit e a escultora Ann Hoi. O prémio que lhe foi atribuído pela Fundação Oriente, e que contempla um valor pecuniário de 50 mil patacas e uma residência de um mês em Portugal, é a mais importante distinção já conseguida por Lei.

“Nunca antes tinha entrado nesta competição, foi apenas depois de alguns amigos terem participado e dado um bom feedback que decidi submeter o meu trabalho. O mais importante, para mim, é ter esta possibilidade de vir à Europa e deixar que as pessoas daqui vejam os meus trabalhos. Estou muito contente com esta exposição, sinto que esta série é muito mais madura que as anteriores”, nota. Agora, a ideia passa por “perceber e experienciar se os trabalhos são aceites aqui, ver qual é a reacção das pessoas a este espaço virtual”.

Em Lisboa, Sylviye Lei diz não sentir “as tensões da cidade”. “Não sinto que esteja numa cidade, como acontece em Macau. A vida aqui permite-me pensar profundamente, porque tenho o espaço e a atmosfera para poder pensar sobre alguma coisa a um nível muito profundo.” Do trabalho de preparação da mostra “Sequência Dimensional”, destaca o apoio recebido. “Em Macau, se quero apresentar uma exposição, tenho de ser eu a preparar tudo. Aqui, tenho mais pessoas para ajudar e mais tempo para preparar. O que é realmente bom é as pessoas da galeria terem dado as suas opiniões, muito profissionais, sobre como apresentar os meus trabalhos.”

 

 

Ainda antes da inauguração da mostra, algumas das pinturas de Lei estão já reservadas por compradores. O artista, porém, prefere não valorizar esse facto em demasia. “Não me atrevo a pensar que o meu trabalho possa vender muito bem aqui, ainda que algumas pessoas já tenham reservado parte das minhas pinturas. Em Macau, normalmente, as pessoas não têm qualquer reacção face às minhas pinturas, e, portanto, isto deixa-me satisfeito, mas o que quero mesmo é ouvir o feedback do público, porque é a minha primeira vez com uma exposição na Europa”, diz.

Lei acredita que tanto os males como as vantagens do tempo em que vivemos são transversais a grande parte do mundo. O fascínio com a realidade virtual, por exemplo, explica-o assim: “Superficialmente a nossa vida tem imensas repetições e pode parecer invariável, mas quando as pessoas entram no espaço virtual já não é assim. Quando entramos nesse espaço, é como se voltássemos a ter o controlo de alguma coisa que não controlamos na vida real.”

Sylviye Lei faz parte de uma geração de artistas de Macau que é provavelmente a primeira a tentar profissionalizar-se, mostrar o seu trabalho noutros países e regiões, e dedicar mais tempo à criação artística. “Na minha opinião, os artistas desta geração, como Lai Sio Kit, eu e outros ainda mais jovens, têm colocado imensos esforços no desenvolvimento da cena artística [do território]. Acho que todos os artistas em Macau, os mais jovens, deveriam focar-se em pensar nos principais elementos do trabalho artístico, porque os nossos trabalhos ainda são um pouco superficiais. Na verdade, isto não acontece apenas em Macau. Noutras cidades, por todo o mundo, as pessoas estão sempre em contacto com imagens, todos os dias. Recebemos demasiadas imagens e ficamos cansados desse mundo visual. Consequentemente, se um trabalho artístico é mais simples e mais directo, é mais fácil para as pessoas aceitá-lo.”

É exactamente essa tentação simplista que Lei considera ser preciso contrariar: “Ainda que também seja interessante expressar algo directamente, eu sou o tipo de pessoa que quer pensar sobre alguma coisa mais profundamente, não apenas à superfície.”

 

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