Terça-feira, Setembro 22, 2020
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Desenhos animados, detectives, uma telenovela e mais sobre o universo de Luís Nascimento 

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Rita Antunes

 

É uma das caras do elenco da nova telenovela portuguesa “Condição Humana” e veste a pele de Zhu Jin, um homem de negócios de origem chinesa e com ligações às tríades. Pela primeira vez, Luís Nascimento regressa a Macau em trabalho. “Ainda por cima é o primeiro trabalho em televisão”, começa por dizer o macaense. 

A contracenar com actores como Diogo Infante, Fernanda Serrano, Sara Prata e João Catarré, Luís Nascimento admite que o facto de ser macaense pesou na escolha da produção. “Estavam à procura de actores asiáticos ou com traços asiáticos e foi por essa razão que fui chamado para fazer o casting. Eles não estavam a encontrar muita gente, pelo que eu sei”, realça o actor, que além da estreia na televisão, debateu-se ainda com o desafio de ter de falar uma língua que não domina. “Como a minha mãe fala cantonense, tenho andado a praticar com ela, estou sempre a ouvir os ficheiros em áudio no telemóvel para dizer da forma correcta, para ter a sonoridade correcta”, revela. 

Luís Nascimento, que esteve em Macau uma semana a filmar, estreou-se em Novembro no pequeno ecrã dos portugueses. Apareceu de madeixas brancas e com uma tatuagem de um dragão ao pescoço para dar vida ao líder da tríade “Círculo Vermelho”, um homem “cruel, ardiloso e perspicaz, disposto a abrir caminho à sua maneira” e que tem como principal rival Manuel Qiang, interpretado por Diogo Infante. “Zhu viu-se obrigado a obedecer a Manuel durante anos e perdeu imensos negócios e oportunidades por causa disso. Agora tem a oportunidade de correr de vez com Manuel de Macau e subir ao lugar que acha seu por direito”, revela uma nota biográfica cedida pelo actor.  

Questionado sobre esta primeira experiência de televisão, o macaense admite que estava nervoso, mas que recebeu “imenso apoio” da direcção de actores. À MACAU, Luís Nascimento refere que nunca imaginou que regressaria em trabalho ao lugar onde descobriu a sua vocação. “Comecei a fazer teatro em Macau, é aí que descubro que quero ser actor, vou para Portugal e quando já estou mentalizado do trabalho que faço, do meu lugar neste mundo, esta oportunidade surge. Não filmei apenas a minha primeira telenovela portuguesa, mas fiz o início do meu percurso profissional em televisão em Macau. É bizarro, mas ao mesmo tempo muito enriquecedor. Não estava à espera”, confessa o actor. 

 

Era uma vez em Macau 

Nasceu lisboeta em 1976. Luís Nascimento é filho de pai português, com raízes alentejanas e beirãs, e de mãe macaense, filha de um português radicado em Macau e de uma chinesa originária de Cantão. “Era engraçado porque a minha avó só falava chinês, eu só falava português, podia às vezes dizer uma coisa ou outra em inglês, eu não sei explicar como, mas nós entendíamo-nos”, recorda agora o actor. 

Aos 13 anos, Luís Nascimento deixa Portugal e muda-se com os pais para Macau, onde termina o ensino secundário no então Liceu de Macau, regressando posteriormente a Lisboa para ingressar no curso de Formação de Actores na Escola Superior de Teatro e Cinema. 

Foi em Macau que tudo começou, diz. Entre 1993 e 1995, o jovem macaense integra o grupo de teatro local “Min Koi – Máscara”, fundado um ano antes pelo historiador e poeta português Fernando Sales Lopes. Este era um grupo “essencialmente de gente portuguesa”, relembra Luís Nascimento, que se estreou com “Sete Exercícios Dramáticos” da escritora portuguesa Yvette Kace Centeno. Ainda com uma “pequena participação” na peça de teatro “O Meu Caso”, de José Régio, o macaense acompanhou ainda o grupo de teatro em Macau,  que em 1995 levou à cena  “A Boda dos Pequenos Burgueses”, do dramaturgo alemão Bertold Brecht. “[Esta experiência] despertou em mim a vontade de fazer isto a nível profissional”, salienta o actor, referindo que também o pai teve uma participação no grupo de teatro local em patuá “Dóci Papiaçám di Macau”.  

Durante o ensino secundário, Luís Nascimento inscreve-se ainda na disciplina de Oficinas de Expressão Dramática e integra o grupo de teatro do liceu, nessa altura dirigido pelo actor Rui Luís Brás.  

 

O mundo animado 

“Entrei no conservatório e no primeiro dia percebi que não sabia nada, que tinha uma ideia completamente romantizada de tudo e que a realidade era muito diferente”, diz o actor sobre o regresso a Portugal, em 1998. Luís Nascimento, que vivera, entretanto, quase uma década em Macau, admite que teve um percurso “único e um pouco difícil” na Escola Superior de Teatro e Cinema, com desafios logo desde o primeiro dia. “Achava que era uma pessoa extrovertida, chego lá e desde o início percebo que sou muito introvertido. Chegava a ter ataques de pânico antes de começar uma aula, porque de repente percebes que estás num mundo ao qual queres pertencer e com o qual queres aprender, mas que estás muito verde”, desabafa o actor, sublinhando, porém, a importância desses anos de formação como artista e no processo de crescimento pessoal.  

Quando terminou o curso de Formação de Actores, já Nascimento estava a fazer dobragens de desenhos animados, trabalho que, a par do teatro infantil, tem dominado a sua carreira artística. O actor já deu voz a algumas das personagens das séries “Patrulha Pata”, “Super Wings”, “Danger Mouse” e “Tartarugas Ninja”. No currículo consta ainda a dobragem do excêntrico mestre zen Shangri Lhama no filme “A Idade do Gelo: O Big Bang”, que estreou no ano passado, em Portugal. 

Sobre a dobragem de desenhos animados, o macaense nota que é um trabalho “divertido”, mas que exige versatilidade. “Estás sempre a fazer vozes diferentes, a procurar registos teus diferentes, as tuas próprias personagens e séries são sempre diferentes, por isso acabas por ter de te adaptar e criar uma versatilidade em ti que também te é útil.” 

Luís Nascimento admite que no início precisou de tempo até se habituar a ouvir a sua voz, mas também nessa altura contou com o apoio de “bons directores”.  

 

 

 

“O teatro é a base de tudo” 

Sobre aquelas que são as suas referências na área da representação em Portugal, o actor não tem dúvidas: “Grande parte são meus colegas, vejo-os como gigantes”, responde prontamente, dando como exemplo Nuno Lopes, protagonista do filme de Marco Martins “São Jorge” e vencedor do prémio de melhor actor da secção Orizzonti, no Festival de Cinema de Veneza, e no Festival Internacional de Cinema de Macau. 

No panorama internacional, Luís Nascimento destaca Kenneth Branagh, Al Pacino e Robert de Niro. “Tenho um carinho muito especial pelo trabalho de Humphrey Bogard e de James Cagney”, acrescenta o actor, realçando que, numa altura em que ainda não era comum falar sobre técnicas de representação, os dois actores já o faziam. “O Cagney era conhecido por dedicar-se aos personagens, fazendo com que cada um fosse diferente do anterior e o Bogart seguia mais o que estava no texto, deixava que o texto trouxesse ao de cima aquilo que era único e necessário da sua personalidade. Ambos tinham formas diferentes de interpretar as personagens, mas os resultados eram sempre interessantes”, observa. 

Luís Nascimento, que se tem movimentado entre as várias áreas de representação, refere que quando começou a carreira o seu objectivo era o cinema. Hoje diz que não tem preferência, embora admita que “o teatro é a base de tudo”. Há dois anos, nota, aventurou-se na escrita para teatro. “Sombra Interior”, que subiu ao palco do Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, no início de 2017, conta a história de dois homens que um dia acordam presos, sem memória e que debatem com esse mistério. A peça, baseada na estética film noir e nas histórias de suspense, reflecte o universo “muito visual” de Nascimento, que em conjunto com João Vilas, assumiu o papel de dramaturgo, encenador e actor. “O meu mundo sempre foi muito de cinema e de séries. Quando decidimos escrever, pensámos: vamos fazer teatro, mas como se estivéssemos a fazer um filme. E queríamos fazer uma coisa de suspense e de thriller. Na altura, eu andava a consumir imensos filmes dos anos 1940 – e até anteriores – de detectives, porque eu sempre gostei muito daquele tipo de universo. Começámos a criar a partir daí”, conta. 

 

Memórias 

Admite que é capaz de pensar em Macau todos os dias, que se sente macaense e que faz “parte disto”. Da vida a Oriente persistem velhos hábitos: comer dim sum, “pedir tapao” (levar os restos da comida de um restaurante para casa). “Durante muito tempo ia a um restaurante, quer fosse português, quer fosse chinês, ou mesmo outro e a comida que sobrava, levava para casa. E tanto os funcionários do restaurante, como os clientes, ficavam a olhar”, recorda o actor, frisando que actualmente este já é um hábito que se generalizou no país. 

Quando vem a Macau, onde vive a maior parte da sua família, Nascimento procura os lugares que traz na memória: o antigo Liceu, onde está hoje localizado o Instituto Politécnico de Macau, e a praia de Cheoc Van, em Coloane. “Dessa praia, lembro-me das idas à piscina, ao restaurante italiano ao pé da piscina e, mais à frente, a tasquinha onde o pessoal ia beber lemon cha e onde faziam às vezes uns frangos assados.” 

Luís Nascimento olha para a cidade que deixou há quase duas décadas com optimismo. “As mudanças são sempre boas”, diz o macaense, realçando, porém, que há ainda muito trabalho para fazer na área artística. “E criação em Macau? Aquilo que eu mais anseio ver e estou sempre à espera de ver é algo que seja de Macau e feito por gente de Macau”, conclui o actor, que espera um dia poder voltar a esta casa com um projecto em mãos. 

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