Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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O raio-X dos investimentos da China no Brasil 

 

Texto Luís Barrucho (Especial MACAU/BBC Brasil)

 

A presença chinesa no Brasil cresce a olhos vistos desde 2008. Em 2010, o Brasil foi destino de um quarto de todas as aquisições chinesas no exterior, ou seja, o equivalente a 12,5 mil milhões de dólares norte-americanos. O percentual recuou nos anos seguintes, mas voltou a ganhar fôlego desde 2015, quando a recessão barateou os activos brasileiros. No acumulado até Agosto de 2017, o Brasil respondeu por 6,6 por cento das fusões e aquisições feitas por capital chinês, um total de 7,3 mil milhões de dólares norte-americanos.  

Além de investidora, a China é também importante parceiro comercial. É o principal destino das exportações brasileiras, de 24,3 por cento dos 126 mil milhões de dólares norte-americanos embarcados entre Janeiro e Julho deste ano. Em segundo lugar vem os Estados Unidos, que responde por cerca de 12 por cento do total acumulado no ano. 

Só este ano, segundo dados da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, os chineses devem fechar os seus investimentos na ordem dos 20 mil milhões de dólares norte-americanos na compra de activos brasileiros – 87 por cento mais do que no ano passado. 

 

 

O entusiasmo é tanto que o Brasil transformou-se no segundo maior destino de investimentos chineses em infra-estruturas no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Desde 2015, um levantamento das consultoras AT Kearney e Dealogic mostrou que a China comprou 21 empresas brasileiras, gastando um total de 21 mil milhões de dólares norte-americanos. 

“O Brasil tem sido bastante atractivo, a despeito do momento económico e político pelo qual passa. Estamos preocupados em oferecer aos usuários uma boa prestação de serviços, e comprometidos com a geração da renda e do emprego, mas sem abrir mão da qualidade técnica dos estudos”, explica Adalberto Vasconcelos, secretário especial do Programa de Parceria e Investimentos (PPI), órgão criado pelo Governo Temer em Setembro do ano passado para “ampliar e fortalecer a relação entre o Estado e a iniciativa privada”. 

No ano passado, por exemplo, só o sector de energia, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), respondeu por quase 80 por cento de todos os investimentos confirmados. As gigantes chinesas State Grid e China Three Gorges compraram, respectivamente, a CPFL e a Duke Energy, em transações bilionárias. Já a China Communications Construction Company (CCCC) adquiriu a construtora Concremat e o Shanghai Pengxin Group arrematou mais de metade da empresa de trading e processamento de grãos Fiagril. 

 

 

Neste sentido, não surpreende a intenção do Governo brasileiro, liderado por Michel Temer, de vender aos chineses projectos de concessões e privatizações no país, foco da visita que o presidente brasileiro fez a Pequim em Setembro. Na sequência, também participou da cúpula dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) em Xiamen, no sudeste do país. 

No ano passado, segundo dados do CEBC, dos 16 projectos anunciados pelos chineses, totalizando 12,5 mil milhões de dólares norte-americanos, 12 deles – ou 8,4 mil milhões de dólares norte-americanos – foram confirmados. “O montante supera o de 2015 e aprofunda a tendência iniciada naquele ano, momento em que começou a ser notável o crescimento do valor investido por empresas chinesas no país”, diz o relatório “Investimentos Chineses no Brasil 2016”, publicado anualmente pelo CEBC. 

 

 

 

‘Quarta onda’ 

O actual movimento dos asiáticos no Brasil é considerado por analistas como a quarta onda de investimentos chineses no Brasil. Iniciada em 2015, essa nova fase é caracterizada não apenas pelo aumento do valor investido, mas também pelo tipo de projectos nos quais as empresas têm focado a sua actuação. 

Naquele ano, as compras feitas pela China atingiram o patamar mais alto da história, ultrapassando o valor de 60 mil milhões de dólares norte-americanos, de acordo com um levantamento da consultora Rhodium Group. 

Na esteira do que vinha a acontecer no mundo, o Brasil também recebeu mais investimentos dos chineses, que passaram a focar-se mais na área de produção e transmissão de energia eléctrica. O agronegócio também não foi deixado de lado. 

 

 

 

Fusões e aquisições 

Outra mudança deu-se em relação ao modo de ingresso das companhias chinesas no Brasil, assinala Tulio Cariello, coordenador de pesquisa e análise do CEBC. Desde 2014, a China tem vindo a optar por operações fundamentadas em fusões e aquisições (conhecida pela sigla M&A, em inglês) de empresas que já actuam no Brasil, sejam elas nacionais ou estrangeiras. 

“Esse tipo de entrada tem sido a mais usual entre a maioria dos projectos chineses no país. Isso porque essas empresas não só conhecem o mercado, mas já sabem lidar com a burocracia brasileira. São activos que tendem a oferecer menos riscos e garantir maior eficiência”, explica Cariello. 

O especialista acrescenta que essa é uma das razões pelas quais, no passado, muitos dos investimentos chineses anunciados não se terem confirmado. Esse foi o caso, por exemplo, de 2010, quando dos quase 36 mil milhões de dólares norte-americanos de investimentos anunciados, apenas 13 mil milhões, ou um terço do total, realmente materializaram-se. 

Além disso, Cariello cita outros factores para a crescente taxa de efectivação do investimento chinês. Em primeiro lugar, as empresas chinesas – a maioria controlada pelo Estado – que hoje investem no Brasil, por exemplo, beneficiam da experiência obtida por aquelas que chegaram antes. Em segundo, os bancos do gigante asiático, que dão respaldo a investimentos e comércio bilateral, também já operam no país. Por fim, a China montou um escritório da sua agência de promoção comercial em São Paulo, o CCPIT (China Council for the Promotion of International Trade), com o objetivo de auxiliar empresas que queiram investir no Brasil. 

 

 

 

Histórico 

Segundo o CEBC, durante a primeira leva de investimentos no Brasil, a China deu prioridade a investimentos em actividades directamente ligadas às commodities (matérias-primas), o principal produto brasileiro exportado para o gigante asiático. Um exemplo emblemático disso foi a compra de 40 por cento das operações brasileiras da espanhola Repsol pela estatal chinesa Sinopec. 

Num segundo momento, entre 2011 e 2013, as empresas chinesas miraram novas oportunidades na área industrial, especialmente nos sectores de máquinas e equipamentos, automotivos e aparelhos electrónicos, vislumbrando o mercado consumidor interno brasileiro. O bom momento da economia e o mercado doméstico em expansão tornaram-se uma combinação perfeita para a chegada de companhias como a Sany (máquinas e equipamentos) e a Chery (automóveis), além da ampliação daquelas já estabelecidas no país, como a Huawei e a Lenovo (electrónicos e comunicação). 

A terceira fase de investimentos, por sua vez, começa por volta de 2013 e é marcada pelo interesse chinês no sector de serviços, principalmente no campo financeiro. Naquele momento, bancos chineses estabeleceram-se no país ou adquiriram participação accionista em bancos brasileiros ou internacionais já a operar no Brasil. 

 

 

O objectivo era apoiar a internacionalização do renminbi (a moeda chinesa) além de oferecer suporte ao comércio e aos investimentos bilaterais. A entrada no mercado brasileiro do ICBC (Industrial and Commercial Bank of China), através de um investimento inicial de 100 mil milhões de dólares norte-americanos, caracterizou esse período. 

No ano passado, entre os projectos confirmados, o sector da energia liderou os investimentos chineses no Brasil, seguido por siderurgia e mineração. Já a região Sudeste (56 por cento) respondeu por mais da metade dos empreendimentos do gigante asiático em território nacional, seguido pelo Nordeste (17 por cento) e pelo Centro-Oeste (17 por cento). Sul e Norte atraíram seis por cento dos investimentos. 

Na análise por Estado, São Paulo liderou a lista, somando 44 por cento de todos os investimentos no país. Rio de Janeiro, Goiás, Maranhão, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Ceará e Amazonas ficaram entre as Unidades da Federação melhor posicionadas quanto ao interesse dos chineses.

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