Terça-feira, Agosto 11, 2020
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A era dos pagamentos digitais  

 

Texto Sin Iok I

 

Os pagamentos digitais são a nova tendência para todo o tipo de compras e na China essa é já a realidade para cerca de 40 por cento dos consumidores, que, segundo dados da revista Forbes, renderam-se por completo à ‘carteira electrónica’. A China é, aliás, o país que mais cresce em termos de tecnologia de pagamento digital, tendo já várias plataformas bem consolidadas, tais como o AliPay, do grupo Alibaba, e o WeChat, que para além de rede social e serviço de mensagens, também vende produtos e serve como ‘banco’ virtual. Para deixar o dinheiro de lado, é só preciso andar munido de um smartphone e ter crédito nos aplicativos.  

Um relatório divulgado recentemente pelo “think tank” The Better Than Cash Alliance aponta que as duas plataformas possuem uma quota de mercado de 63 por cento dos pagamentos digitais feitos na China. Apenas no ano passado, foram transaccionados cerca de 3000 milhões de dólares norte-americanos através do AliPay e do WeChat. O documento também afirma que, entre 2010 e 2015, a percentagem de pagamentos digitais na China passou de 3,5 para 17 por cento. 

O funcionamento dessa carteira virtual é simples e cómoda. Basta instalar um dos aplicativos no telemóvel e associar a conta a um cartão de crédito ou débito. Quando um consumidor quer adquirir um produto ou serviço, os vendedores vão buscar o pagamento directamente à essa carteira electrónica, através da leitura no ecrã de um código de barras ou um código QR gerado pela própria aplicação. 

O crescimento económico chinês permanece forte, com pesquisas a indicarem que os pagamentos digitais subiram no primeiro trimestre de 2017. Neste período, o pagamento através dos smartphones expandiu 113,4 por cento, num valor total de 22,7 biliões de yuans, e outros pagamentos digitais chegaram aos 6,4 biliões de yuans, mais 56,1 por cento quando comparado com o mesmo período do ano anterior. 

Qualquer loja na China, seja ela pequena ou grande, tem visível na parede ou no balcão os  códigos QR codes do AliPay ou do WeChat, que são digitalizados pelos clientes para efectuar pagamentos. O método também é usado para pagar uma corrida de táxi, comprar um bilhete para o transporte público ou pagar as contas de casa. Além disso, entre os usuários do WeChat também são muito populares as transferências de pequenas quantias, outra forma comum de realizar pagamentos e evitar tirar a carteira do bolso. Num jantar entre amigos, por exemplo, um paga a conta e os demais transferem a sua parte do consumo. 

 

 

 

Macau segue tendência 

Em Macau, espalha-se pelo comércio local  a indicação de que pagamentos digitais são bem-vindos. O Governo da RAEM quer que a modalidade de pagamentos electrónicos passe a estar disponível em toda a cidade, depois de uma experiência em cerca de 200 lojas ter resultado em aumentos de 40 por cento nas transacções. 

“Esperamos a generalização do uso do pagamento electrónico”, afirmou o secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, durante uma sessão de interpelações na Assembleia Legislativa em Maio deste ano. Há precisamente um ano, a Direcção dos Serviços de Economia lançou o projecto “Avenida Azul”, que impulsionou a instalação de terminais de pagamento electrónico em mais de 200 lojas no centro da cidade, entre o Largo do Senado e as Ruínas de São Paulo.  

“Houve um aumento de 40 por cento no número de transacções”, apontou o director dos Serviços de Economia, Tai Kin Yip, indicando que 89,5 por cento dos lojistas apoia a continuação do projecto. “Os meios electrónicos de pagamento podem aumentar a clientela. O pagamento electrónico ajudou muito estas lojas, por isso vamos alargar o âmbito para mais lojas poderem ter pagamentos electrónicos. Além disso, o uso desta tecnologia permite traçar o comportamento do consumidor em Macau, dando dados sobre os produtos mais populares “, acrescentou o secretário. Até ao final do primeiro trimestre do ano, mais de 500 lojas tinham já instalado cerca de 1900 terminais de pagamento para estes serviços. 

Segundo Jingzhi Guo, professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Macau, o mercado do pagamento electrónico “tem um enorme potencial” na RAEM e está ainda numa fase muito inicial. Para além das plataformas chinesas, o académico realça que há também empresas locais, tal como a MacauPass, detentora dos passes para os autocarros públicos, que estão a apostar forte nesta nova tecnologia e que têm conquistado cada vez mais a confiança dos residentes. “As plataformas electrónicas ‘made in Macau’, digamos assim, já são bastante utilizadas em máquinas automáticas de venda, em parques de estacionamento e nalgum pequeno comércio. Há ainda espaço para muito mais”, diz o especialista. 

A Transmac, uma das três operadoras do serviço de autocarros públicos, foi a pioneira nos pagamentos electrónicos em Macau, quando lançou, em 1998, um cartão específico para o pagamento das viagens, o Macau Pass, que depressa se popularizou. Hoje, além de ser possível pagar o autocarro com o crédito que é adicionado a este cartão, o MacauPass tem sido aceite em vários estabelecimentos comerciais para pequenos pagamentos. O crédito máximo neste cartão local é de mil patacas, e tem de haver sempre um carregamento prévio em dinheiro, enquanto que nas plataformas chinesas não há limite e o dinheiro sai directamente da conta de banco ou do cartão de crédito associado ao aplicativo de pagamento.  

Para dar o salto para o patamar dos pagamentos móveis, a MacauPass lançou em Junho deste ano o MacauPay, que funciona do mesmo modo que os aplicativos chineses. Os usuários devem associar a sua conta bancária – apenas três bancos locais estão para já abrangidos – ou carregar o aplicativo com dinheiro (o montante máximo é de 20 mil patacas) em lojas de conveniência e supermercados. Zhang Zhihua, presidente da MacauPass, afirma que há já cerca de 1200 lojas em Macau a aceitarem este modo de pagamento e que foram registados mais de 300 mil downloads do aplicativo entre Junho e Setembro deste ano.  

Nos feriados da Semana Dourada, no início de Outubro, as transacções através do AliPay em estabelecimentos de Macau cresceram oito vezes em comparação com o mesmo período de 2016, o que colocou a RAEM no top 10 de transacções através do aplicativo em países asiáticos (Hong Kong lidera a lista), de acordo com dados da operadora Ant Financial Services Group, parte do conglomerado Alibaba. 

 

 

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Hangzhou e o fim do dinheiro real 

Cidade famosa pela sua beleza natural, Hangzhou tem sido um verdadeiro laboratório da transformação digital chinesa. É aqui que está localizada a sede do Grupo Alibaba, e a cidade de mais de nove milhões de habitantes é considerada uma espécie de Silicon Valley da China. 

Aqui os residentes conseguiram adaptar-se a uma vida sem dinheiro vivo. Hangzhou foi a primeira cidade chinesa a aceitar nos autocarros apenas o pagamento com dispositivos móveis, e até os templos aceitam doações através dos dispositivos AliPay e WeChat. Desde um petisco dos vendedores ambulantes, jantares com amigos a pagar todas as contas, tudo pode ser feito por meio digital. Os vendedores têm os seus próprios código QR para os consumidores fazerem a leitura no ecrã dos telemóveis, que é depois descarregado na “e-wallet”, por sua vez  associada a uma conta bancária ou cartão de crédito. 

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