Quarta-feira, Maio 27, 2020
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Uma nova casa para os livros

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Dia de folga para Chiu Cheng Keong. O taxista de 64 anos está sentado numa das mesas da Biblioteca do Patane a ler o jornal. Até este espaço abrir, em Dezembro de 2016, Chiu frequentava a Biblioteca do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, no centro da cidade. “Esta localização é muito prática para toda a comunidade”, diz agora à MACAU. “Vivo aqui perto, a biblioteca é bonita, espaçosa, confortável”, acrescenta.

Passam poucos minutos das quatro da tarde, a Sala dos Jornais e Revistas, uma das 11 áreas da nova Biblioteca do Patane, está praticamente cheia. Homens, sobretudo, sentam-se alinhados nas mesas a folhear os jornais do dia. Ao fundo, numa das paredes laterais, estão penduradas antigas portas de madeira e outras peças que aqui foram encontradas antes das obras de renovação, como janelas, pilares, canalizações. A sala tem um pé direito alto, equivalente a dois andares, e os cortinados brancos, tipo rolo, estão ligeiramente corridos. Das janelas, que vão até ao chão, chega a luz de um dia de chuva, a vida do Porto Interior.

Nesta sala estão disponíveis cerca de 80 jornais e 600 revistas. “Não venho aqui para ler apenas um jornal, mas vários”, continua Chiu Cheng Keong. E quando nos formos embora, cerca de uma hora depois, Chiu ainda aí estará, sentado na mesma cadeira, costas direitas enquanto lê.

 

 

Do comércio à literatura

Os sete edifícios localizados entre os números 69 e 81 da Rua da Ribeira do Patane, transformados agora em biblioteca, foram construídos nos anos 1930 do século passado e combinam elementos arquitectónicos europeus e do Sudeste Asiático. Eram casas-loja (do inglês shop-house), uma tipologia tradicional da região que apareceu em Macau no século XIX e primórdios do século XX e que combinava a actividade comercial e habitacional – o piso de baixo era utilizado para o negócio e os pisos superiores serviam como residência.

Encontramo-nos neste momento no mezanino. Neste andar intermédio encontra-se uma sala com computadores. Uma criança e uma mulher estão de auscultadores, não dão pela nossa presença.

O projecto de renovação levou quase seis anos a estar concluído. “Quando aqui chegámos, a situação não era boa, porque estes espaços não eram utilizados há muitos anos e havia problemas estruturais, intervenções ilegais e muito lixo”, relembra Lam Kai Wun, arquitecto do Instituto Cultural, que nos acompanha numa visita guiada.

Foram necessários cerca de dois anos para retirar o lixo e as estruturas ilegais do local. Depois disso, o Instituto Cultural deu início aos trabalhos de restauração. Ao reconverter o espaço em biblioteca, este departamento do governo da RAEM tinha como objectivo transformar as sete casas-loja num pólo de transmissão de cultura e conhecimento. Também dar a conhecer às novas gerações um pouco da história da cidade.

 

 

Relembrar a história

“A história é o mais importante”, sublinha Lam Kai Wun. O arquitecto explica que o Instituto Cultural tentou conservar ao máximo a identidade deste grupo de edifícios. “Preservámos a fachada e demolimos o interior de quatro dos sete edifícios porque estavam em más condições”, nota o responsável. Já os outros três edifícios permitem-nos agora reviver décadas de história. Ainda lá estão canalizações e pilares com cerca de 80 anos de vida.

Neste último andar, foi aproveitada e modificada uma janela da estrutura original com vista para as águas e embarcações do Porto Interior. É nestes três primeiros edifícios que circula o menor número de pessoas. As estantes com os livros foram também levadas para as áreas recuperadas de raiz. “Os livros são muito pesados e precisávamos de novas estruturas para aguentarem o peso”, explica Lam Kai Wun.

Lá em baixo, no pátio de entrada, o chão é feito de azulejos, que em tempos pertenceram a outras construções de Macau que foram demolidas.

Já o espaço reservado às crianças foi decorado com um antigo guindaste encontrado no local. “Existiam estaleiros navais aqui perto e, por isso, encontrámos algumas partes de barcos e outros equipamentos. Mantivemos este guindaste propositadamente, assim temos algumas histórias para contar aos leitores”, conclui o arquitecto.

 

 

Para toda a comunidade

Ainda no que diz respeito aos mais novos, falamos agora com Lam Kin Seng, chefe funcional das bibliotecas públicas da parte Oeste de Macau: “Os pais vêm geralmente com as crianças ao fim-de-semana. Temos livros coloridos e livros a três dimensões, que são os mais populares.” Na sala dos pequenos, as estantes são baixas para facilitar a consulta de livros.

Mas Lam Kin Seng diz à MACAU que o novo espaço pretende chegar a todas as faixas etárias. Antigamente, a população residente na área do Patane frequentava bibliotecas localizadas noutras zonas da cidade, como a Ilha Verde ou o Jardim de Camões. Hoje não precisam de ir tão longe. Os mais velhos passam por aqui logo de manhã para ler o jornal, refere o responsável. “Lêem porque se preocupam com os assuntos da actualidade, mas também requisitam livros. Também organizamos uma série de actividades para diferentes grupos etários, como palestras ou sessões de leitura para os mais velhos”, acrescenta Lam Kin Seng, referindo que, além de serviços de leitura de jornais e revistas, existe ainda uma pequena sala de exposições e uma zona de multimédia, onde são projectados filmes e organizadas outras actividades.

De acordo com Lam, os adolescentes são aqueles que mais frequentam o local. “São sobretudo estudantes que por volta das quatro ou cinco da tarde, depois da escola, vêm fazer os trabalhos de casa. Aqui também podem requisitar livros para os trabalhos”, vinca o responsável. Já para as mães que querem trazer os bebés até ao mundo dos livros, está disponível uma sala de amamentação e um fraldário.

 

 

 

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MOP 26 milhões

custo total da renovação

 

6 anos

para concluir o projecto

 

1130 metros quadrados

área total da biblioteca

 

169

lugares de leitura

 

700 pessoas

média de visitantes diários
15.000

livros nas estantes

 

80

jornais

 

600

revistas disponíveis ao público

ARTIGO