Segunda-feira, Outubro 26, 2020

Clepsydra

 

No mês em que se completaram 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha, foi lançada uma nova versão da única obra publicada do poeta – Clepsydra. Desta vez, veio em formato de missal, para que os leitores “possam andar com o livro, e ler, amiúde, um poema, ou os que quiserem”, reflecte Carlos Morais José, responsável por esta edição limitada 

 

Texto Vanessa Amaro 

 

Uma nova edição da obra Clepsydra em formato de missal foi lançada em Setembro, no arranque de uma semana cultural dedicada a Camilo Pessanha, quando se assinalaram 150 anos do nascimento do poeta português. Considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, Camilo Pessanha nasceu em Coimbra a 7 de Setembro de 1867 e morreu em Macau a 1 de Março de 1926, cidade onde viveu desde 1894. 

“Camilo Pessanha, um homem que nasceu há 150 anos e que morreu há 91 anos, a obra dele é isto?”, questionou, enquanto erguia no ar a nova edição em formato de missal, o responsável pela iniciativa e director do jornal Hoje Macau, Carlos Morais José. Ao mesmo tempo, desafiou os presentes a verem além da dimensão do livro de pouco mais de 70 páginas com a palavra “Clepsydra” gravada na capa de pele preta. Para tal, deu o exemplo de uma peça de teatro no Brasil que utilizou um dos poemas de Camilo Pessanha, como forma de enaltecer a repercussão do legado do autor português nos quatro cantos do mundo até aos dias de hoje. 

Segundo o editor, o formato de “missal” está relacionado com “um livro de uma cerimónia, que é a missa”. “A reza não é mais do que uma tentativa de comunicação com o transcendente”, afirmou, destacando que na obra de Pessanha “esta relação é uma transcendência que está dentro de nós mesmos”. A opção por este formato é para que todos os leitores “possam andar com o livro, e ler, amiúde, um poema, ou os que quiserem”. 

A organização do livro sofreu uma reestruturação e seguiu a “sensibilidade” do editor, que diz não ter seguido qualquer critério académico ou lógica cronológica ou temporal, nem teve em conta o local onde os versos foram escritos, em Macau e Portugal. 

Há mais de 30 anos radicado em Macau, o investigador Luís Sá Cunha destacou os vários autores que se têm debruçado sobre o estudo de Camilo Pessanha, como os também investigadores Daniel Pires, Paulo Franchetti e Pedro Barreiros, o tradutor chinês Yao Jingming, a historiadora Celina de Oliveira e o próprio Carlos Morais José. Entre algumas leituras de poemas, Luís Sá Cunha destacou “o universalismo” de Pessanha e o lado “sinólogo” do autor português, que “começou a aprender chinês quase desde o dia em que chegou a Macau” e que fez a tradução das Elegias Chinesas. 

 

 

Também o autor e tradutor Yao Jingming destacou a vertente do sinólogo. “Camilo é um exemplo para todos nós. Nós chineses temos de aprender mais português e os portugueses têm de aprender mais a língua chinesa”, afirmou, observando que “Macau tem condições para formar talentos bilíngues”.  

Yao Jingming, que entre outros autores portugueses já traduziu Fernando Pessoa ou Eugénio de Andrade, sublinhou a “tarefa árdua” de verter para o chinês Pessanha, que “não é tão conhecido na China como Fernando Pessoa”. “Traduzir a poesia dele [Camilo Pessanha] foi muito difícil. Tem muitos efeitos musicais e duplicidade de sentidos na linguagem”, afirmou. 

Na sala do antigo tribunal onde decorreu o lançamento da nova edição de Clepsidra, esteve também patente uma exposição sobre a vida do autor no Oriente. Num dos painéis expostos lia-se que “Macau foi o cenário mais constante da vida de Camilo Pessanha. Nela bebeu a música que tornou poesia, singular e rara. Partilhou conhecimento, aplicou a lei, desdenhou, amou. Fumou ópio, colecionou arte, desafiou convenções, hipocrisias e etiquetas. Sonhou, decerto ousou olhar e conhecer o outro que, tão perto, ficava do outro lado. Misturou o sangue e ali ficou enterrado”.  

No decorrer da semana dedicada ao poeta, foram ainda inauguradas a exposição de artes plásticas com o título “Pessanha, a última fronteira”, com vários artistas com obras “inspiradas no poeta”, e a exposição de fotografia “Kleptocronos”, do português António Falcão. 

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