Segunda-feira, Maio 25, 2020
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Viagem aos tempos áureos do comércio pelos mares

 

 

 

Texto e fotos José Simões Morais

 

No século XII, durante a Dinastia Song do Sul, um mercador proveniente da Ásia Central deslocou-se à China para comprar porcelanas para serem revendidas na Índia e nos países árabes – um negócio muito famoso pelo alto retorno lucrativo na altura. Como a carga era muita, o mercador decidiu investir no arrendamento de um junco chinês de três mastros em Quanzhou, na Província de Fujian, o então principal porto da Rota Marítima da Seda.

Nessa altura os barcos partiam em Novembro e com ventos de feição atingiam Sumatra, onde esperavam até à Primavera para, de novo ajudados pelos ventos, atingir o Golfo Pérsico. Usando a bússola marítima, inventada no século XI, navegavam 5000 milhas náuticas em dois meses sem costa à vista e regressavam à China entre Maio e Junho. Segundo a obra Song Shi (‘História da Dinastia Song’), os principais itens de exportações eram a seda, a porcelana, o chá, o chumbo e o estanho.

 

 

Com capacidade para 80 toneladas de carga, o junco de 30 metros partiu de Quanzhou com a porcelana e aportou em Yangjiang, em Cantão, onde o mercador voltou a carregar mercadoria (sertãs e pregos). Com o excesso de carga, o junco não chegou a bom porto. Na verdade, naufragou não muito longe do ponto de partida, no Mar do Sul da China, na foz do Rio das Pérolas.

Depois de mais de 800 anos esquecido no fundo do mar, o junco foi encontrado em 1987, quando uma equipa britânica andava à procura de um barco da Companhia das Índias Orientais, naufragado no século XVIII com uma carga de seis caixas de prata e centenas de toneladas de estanho. A descoberta do junco da Dinastia Song foi uma agradável surpresa e este foi então baptizado de Nanhai n.º 1.

 

 

Com as coordenadas conhecidas, as pesquisas começaram a 10 de Junho de 1987 ao largo da ilha de Nanpeng (pertencente a Yangjiang) e a Companhia UK Ocean Survey tinha um mês para o encontrar. Nessa altura, desenterravam-se por toda a costa da China inúmeros tesouros que confirmavam o esplendor da Rota Marítima da Seda e que lançaram as bases para à arqueologia marítima por parte de investigadores chineses.

O radar acústico percorreu vastas áreas de fundo de mar sem sucesso algum. A equipa de investigadores estava já prestes a abandonar o local quando, finalmente, a 5 de Agosto de 1987, o sonar detectou algo a 20 milhas marítimas da costa. Os mergulhadores desceram a uma profundidade de 24 metros, para um local de muito pouca visibilidade e com a ajuda da luz de lanternas encontraram um pedaço de madeira de dois metros, que parecia ser os resquícios de um mastro.

 

 

O contrato de investigação estava prestes a terminar e, para minimizar custos, os britânicos optaram por fazer dragagens. Com um braço de uma tonelada, os especialistas retiraram do fundo do mar 247 relíquias, entre elas moedas de bronze, sertãs de ferro, um cinto de placas de ouro com 575 gramas e 1,7 metros de comprimento e muita porcelana, quase toda partida.

Os achados foram transferidos para a Administração Estatal do Património Cultural da China e os arqueólogos concluíram que o tesouro era datado da Dinastia Song do Sul. Como aquilo nada tinha a ver com o barco dos britânicos, foi ordenado o término dos trabalhos de prospecção, o que aconteceu a 12 de Agosto.

 

 

Reviravolta na arqueologia

Com o intuito de proteger as relíquias escondidas no fundo do mar, e devido a um maior interesse dos ‘caçadores’ de tesouros estrangeiros, o Governo chinês começou a investir fortemente na arqueologia subaquática. Abriram-se acções de formação com cursos de mergulho, construíram-se embarcações para dar suporte às investigações marítimas e formaram-se especialistas na área.

Depois de 15 anos de muito trabalho de preparação, as autoridades decidiram, em Outubro de 2003, que era hora de levantar o junco do fundo do mar. Em Novembro daquele mesmo ano, o Governo da Província de Guangdong iniciou a construção do Museu Marítimo na Ilha de Hailing, onde deveria estar localizado o museu que exibiria o Nanhai n.º 1.

 

 

A Ilha de Hailing era um local com grandes potencialidades turísticas ainda por explorar, assim como encontrava-se próximo de onde o Nanhai n.º 1 iria ser resgatado e trazido para junto a terra, pois o projecto inicial era o museu ficar sobre a água. A ideia de um museu inteiramente marítimo não avançou, e foi então projectado para as areias da praia de Shiliyintan um museu com uma arquitectura inovadora: um edifício que representa um barco ao avesso, não havendo paredes planas, só curvas representando o casco. A sensação que se tem no seu interior é a mesma que estar dentro de um barco, mas com a estrutura invertida, voltada para fora e aberta. As suas ondulantes curvas projectam o mar à sua frente.

A 8 de Abril de 2007 começaram os trabalhos para retirar o Nanhai n.º 1 da água, que ficaram concluídos a 22 de Dezembro, com a ajuda de uma enorme embarcação grua. O contentor com o junco da Dinastia Song entrou no edifício principal do museu a 28 de Dezembro. Aí, numa ampla sala, fora construído um enorme tanque cujo ambiente tinha as condições mais favoráveis para o preservar. Ao lado, um outro edifício comprido, em forma rectangular, complementa o edifício do museu, sendo onde se encontram os serviços de apoio.

 

 

Visita guiada

Aberto ao público em 24 de Dezembro de 2009, o museu custou 220 milhões de yuans e tem capacidade para receber 6000 pessoas de uma só vez, mas os limites para cada dia são de 3000 visitantes. Todas as peças e placares expostos encontram-se legendados em chinês e inglês.

O museu, dividido por dois andares e oito secções, apresenta no salão de entrada um ecrã que vai passando um filme com imagens gráficas de como a operação da recuperação do barco foi efectuada. Na grande sala do rés-do-chão estão expostos objectos encontrados no distrito de Yangjiang, como um enorme tambor da Dinastia Han do Leste, com 0,82 metro de altura e 1,42 metro de diâmetro, descoberto em 2009, assim como vidros coloridos da Dinastia Tang e minerais da região.

 

 

Além de mapas antigos como o de Heródoto de 450 a.C. e de Homero, há um mapa da Dinastia Song dos países estrangeiros e referências à história da navegação fenícia. Referidos estão os Deuses do Mar, como Poseidon da Grécia, a deusa Mazu (A-Má) da costa Leste do Sul da China e Zhurong, o deus do Mar do Sul, estas duas últimas divindades chinesas representadas em estátuas.

Ao lado do pavilhão central do edifício, fica o Palácio de Cristal, no qual  se encontra uma piscina com 60 metros de comprimento, 40 de largura e uma altura de água de 12 metros, a um nível mais baixo do que a areia , já que a água para a encher vem do mar e é mudada regularmente.

 

 

Os cuidados com a temperatura da água são grandes, para não permitir que as bactérias se desenvolvam e reproduzir o ambiente do local onde o barco passou mais de 800 anos. Como o mar se encontra em frente ao museu, estão no primeiro andar as salas com as peças mais importantes para, em caso de inundação, a água a elas não chegue.

Já no primeiro andar desse pavilhão vê-se uma enorme janela virada para a praia, que serviu de porta de entrada ao contentor, onde o barco foi transportado, e repousa agora no centro da piscina. Passando de sala em sala e ainda no primeiro andar, encontra-se um fato de mergulhador vestido por um manequim dentro de um tanque fechado com água. Na restante parte da sala, o chão coberto por vidros deixa ver areia e conchas a representar o fundo marinho, e nas paredes laterais, fotografias que contam histórias ligadas com a actividade subaquática.

 

 

Aí se explica ter a arqueologia subaquática começado no século XIX e o equipamento de mergulho (scuba) ser uma invenção da marinha francesa de 1943. Também se lê o que um arqueólogo japonês disse ao ver o que fora encontrado no Nanhai n.º 1: “Nos museus do Japão apenas existem três peças de porcelana yingqing azul-branco, agora vocês acharam um barco inteiro cheio delas”.

Voltando ao rés-do-chão, após descer as escadas onde a popa está representada, os mastros colocados em diferentes posições dão uma envolvência ao visitante, fazendo-o sentir no interior de um barco. No que parece ser o convés principal, expositores mostram objectos, como um espelho em bronze, alguns pregos e peças de cerâmica.

De seguida, uma entrada ao estilo árabe leva-nos a mapas e quadros temáticos, como “A Idade das Descobertas”, “Comércio Marítimo” e imagens de estrangeiros que à China chegaram como São Francisco Xavier, Mateus Ricci, Ibn Batutta e Bodhidharma, o monge indiano que introduziu o Budismo Chan na China. Viajantes chineses também aí estão representados como o monge budista Yi Jing (635-713), que fez uma peregrinação ao Oeste embarcando em Cantão num barco persa, e o mapa da viagem de Zhou Daguan, que em 1296 partiu de Wenzhou e ficou durante um ano no Camboja, tendo escrito um livro sobre Angkor, então capital. Mais à frente, um mapa onde luzes indicam as sete viagens realizadas por Zheng He, encontrando-se ao lado o seu busto.

Num recanto, fotografias antigas de Cantão ladeadas por placas de cobre gravadas em relevo mostrando diferentes embarcações estrangeiras que aí chegavam e, ao lado, placares explicativos fazem referência ao Guangzhou Shisanhang (os 13 hongs em Cantão), apresentado em imagem.

 

 

Relíquias

Umas escadas levam à proa do barco e ao subi-las entramos na sala mais importante do museu, onde estão expostas algumas das peças mais bem conservadas achadas durante o resgate do barco. Há exemplares de cada um dos diferentes tipos de porcelana encontrada e outras peças como parte de um objecto lacado, anéis e pulseiras em ouro. Já o cinto banhado a ouro foi para o Instituto Provincial de Relíquias Culturais e Arqueológicas de Guangdong. Estima-se haver entre 60 a 80 mil peças no interior do junco e dos objectos já retirados, cerca de 4000 foram transferidos, em 2004, para o Museu Nacional em Pequim.

Muitos dos pratos não tinham as formas usadas na China, o que indica que foram feitos por encomenda e são provenientes de diferentes localidades, dado que se comprova devido ao uso de variados fornos: há peças de Hutian em Jingdezhen, na Província de Jiangxi; de Longquan na Província de Zhejiang, e de Fujian, dos fornos de Dehua, de Cizao situado a Sudoeste de Quanzhou e de Yi, do forno dragão em Minqing.

Descendo ao rés-do-chão, numa sala ampla a representar um barco, cujo leme está ligado a um simulador, um grande ecrã ocupa toda a parede e vai mostrando imagens da costa e percursos de navegação. Os visitantes podem agarrar no leme e pilotar o ‘barco’, podendo guia-lo pela costa a partir de Cantão até alcançar outros portos.

No regresso a pé a Zhapo, podemos avistar ao longo do caminho gravuras gravadas em pedra que representam os diferentes tipos de embarcações que existiram na China.

 

 

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Zhapo, um bom porto de abrigo

A cidade de Yangjiang (阳江) é o ponto de passagem para a Ilha de Hailing (海陵岛), onde a Sudoeste se encontra Zhapo, uma das seis mais importantes vilas piscatórias da China. Serve-nos de base para provar bom peixe e marisco, uns dias de praia e visitar o Museu da Rota Marítima da Seda de Guangdong.

Há autocarros que partem de Gongbei, na fronteira de Zhuhai com Macau, para Yangjiang, capital do distrito com o mesmo nome. A partir daí transitamos para um autocarro mais pequeno que nos leva a Zhapo (闸坡). A viagem de 300 quilómetros faz-se em cerca de três horas e meia. Encontrar alojamento não é tarefa difícil, já que Zhapo está já preparada para servir o turismo. A grande maioria dos resorts e complexos hoteleiros situam-se ao longo da baía Da Jiao (大角湾).

Todas as manhãs chegam ao porto centenas de barcos de pesca e daí partem camiões carre

gados de peixe e marisco vivo para todo o país. O número e a variedade de embarcações demonstram a vitalidade deste porto, onde uma grande parte da população desta vila tem o seu ganha-pão. A variedade de peixe é enorme e o número de marisco apresentado nos aquários dos restaurantes revela estarmos num sítio ideal para os provar. Para além de diferentes tipos de camarão e caranguejos, é-nos apresentado o limulus (Tachypleus tridentatus), um dos animais mais antigos ainda existentes, com 300 milhões de anos, cujo corpo é coberto por uma carapaça, a esconder as inúmeras patas e uma cauda.

Na China, quando há um grande respeito por alguém, ou por alguma coisa, nunca se chama pelo nome. E é assim que a população local também trata o peixe, o seu ganha-pão diário. Nunca o designa por yu (peixe) referindo-o como san sin (fresco).

Ao peixe, que simboliza a embarcação, não se deve cortar a cauda pois é como partir-lhe a popa. Tampouco pode-se virá-lo após comer um dos seus lados, já que acredita-se que traz má sorte ao pescador pois virar o peixe é como virar o barco de quem o trouxe à terra. A sul do porto encontram-se muitos viveiros de peixe e ostras, havendo restaurantes sobre a água a servir de ancoradouro aos barcos de pescadores, que aqui embarcam turistas para experimentar uma hora de faina.

Com o sol a raiar 300 dias por ano (referido num cartaz turístico), entre Abril e Novembro a temperatura média da água do mar é de 22 graus. A baía Da Jiao (大角湾) tem a maior parte das praias da vila, mas está vedada na parte central aos que sem pagar pretendem atravessar a pé pela areia e Ma Wei Dao (马尾岛), onde se encontra um pequeno templo a Beidi. Situada ao lado do porto e de frente a uma ilhota verdejante com um farolim, na maré baixa fica transformada em península, com acesso por uma língua de areia. Pequena enseada de águas tranquilas e pouco profundas, qual piscina natural, é o melhor local para assistir ao pôr-do-sol.

Mas a grande praia, com 5,7 quilómetros de comprimento de areia prateada é Shiliyintan (十里银滩), distante quatro quilómetros de Zhapo. Para se chegar ao Museu Marítimo da Rota da Seda, a passagem por Shiliyintan é quase obrigatória.

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