Segunda-feira, Maio 25, 2020
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Festa das Raparigas Solteiras ou das Sete Irmãs (七夕節) 

 

 

 

Texto de Fernando Sales Lopes 

 

 

Como sucede com todas as lendas, também esta não está fixada em nenhuma versão única, sendo todas as existentes, contudo, unânimes quanto ao facto central, isto é a aventura amorosa entre uma princesa celestial e um pobre terreno pastor de vacas, personagens principais a que se juntam o Imperador de Jade e a Rainha-mãe. A datação do início da comemoração da festividade na China é atribuída ao tempo da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.). 

Os protagonistas da história são Niu Lang (Ngâu-Lóng em cantonês), um pobre pastor de vacas, e Zhi Nu (Tchêk Nui em cantonês), uma das filhas do Imperador de Jade, que irão viver um amor profundo mas proibido, quer pelo mundo quer pelos deuses.  

Niu Lang, órfão de pais, jovem solteiro, vivia com o irmão mais velho e a cunhada. Era um rapaz simpático e trabalhador que passava os dias pastoreando os animais e colhendo ervas para seu sustento, arranjando também tudo o que fosse necessário para o bom governo das suas propriedades. Mas nem tudo era perfeito nesta suposta harmonia familiar. A cunhada não gostava dele e tentava constantemente convencer o marido a mandar embora o irmão, com o intuito de se apossar de todo o gado e terras deixados em herança pelo sogro. Porém o marido, que conhecia bem o irmão, não se deixava contaminar pelas histórias da mulher, até ao dia em que ela o atingiu com seta certeira, ao inventar que o irmão, na sua ausência, a tinha tentado seduzir. 

 

 

Expulso de casa pelo irmão mais velho, o castigado pastor apenas levou consigo um velho búfalo que pertencera a seu pai. O que Niu Lang não sabia era que o búfalo tinha poderes, e que tinha sido com a sua ajuda que o pai conseguira deixar aos filhos um bom pecúlio, de que ele agora tinha sido afastado. Para seu espanto, o animal, falando com voz humana, deu-lhe os conselhos necessários para a escolha dos melhores campos para as sementeiras de arroz e para a criação de gado, conselhos que o jovem seguiu e que, na prática, resultaram produtivos na fertilidade das sementeiras e na qualidade dos animais. Para que a vida corresse bem só lhe faltava uma companheira.  

 

Um sonho e um amor impossível 

Uma noite, Niu Lang visionou em sonhos uma bela donzela a seu lado, num lar harmonioso onde não faltavam crianças correndo pela casa. Acordou num sobressalto como se a visão fosse uma realidade. Saiu pela madrugada para um passeio à beira rio com o búfalo, a quem contou o sonho, o qual de imediato lhe deu a notícia de que em breve teria uma companheira. Ora acontece que, nesse mesmo tempo, uma das filhas do Imperador de Jade, Zhinu, a mais prendada de todas e a tecedeira dos mais belos trajes da corte celestial, cansada do contínuo, rotineiro e infindável trabalho, desafiou as irmãs para descerem até à terra para se divertirem e usufruírem de tudo o que a terra lhes podia dar, gozando um descanso merecido.  

 

 

Passando pela floresta frondosa por onde serpenteava o rio, o pastor apercebeu-se de um restolhar como se alguém se escondesse, e olhando para o local de onde vinha o som, viu que no rio se banhavam, brincando e gargalhando, sete raparigas. Niu Lang ao ver de longe Zinu ficou preso à sua beleza, condição que não passou despercebida ao búfalo, que aconselhou o pastor a esconder a roupa da bela tecedeira.  

As irmãs, ao verem o que acontecia, voaram para os céus deixando a irmã na terra. Zinu, triste e desiludida, chora desesperada gritando e implorando pelas suas roupas e o pastor respondeu ao apelo indo buscá-las mas fica estarrecido a olhar para a linda princesa. Dizia o costume que, como a tinha visto nua, seria obrigado a casar-se com ela. Contudo, não foi preciso lembrá-lo porque logo ali ele a pediu em casamento e caíram de imediato nos braços um do outro.  

Conta-se que pouco tempo depois nasciam dois gémeos, formando assim uma família feliz e plena de amor. Porém, a felicidade não seria eterna já que o Imperador de Jade e a Rainha-mãe, começaram a ficar preocupados com a longa ausência da filha na terra, pois, para além do mais, as divindades começavam a queixar-se da falta de roupagens novas tecidas por quem tão bem as criava.  

 

 

O Imperador e a Rainha mandaram emissários à terra que voltam com a má nova de que Zhinu tinha casado com um mortal, que tinha filhos desse casamento e vivia bem feliz. O Imperador de Jade prepara então uma manobra para recuperar a sua filha, mandando os enviados de regresso à terra, agora com a missão de levarem de volta a princesa tecedeira. E assim, acontece. Na terra fica Niu Lang com os seus dois filhos, choroso por perder a sua amada e por nada poder fazer, pois aos mortais está vedada a possibilidade de voar até aos céus. É então que o velho búfalo revela a sua amizade e compaixão pelo amigo pastor, dando-lhe conta de que em breve morreria e que, logo que tal acontecesse, deveria o pastor tirar-lhe a pele e vesti-la pois, com ela, poderia voar até ao firmamento com os seus filhos para se juntar à sua amada no céu.  

E assim aconteceu. Niu Lang vestiu a pele do búfalo, colocou cada um dos filhos em seu cesto que carregou numa pinga e voou até ao céu para que a família se reunisse e a felicidade fosse eterna, mas a aventura ainda não terminara. No momento em que os dois se estão a aproximar, a Rainha-mãe, tirando um gancho dos seus cabelos, riscou o céu separando os amantes, criando assim a via láctea  que os apartaria para sempre. O choro lancinante da princesa levou a rainha a convencer o Imperador de Jade a permitir que, uma vez por ano, no duplo sete, o casal se possa reencontrar por uma noite. E é nesta noite ― a do sétimo dia da sétima Lua― que todas as pegas da Terra, aves da felicidade na cultura chinesa, formam uma ponte sobre a Via Láctea, conhecida pelos chineses como “rio de prata”, por onde os amantes passam para se juntarem. Uma noite de alegria para a família que se reúne, uma aurora de tristeza na hora da separação, por isso a lenda assinala que, pela madrugada neste dia, cai sempre uma chuvinha leve que são as lágrimas de Zhinu na hora da despedida. 

 

 

 

As irmãs do Sete-Estrelo  

As sete irmãs da lenda chinesa, que muitos afirmam ter tido origem no Japão, mais não são do que as Plêides, constelação mitológica em quase todas as culturas e civilizações, que deram origem a variadas lendas. As sete estrelas mais brilhantes do conjunto estelar, são na designação mitológica grega Asterope, Mérope, Electra, Celeno, Taígete, Maia e Dríope. Desde sempre o homem teve grande atracção por estas estrelas bem visíveis da Terra a olho nu, atribuindo-lhe grande importância como indicadoras das fases agrícolas, assim como guias na navegação.  

Apenas por curiosidade, e porque o mundo é pequeno, refira-se que Mérope, na mitologia grega, foi também condenada pelos deuses do Olimpo por se ter casado com um mortal (todas as suas irmãs se uniram a divindades). Por essa razão ter-se-á escondido por vergonha, e é por isso que Mérope é uma estrela que não se consegue ver. 

 

 

As comemorações em Macau 

Socorro-me de Luís Gonzaga Gomes e Leonel Barros para descrever como se comemorava em Macau a Festa das Raparigas. Escreve Leonel Barros que o ritual começaria com as raparigas solteiras, acompanhadas das criadas, a deslocarem-se a um poço à meia-noite do sexto para o sétimo dia da sétima lua. Dele tiravam água com a qual enchiam recipientes ao mesmo tempo que pediam a bênção das sete irmãs. A água, que se cria estar abençoada por elas, seria guardada em garrafas para ser utilizada quando a saúde fraquejava, de modo a curar as maleitas.  

Eram também as jovens solteiras que se dedicavam à decoração do altar das suas casas, que seria exposto ao exterior, e que “iria prender a atenção das visitas e dos transeuntes, merecendo os mais rasgados elogios”. Os sinais simbólicos da lenda também estavam a cargo das raparigas que colocavam folhas de toranja flutuando em vasos de água, simbolizando o banho das sete irmãs, e faziam crescer em pequenos pratos searas de arroz, como símbolo da prosperidade do pastor. 

Gonzaga Gomes denomina a efeméride como “A festividade da Deusa dos Lavores”, colocando assim a tónica na importância da destreza feminina. Escreve que, na passagem do sexto para o sétimo dia, as donzelas “que aspiravam ser exímias na arte de costura e de lavores não conseguiam dormir tranquilas tal era a sua preocupação, pelo que pela madrugada se levantavam correndo para os pátios e quintais das casas, a interpretarem o significado da ténue sombra, projectada pela enigmática agulha lançada anteriormente em alguidar repleto de cristalina água (…) Mas, ai daquelas que a agulha caprichara em formar filiforme sombra de palito! Teriam de se esconder envergonhadas sob a inexorável chacota das suas companheiras que as perseguiriam implacável e cruelmente, por a sorte as não ter destinado para os delicados trabalhos de agulha”. 

 

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A Festa das Raparigas Solteiras e a Festa da Lua são festas essencialmente femininas, com algumas semelhanças nas suas práticas, e até nas mitológicas lendas que as consubstanciam, com amantes separados e amores frustrados pelos deuses (pais) com a clemência ou perdão que permite um reencontro, físico ou não, dos amantes através de pontes para as estrelas ou planetas, assim como a simbologia da água.  

 

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