Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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Laboratórios de referência do Estado em Macau | No mapa das descobertas 

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Tiago Alcântara

 

A medicina chinesa assenta ou não em pressupostos científicos? Os mais cépticos dizem que não há provas disso, que não passa de uma ciência empírica e que, por isso, não é credível. Mas, em Macau, um grupo de investigadores está a estudar “os tesouros” desta área de conhecimento, com o objectivo de “descodificar a sua base científica através das novas tecnologias”, segundo explica Elaine Leung, investigadora do Laboratório de Referência do Estado para Investigação de Qualidade em Medicina Chinesa. 

Estabelecido em 2011 após aprovação do Ministério da Ciência e Tecnologia da China, este laboratório conta com uma equipa baseada na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) e outra na Universidade de Macau (UM) e tem como parceiro o Laboratório de Referência do Estado de Medicamentos Naturais e Biomiméticos da Universidade de Pequim. “A Medicina Tradicional Chinesa tem sido aplicada no nosso país há mais de 2000 anos e todos sabem que tem apoiantes, embora não saibamos quais são os componentes activos, que químicos são eficazes e os mecanismos de tratamento”, nota Elaine Leung, que pertence ao corpo de cientistas da MUST. 

Um dos trabalhos deste laboratório passa por perceber que plantas podem ser utilizadas para fins médicos, que qualidade têm e que doenças podem combater. Além do estudo de técnicas de controlo de qualidade e padrões farmacêuticos para produtos médicos à base de plantas chinesas, outro dos objectivos é a investigação e desenvolvimento de fármacos para o tratamento de doenças cancerígenas e metabólicas.  

Elaine Leung refere à MACAU que, para levar a cabo este trabalho, o laboratório recorre a tecnologias ómicas, como é o caso da genómica (estuda os genes de um organismo) ou a proteómica (conjunto de proteínas numa amostra biológica). 

“Sendo este um instituto educacional, a produção de publicações é muito importante”, salienta ainda a responsável, referindo que esta secção da MUST do Laboratório de Referência do Estado já publicou cerca de 400 artigos em língua inglesa em algumas das mais prestigiadas publicações científicas, como a Nature, e registou mais de 200 patentes, incluindo nos Estados Unidos e Austrália. Entre os vários prémios recebidos, Elaine Leung destaca o projecto de Liu Liang, director do laboratório e autor de uma nova abordagem de tratamento para pacientes de artrite reumatóide, uma doença autoimune.  

 

Equipas multidisciplinares 

A trabalhar na área da Biologia Molecular, Elaine Leung acredita que para erguer um Laboratório de Referência do Estado na área da Medicina Chinesa é necessário reunir equipas multidisciplinares. “As pessoas pensam que os investigadores são todos formados em Medicina Tradicional Chinesa, mas não é verdade”, esclarece. Apesar da maioria dos profissionais neste departamento ser proveniente do Interior da China, a equipa é composta ainda por um grupo de investigadores do Paquistão, Portugal, Espanha e Itália. 

Na Ilha da Montanha, nas instalações da Universidade de Macau, encontra-se a segunda casa do Laboratório de Referência do Estado para Investigação de Qualidade em Medicina Chinesa. A MACAU falou com Wang Chunming, cientista neste departamento, também ele formado numa outra área da ciência: Bioquímica. Wang Chunming, oriundo do Interior da China e com experiência profissional em Singapura e Inglaterra, nota que a maioria dos cientistas a trabalhar no laboratório vem de fora, embora “haja uma grande proporção de pessoas locais nas duas universidades”. Wang sublinha também a importância de trabalhar com especialistas ligados a outras áreas da ciência. “A ciência não tem fronteiras”, resume. 

Questionado sobre a escolha de Macau para o estabelecimento do laboratório, Wang Chunming revela que a aprovação do Governo Central aconteceu “talvez contra todas as expectativas”, mas que o corpo científico deste laboratório está a “mostrar investigação de qualidade”. Ainda recentemente, recorda Wang Chunming, foi estabelecido na Universidade de Macau um novo centro de engenharia farmacêutica, onde poderão nascer no futuro novos medicamentos. “Penso que os dois laboratórios (UM e MUST) estão muito focados e têm uma visão clara do que podem fazer daqui a cinco ou 10 anos. Já estabelecemos uma base sólida de investigação, mas o grande objectivo é o desenvolvimento de fármacos e a sua venda no mercado. É isso que vamos fazer nos próximos cinco a 10 anos.” 

 

 

 

Novo mundo da microelectrónica 

“Que tipo de produto a China mais importa?”, começa por perguntar Elvis Mak, director-adjunto e investigador do Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos (Laboratório AMS-VLS, na sigla inglesa). “É microelectrónica, é isso que estamos a fazer”, responde. Mak acredita que através da microelectrónica, ramo da electrónica voltado para a integração de circuitos electrónicos numa escala microscópica, a Universidade de Macau pode também contribuir para a área da saúde. 

Entre os vários projectos em desenvolvimento neste laboratório, está a ser estudada a criação de um aparelho médico portátil que permitirá fazer um diagnóstico primário e mais rápido de certas doenças através do estudo da sequência de ADN. O aparelho poderia substituir os métodos tradicionais e ser utilizado nos centros de saúde, sugere o investigador. “Em Portugal, por exemplo, se todos forem ao hospital fazer exames ao sangue, este vai ficar sobrecarregado. Então por que não descentralizar [este procedimento]? Um médico de um centro de saúde poderia fazer esse primeiro nível de rastreio”, explica Elvis Mak. 

O responsável admite que este tipo de investigação está a ser levado a cabo por outros países. A Universidade de Macau quer, porém, criar um aparelho que se adapte ao contexto chinês. “Não somos da opinião que se alguém o estiver a fazer, então nós já não fazemos, porque também não te vão vender a um preço baixo.” 

 

 

 

Treinar locais 

À semelhança dos dois departamentos do laboratório de Medicina Chinesa, também o Laboratório AMS-VLS da Universidade de Macau foi estabelecido em 2011, tendo como parceiro o Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados e Sistemas da Universidade Fudan, em Xangai. Além da investigação na área da engenharia biomédica, esta unidade está a desenvolver trabalho nas áreas das comunicações sem fios, energia, conversão de dados e processamento de sinais e sistemas integrados de física computacional. 

O corpo científico é formado por 15 investigadores, desde especialistas seniores até recém-licenciados e é o português Rui Martins, vice-reitor da Universidade de Macau e engenheiro de formação, que está á frente do centro. À MACAU, Elvis Mak sublinha ainda que um dos objectivos do espaço é a formação de recursos humanos. “Não queremos apenas importar, eu sou de Macau, estudei e nasci aqui e, por isso, é possível atingir um nível alto de investigação”, salienta o responsável, revelando que do laboratório têm saído jovens para trabalhar em grandes empresas. “Geramos um pequeno número de gente altamente especializada. Antes de acabarem o curso já têm um emprego muito bem pago e isto pode-nos ajudar a alcançar uma boa reputação.” 

 

Expansão regional 

O cientista da Universidade de Macau Wang Chunming prevê para o futuro uma maior colaboração entre o laboratório ligado à investigação na área da Medicina Chinesa e as cidades vizinhas de Zhuhai, Cantão e Hong Kong. “As fronteiras serão cada vez menos fronteiras”, realça Wang Chuning, ao falar sobre o novo projecto de integração económica do Sul da China, lançado pelo Governo Central e baptizado de “Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. 

Já o director-adjunto do Laboratório de Referência em circuitos integrados, Elvis Mak, diz que a possibilidade de criação de uma sucursal dos laboratórios em Zhuhai – sugestão de peritos do Interior da China que estiveram em Macau – poderá permitir aos alunos recém-licenciados da Universidade de Macau permaneceram nesta região a trabalhar em vez de procurarem outros mercados, como Singapura ou Estados Unidos. “Com um centro em Zhuhai teríamos acesso a grandes companhias na China, como a Huawei. Vários engenheiros destas empresas gostariam que colaborássemos com eles, mas neste momento não temos recursos. Se tivéssemos aí um centro, eles poderiam contribuir financeiramente e com engenheiros. Os nossos professores e estudantes poderiam participar ou supervisionar o desenvolvimento dos projectos.” 

Elvis Mak nega a ambição de Macau de tornar-se numa espécie de Silicon Valley. O segredo para o futuro “é mudar”, diz: “Nós precisamos de outra forma de olhar para a cultura chinesa e de representar a nossa região. Nós temos os nossos talentos, por que haveríamos de copiar outros? Não é uma boa ideia”. 

 

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Financiamento 

Até ao primeiro trimestre do ano passado, os dois laboratórios de referência do Estado receberam do Fundo de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (FDCT) 260 milhões de patacas: 62 milhões de patacas para o seu estabelecimento entre 2011 e 2013, 104 milhões de patacas para os trabalhos que desenvolveram entre 2014 e 2016 e 94 milhões de patacas para a aquisição de material. Todos os três anos estes dois laboratórios são avaliados pelo FDCT através de visitas às instalações e entrevistas. Desde que foram estabelecidos, em Janeiro de 2011, já foram realizadas duas avaliações. 

 

 

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Novos laboratórios de referência do Estado a caminho  

Macau vai acolher dois novos laboratórios de referência do Estado ainda este ano, de acordo com Ma Chi Ngai, presidente do conselho de administração do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia de Macau (FDCT). “Vamos criar um novo laboratório de referência do Estado na Universidade de Macau em relação à Internet [das Coisas] e pretendemos assim coordenar este projecto com o futuro desenvolvimento da cidade inteligente de Macau. Em relação ao da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, [será destinado] ao estudo da lua e dos planetas”, disse Ma Chi Ngai. “No futuro, iremos ter quatro laboratórios de referência do Estado aqui. Pretendemos que Macau tenha mais oportunidades de participar nos projectos de desenvolvimento de ciência e tecnologia do Estado”, complementou o presidente do conselho de administração do FDCT. 

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