Terça-feira, Agosto 11, 2020
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Como decorar a sua casa para receber o Ano do Cão 

 

 

Texto Sin Iok I (冼玉誼) 

 

Com o Ano Novo Chinês à porta, é hora de preparar a casa para a festividade chinesa mais importante do ano. Mas antes de chegarmos à decoração do lar, vamos entender o porquê desta data estar cheia de crenças e superstições.  

O Ano Novo Chinês ou Festival da Primavera assinala o começo do novo ano lunar, o primeiro dia do primeiro mês, e o início de um novo ciclo. O seu formato está intrinsecamente ligado ao calendário lunar. No período do paleolítico, as populações primitivas habitavam aleatoriamente em cavernas, nas profundezas das montanhas, não adoptando qualquer conceito de tempo.  

Até ao neolítico, com a entrada gradual na era da agricultura, as populações de então, durante o processo da produção agrícola, começaram paulatinamente a compreender as leis da natureza associadas à mudança das quatro estações. É então que passa a surgir o conceito de “ano”, que, como tal, aparece relacionado com os trabalhos agrícolas e com a noção de tempo.  

No início, a palavra “ano” tinha apenas a conotação de tempo. De acordo com o dicionário mais antigo da China, o Shuowen Jiezi, a explicação para ano é “trigo ficou maduro”, pois “ano” define-se como o período de tempo entre a sementeira e a colheita de cereais. Com o passar das dinastias, começou a ser adoptado o formato de calendário. As antigas sociedades agrícolas chinesas atribuíam uma elevadíssima importância às orientações fornecidas pelo calendário para a produção agrícola. 

 

 

38 dias 

Tal como o Egipto, a China tem desde a antiguidade o seu próprio calendário. Antes da Dinastia Han, diferentes eras sucediam-se, intercaladas entre a guerra e a prosperidade. Cada líder fundador, por forma a assinalar a “recepção do mandato do céu”, reordenava a contagem da ordem do primeiro mês. A data definida não coincidia com a ordem correcta, sendo que tal alterava a contagem dos meses, causando o caos no calendário e confundindo a população. Até ao início da Dinastia Han, a sociedade manteve-se tendencialmente estável e economicamente cada vez mais próspera.  

O imperador Wu promulgou o calendário “Taichu”, estabeleceu os 24 termos solares no calendário, firmou o “Mengchun” como o primeiro mês do calendário lunar, e o “Yuandan” como o primeiro dia. Por fim, decretou que o início do ano fosse um feriado, uma ocasião de reunião e de comemorações. 

De acordo com os costumes tradicionais, o Festival da Primavera estende-se do oitavo dia do 12.º mês lunar até ao 15.º dia do primeiro mês, perfazendo um total de 38 dias. Embora as tradições cerimoniais tenham mudado com o passar dos tempos, a sua temática e conceito basilares permanecem intemporais. O seu fundamento essencial continua a ser a busca da felicidade e das aspirações de cada um, sendo que esta é exteriorizada através da riqueza e pluralidade desta ocasião festiva anual.  

As cerimónias do Ano Novo Chinês estão delimitadas ao primeiro dia do primeiro mês do calendário lunar. O ideal da “substituição do antigo pelo novo” é bastante óbvio. Os costumes antigos centravam-se na remoção de elementos negativos. É por isso que, nesta altura do ano, se limpam profundamente as casas, se corta o cabelo e se realizam grandes mudanças. Com o passar do tempo, o tema principal passou a centrar-se na atracção de boa sorte. São lançados panchões, colam-se dísticos de papel alusivos à festividade, colocam-se flores, vestem-se roupas novas. Embora os valores sejam os mesmos em todo o país, os costumes variam levemente entre o norte e o sul da China.  

 

 

Vermelho 

Durante a época do Festival da Primavera, o vermelho é a cor número um. Especialmente durante o Festival da Primavera, quanto mais vermelho melhor – desde a decoração até aos envelopes dos laissis. Reza a lenda que na China antiga, existia um monstro mítico chamado Nian (年, que em português significa “ano”), cuja aparência se assemelhava a um touro e a um dragão, com um longo corno na cabeça. Era extremamente feroz. Acreditava-se que ele trazia o infortúnio às populações. O Nian permanecia num palácio nas profundezas do oceano a maior parte do tempo. Com a chegada da véspera do ano novo, emergia do mar e dirigia-se à costa para devorar cabeças de gado e ameaçar vidas humanas. No entanto, sem aparente explicação, a criatura parecia temer a cor vermelha e assustava-se com o barulho dos panchões usados nas comemorações do Festival, o que contribui para o ambiente particularmente festivo desta quadra. De modo a passar uma véspera de ano novo em paz, após a tradicional ceia, todas as famílias cerravam portas e janelas e sentavam-se, aguardando pelo nascer do sol, ou escondiam-se nas montanhas para escapar à besta. 

Num certo ano, na véspera de ano novo, os habitantes da aldeia das Flores de Pessegueiro ajudaram os mais novos e os idosos a fugir para as montanhas. Uns permaneciam em casa fechados a sete chaves, outros haviam preparado as malas. O pânico estava instalado. Nesse momento, chegou à aldeia um velho mendigo vindo do exterior. Com a sua barba prateada oscilante, fazia-se acompanhar apenas de uma bengala. Quem numa altura frenética destas teria a preocupação de estender a mão a um pobre velho?  

Uma idosa, residente na região oriental da aldeia, deu apressadamente alguns alimentos ao mendigo, aconselhando-o a fugir rapidamente para a montanha para se abrigar. O idoso, cofiando a barba, respondeu com um sorriso estampado no rosto: “Se me deixares ficar em tua casa esta noite, garanto que irei arranjar uma forma de afugentar o monstro”. 

Como seria expectável, de madrugada, Nian entrou de rompante aldeia adentro. O monstro contornou a casa da idosa, em cuja entrada estava afixado um grande dístico vermelho. Quando ali chegou, foi recebido com o ribombar do rebentamento de panchões vindo do interior. O barulho ensurdecedor causou o pânico na criatura, que dali partiu a toda a velocidade.  

No dia seguinte, no primeiro dia de ano novo, os habitantes que regressaram da montanha, perceberam que a aldeia se encontrava intacta. Todos eles tiveram uma espécie de revelação, acreditando que o velho mendigo era um ser sobrenatural, enviado para lhes ensinar os métodos para afugentar o monstro e o azar. Desde então, as técnicas tradicionais para afastar Nian foram gradualmente dando lugar às conhecidas tradições do rebentamento de panchões e do uso da cor vermelha. 

 

 

Os dísticos de ano novo 

No Interior da China prevalecem ainda costumes como a colagem de dísticos de ano novo e de gravuras de deuses. Em Macau, devido às diferenças de costumes e crenças, as tradições divergem um pouco. A maior parte dos habitantes locais apenas adere à tradição da colagem dos dísticos de ano novo. Há também um ditado que refere que, devido a serem afixados deuses nas entradas dos templos de Macau, de modo a fazer a distinção entre habitações e templos, geralmente as famílias não optam pela colagem das gravuras de deuses. 

Os dísticos de ano novo chinês são também conhecidos como “Mendui”, “Chuntie”, Duilian”, “Duizi” ou “Taofu”. Todos eles, com o vermelho como cor de fundo e com caracteres pretos ou dourados, exteriorizam as aspirações da população por uma vida melhor, materializando esse desejo através de uma peculiar expressão literária chinesa.  

Muitos dos conteúdos dos dísticos de ano novo estão intimamente associadas ao dia-a-dia. Por exemplo, numa altura em que, a perda de peso é popular, as famílias poderão colar um dístico com a inscrição “Sucesso na Dieta”. A cada Ano Novo Chinês, independentemente de se desenrolar na cidade ou no campo, qualquer família irá escolher os melhores dísticos para colar à porta do seu lar, contribuindo assim para a intensificação da atmosfera festiva. Este costume teve início na Dinastia Song, tendo-se massificado na Dinastia Ming. Com a chegada da Dinastia Qing, a sua natureza ideológica e artística foi amplamente melhorada. 

Os tipos de dísticos de ano novo são bastante diversos. De acordo com o local onde são aplicados, podem ser divididas em “Menxin”, “Kuangdui”, “Huangpi”, “Chuntiao” ou “Doufang”. Os “Menxin” são colocados no centro da superfície da porta; os “Kuangdui” são afixados nos lados direito e esquerdo da moldura da porta; os “Huangpi” são afixados na parte superior da moldura da porta; os “Chuntiao” são afixados em diferentes locais, de acordo com a natureza do seu conteúdo; os “Menjin”, também chamados de “Menye”, são cortados em forma de um losango e afixados em várias peças de mobília e nas “paredes espirituais”. 

Durante o processo de colagem dos dísticos de ano novo, muitas pessoas gostam de colar nas portas e paredes da casa vários papéis com o caracter “福”. A colagem desse caracter por alturas do Ano Novo Chinês é um dos costumes populares mais antigos da China. O carácter tem o significado de felicidade, que, por sua vez, se espera que seja enviada às pessoas que anseiam por uma vida melhor. A fim de reflectir esse desejo de forma mais expressiva, muitas pessoas colocam o caracter “福” ao contrário, expressando a ideia de que “a felicidade chegou”. A expressão “ao contrário” em chinês (倒) e a palavra “chegar” (到) são homófonas, pelo que, ao colocar o caracter de felicidade ao contrário, reflecte-se, simultaneamente, em sentido figurado, que a felicidade chegou. 

O método de colagem das faixas obedece a várias regras. A primeira diz que os dísticos têm de ser colados de maneira firme, sem folgas, nem bolhas de ar. Só podem ser colados após as limpezas profundas na casa e antes da refeição de ano novo. São colados apenas nas portas para o exterior, nas janelas e apenas na sala de estar. E, por último, deve-se distinguir entre a disposição ascendente e descendente.  

 

 

 

Flores frescas 

A compra de flores por ocasião da passagem de ano é outra das tradições entre os chineses, especialmente em voga nas regiões de Macau e Hong Kong. A cada 20.º dia do 12.º mês do calendário lunar, o mercado de flores do ano novo chinês do Tap Seac é invadido por um corrupio de pessoas. Na passagem de ano, os chineses prestam especial atenção ao “auspício”. Crêem profundamente que, ao comprarem no mercado um ramo de flores vicejantes, estão a contribuir para uma melhor atmosfera de ano novo em casa, acreditando que o desabrochar das flores será traduzido em fortuna. Em Macau e Hong Kong, as flores de ano novo mais populares são: 

 

Flor de pessegueiro 

A flor de pessegueiro, a partir de uma perspectiva metafísica, tem a capacidade de trazer às pessoas a boa sorte, bem como providenciar a homens e mulheres solteiros a oportunidade de conhecerem a sua cara-metade e conseguirem um desfecho positivo. 

 

Lírio 

O lírio simboliza a união eterna e harmoniosa entre casais. 

 

Salgueiro prateado 

Colocar flores de salgueiro prateado em casa ajuda na acumulação de fortuna e património. 

 

Flor de cinco pontas da beringela 

A delicada beringela de cinco pontas, com a sua aparência dourada, assemelha-se a uma família saudável e feliz. Nos últimos anos tem sido adoptada pelos habitantes de Macau e Hong Kong como flor da passagem de ano. Simboliza a capacidade de todos os familiares atingirem o sucesso e a felicidade nas suas vidas. 

 

Aquando da passagem de ano, é possível constatar a presença de pratos de laranjas a decorar as várias as ruas de Macau. A palavra para “laranja” em mandarim é homófona da palavra “auspicioso”, tendo conotações de boa fortuna, e estando associada a um ano novo sem complicações, no qual as aspirações de cada um se possam concretizar.  

As tradições chinesas desta festividade contam já com mais de 2000 anos de história. Embora algumas delas derivem apenas de superstições antigas sem fundamento científico, os chineses acreditam que a tradição deve ser respeitada. Além disso, durante o processo das decorações é possível constatar as correntes artísticas alternativas dos chineses. 

 

 

 

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As sete decorações que não podem faltar para um Ano Novo próspero 

 

1. Lanternas vermelhas 

Para manter os azares longe de casa 

As tradicionais lanternas chinesas são usadas em festivais importantes como o Festival da Primavera e o Festival do Meio Outono. Durante o Ano Novo Chinês, não é incomum ver lanternas penduradas em árvores nas ruas, escritórios e portas de casas. Os chineses acreditam que ter uma lanterna destas à porta de casa afasta a má sorte. 

 

2. Dísticos  

Para atrair boas energias 

Com desejos e declarações, os dísticos são geralmente colados em portas e janelas. Os bons desejos do Ano Novo geralmente são publicados em pares, pois os números pares estão associados à boa sorte e prosperidade na cultura chinesa. Os caracteres são cuidadosamente escritos a preto ou dourado em papel de fundo vermelho. Muitas famílias optam por ter poemas sobre a chegada da primavera, enquanto que outras preferem escrever desejos claros, como melhor saúde, mais trabalho ou harmonia familiar. Os dísticos geralmente são mantidos até à chegada do novo ano. 

 

3. Papéis recortados 

Para atrair a felicidade e a sorte 

O corte de papel é uma arte de cortar desenhos em papel. Podem ser em qualquer cor, mas tipicamente vermelho para o Festival da Primavera. De seguida, são colados nos vidros das janelas. Esta é uma tradição bastante forte nas populações do norte e centro do País. Muitas das vezes, opta-se pela imagem de uma planta ou de um animal auspicioso. Cada um 

Representa um desejo diferente. Por exemplo, o pêssego simboliza a longevidade; a romã, a fertilidade; o pato mandarim, o amor; o pinheiro, a eternidade da juventude, ou a peónia, a honra e a riqueza.  

 

4. Pinturas de Ano Novo 

Para saudar os meses que se seguem  

As pinturas de Ano Novo (年画 ) são coladas em portas e paredes durante o Ano Novo para fins decorativos e como símbolo dos cumprimentos de Ano Novo. As imagens sobre as pinturas são figuras e plantas lendárias auspiciosas. 

 

5. Carácter da felicidade ao contrário 

Fazer com que a sorte chegue mais rápido 

Semelhante aos dísticos, e às vezes como os papéis recortados, o caracter para a felicidade (fu) invertido (福) colado na parte superior da porta é uma forte tradição deste período do ano. Uma interpretação comummente difundida é que ao ter o carácter da felicidade invertido no cimo da porta todas as pessoas que por ela passam recebem com um derrame de felicidade.  

 

6. Tangerineiras 

Para atrair a riqueza  

Em cantonês, tangerina diz-se gam gat sue. O caracter gam (金) significa ouro e gat soa a boa sorte. Portanto, ter uma tangerineira em casa simboliza um desejo de riqueza e boa sorte. As tangerineiras são muito populares especialmente nas regiões de Hong Kong, Macau, Guangdong e Guangxi, e pode-se ver muitos camiões a circularem pela cidade repletos de tangerineiras a fazer entregas. 

 

7. Flores frescas 

O Ano Novo Chinês marca o início da Primavera. Por isso, decorar a casa com flores frescas é uma tradição que faz sentido, por simbolizar justamente a chegada desta estação do ano e, ao mesmo tempo, os desejos de prosperidade. 

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